Editorial

Ventos de Inverno na Europa

A repetição das eleições na Áustria agrava ainda mais a doença europeia.

No dia 23 de Maio a Europa acordou aliviada. Alexander Van der Bellen, o ex-líder do Partido Os Verdes que se candidatou às eleições presidenciais austríacas como independente, conseguiu vencer, por uma unha negra, Norbert Hofer, o candidato do Partido da Liberdade (FPO), uma formação ultranacionalista e xenófoba. Com o referendo sobre o "Brexit" já a dominar todas as atenções, não seria um bom augúrio que os austríacos elegessem um Presidente que seria o primeiro chefe de Estado europeu de extrema-direita desde a II Guerra Mundial, além do mais defensor de uma consulta popular sobre a permanência na Europa.

Contados os votos, a margem de diferença entre os dois candidatos foi mínima - apenas cerca de 31 mil votos -, tendo a proclamação do vencedor sido apenas possível depois de verificados os 900 mil votos por correspondência. Os resultados foram contestados desde o início pela FPO, que falou de irregularidades na contagem, acabando por apresentar recurso para o Tribunal Constitucional. Ontem, esta instituição deu razão às desconfianças e anulou os resultados das eleições, que agora se vão repetir.

Aconteça o que acontecer, importa tentar perceber como se chegou até aqui e, mais uma vez, muita da responsabilidade reside na incapacidade de os partidos tradicionais, que têm dominado o sistema político nas últimas décadas, conseguirem dar resposta aos novos problemas que as novas circunstâncias têm imposto aos governos. Esta impotência transfere-se mimeticamente para as instâncias comunitárias que sobrevalorizam os números na abordagem das crises, submergindo a política e, sem ela, o factor humano acaba por ser secundarizado. Isto facilita a cedência nos princípios, a defesa de interesses egoístas e a falta de resiliência perante a adversidade que se tem vindo a agudizar nos últimos anos.

David e Cameron e Jeremy Corbyn são protagonistas de excelência dos pecados mortais que estão a levar a política aos infernos. O primeiro convocou um referendo cedendo dramaticamente ao populismo e à mesquinhez dos interesses partidários; o segundo fez-se de morto grande parte da campanha, ignorando as consequências trágicas dessa omissão para o seu país, para o projecto europeu e para o seu próprio partido. Fortaleceram demónios já à solta na Áustria que terão uma segunda oportunidade com a realização de novas eleições. Neste país, o sistema partidário está particularmente permeável, como foi visível no sufrágio presidencial de Maio, cujos resultados ajudaram ao descalabro dos partidos tradicionais, que não conseguiram fazer passar os seus candidatos à segunda volta. O chanceler social-democrata Werner Faymann acabou por se demitir, acossado pelas críticas, sobretudo à forma como geriu a crise dos refugiados. Fayman, recorde-se, resolveu responder à vaga de refugiados erguendo vedações a Sul do país e liderando o movimento de fecho da rota dos Balcãs que isolou a Grécia. Entregue a lideranças de tão pequena dimensão, o futuro da Europa é cada vez mais difícil de desenhar. E como na Guerra dos Tronos, os ventos de inverno sopram cada vez mais gelados.