O frenesi congolês dos Mbongwana Star dá o tom no Med Loulé

Música, gastronomia mediterrânica e artesanato encontram-se mais uma vez em Loulé durante o Festival Med. Até sábado, pelo palco passarão nomes obrigatórios da world music como Mbongwana Star ou Ana Tijoux.

Foto
Os Mbongwana Star estreiam-se agora nos palcos portugueses DR

Parecia uma história típica do rock 'n' roll. Depois de dois álbuns de enorme sucesso à escala da world music, os congoleses Staff Benda Bilili (SBB) desentenderam-se invocando as habituais "diferenças artísticas", com as finanças também, inevitavelmente, à mistura. E a música fervorosa daquele grupo de músicos de rua – que tantos anos resistiram sem qualquer atenção para lá de Kinshasa – cindia-se em definitivo. De um lado, ficou o grupo que continuou a unir-se com a mesma designação em torno do fundador Ricky Likabu Makodu e do adolescente Roger Landu, chegado aos SBB pelas mãos dos realizadores belgas que anunciaram a boa-nova congolesa ao mundo.

Landu, recorde-se, era o miúdo que, munido de um instrumento de absoluta precariedade, uma corda de guitarra presa a uma lata chamada satonge, propulsionava o tom eléctrico e frenético do colectivo. Do outro lado, ao contrário daquilo que se poderia supor, não ficou a facção mais conservadora e dependente das rumbas locais. Pelo contrário, Yakala Ngambali e Nsituvuidi Nzonza deixaram os SBB para se juntar ao produtor franco-irlandês Liam Farrell (ex-Rita Mitsouko) e juntar as guitarras endiabradas a uma sonoridade que, ajudada pela electrónica, embarca numa inesperada viagem cósmica.

O grupo daí resultante, Mbongwana Star, descreve-se como fazedor de "space-hipno-afro-punk-electro", lançou um dos mais aclamados álbuns de 2015 (From Kinshasa), e estreia-se esta quinta-feira à noite em palcos portugueses no Festival Med, em Loulé.

Pelos dois palcos principais do Med, passarão ainda hoje o homem que pinta de electrónica a música balcânica, Shantel & The Bucovina Club Orkestar, o "papa-Coliseus" António Zambujo, o guitarrista da Guiné-Conacri Moh! Kouyaté e a cantora paraense Dona Onete.

Na sexta-feira, a grande atracção da noite será a rapper chilena Ana Tijoux (que actua esta quinta no Teatro da Trindade INATEL, no primeiro concerto do programa mensal da sala lisboeta em parceria com o FMM Sines). Herdeira da longa tradição de música contestatária latino-americana, Tijoux é o equivalente da cantautora Violeta Parra para os nossos dias. Depois de com o último álbum, Vengo (2014), se ter aproximado da música tradicional da América do Sul, substituindo os samples típicos de soul e jazz a que o hip-hop recorre em barda por sons imediatamente associáveis com a sua região, Tijoux prepara-se para gravar o quinto álbum, cuja edição se prevê ainda para este ano. Talvez Loulé possa ouvir algum desse material em avanço.

O dia trata ainda de convocar outro representante do hip-hop na figura do brasileiro Emicida, auto-intitulado “um homicida de preconceitos”, assim como três nomes distintos da nossa música popular unidos pela utilização (em diferentes registos) da guitarra portuguesa. 

Do lado da guitarra usada de forma mais convencional, teremos a fadista Aldina Duarte, em apresentação do seu álbum Romance(s), díptico criado com Pedro Gonçalves (Dead Combo) e a poetisa Maria do Rosário Pedreira, aplicando à estrutura do fado a história de um triângulo amoroso que é narrada ao longo do disco. Com uma abordagem cruzada com a música de dança, Luís Varatojo junta-se ao acordeão de Gabriel Gomes para assinar em Fandango um retrato instrumental de uma Lisboa em modo de descompressão de fim de dia. Próximos dos Gaiteiros de Lisboa (tirando as gaitas), os Marafona incluem a guitarra portuguesa num contexto de cancioneiro popular, em que a música de raiz portuguesa se atreve a soar filha da pop.

Ainda na sexta, Hindi Zahra colocará em palco o cruzamento entre as suas raízes francesas e marroquinas.

O Med termina no sábado com os Tinariwen, representantes maiores dos blues do deserto do Sahara, os Dubioza Kolektiv, que partem da tradição das fanfarras de metais balcânicas mas polvilham esse som com elementos de punk, electrónica e hip-hop, ou os praticantes da cumbia peruana Sonido Gallo Negro. A despedida festiva ajudada por um arsenal de electricidade chegará pela mão de Rocky Marsiano e Alo Wala, ficando a comitiva portuguesa por conta de duas mulheres que fazem do palco a sua casa – Capicua e Selma Uamusse.

Já na sua 13.ª edição, o Festival Med procurou desde o início afirmar sua identidade ao instalar-se na zona histórica de Loulé e cercando a música de gastronomia mediterrânica e de artesanato (sobretudo magrebino). Por ali, com a animação espalhada pelas ruas estreitas, é habitual descobrir o público da terra a marcar lugar postando-se simplesmente à janela.