Marco Gil
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Marco Gil

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A saudade: hoje quis falar-lhe, mas ele já não está cá

A saudade é o mais transversal dos sentimentos, é comum a todos, mesmo aos que não querem sentir saudades

Hoje quis falar-lhe, mas ele já não está cá. O meu pai foi-se embora há oito anos e sei que a viagem não tem volta, mesmo que a lembrança de um abraço preencha algo na hora de não sentirmos nada. A saudade é o mais transversal dos sentimentos, é comum a todos, mesmo aos que não querem sentir saudades, porque o aperto no peito aparece sempre sem avisar, o bom e o mau, e a memória nunca se apaga, a memória é de todos, dos ricos, dos pobres, a memória não tem idade ou morada.

Sentimos saudades todos os dias, do cheiro com que nos cruzámos na esquina e nos remete para um dia qualquer sem data ou hora marcada, do gelado que comemos na feira.

Do susto, do calor em dias frios e do toque por mais vazio que tenha sido. Pode trazer-nos lembranças boas, recuperarmos momentos perdidos, pode resgatar momentos de felicidade extrema. A saudade pode ser boa. E exige-se saudade dos que nos merecem recordações, dos que nos deixaram marcas e que por muito que o tempo seja rápido, nunca apressará a saudade.

O primeiro amor, ou até o segundo e os outros; a peça que não encaixava no sítio e nos impossibilitava de passar para o nivel dois, mesmo que fosse só um tetris; a voz do Eládio Clímaco, que rompia as fronteiras dos jogos; a bola do Maradona com a mão; o cheiro a algodão doce que, ainda que seja o mesmo, nos parece sempre ser como aquele que sentimos pela primeira vez; o chapéu do Tio avô; o vigésimo concerto dos Beatles; o terceiro par de ténis; os desenhos animados quando eles ainda eram animados; as publicidades; os detergentes ou os tanques de lavar roupa; o som do sino que já nem toca; aquele carro igual ao do Duarte & C.a... Todos eles são pedaços de um tempo que a nós nos ficou e nos traz saudades.

O cheiro é comum às saudades, o sabor recupera-nos o tempo e o som é o intermediário de uma perda que nos chega com a memória. Sentimos saudades dos lugares, das pessoas, das mesmas pessoas e dos mesmos lugares, podemos viajar nas saudades e até podemos sentir saudades da semana passada, da hora atrás, do café de ontem ou do encontro da parte da manhã. Gosto de sentir saudades de olhos fechados, "vejo" melhor os dias a que já não posso voltar, aproximo aquelas distâncias irrecuperáveis e faço nascer sentimentos que brotaram outrora e foram levados pelo curso de uma vida que não pára, nem para nos ver passar.

A barreira do tempo será sempre encurtada pela saudade, a má ou a boa, mas a que sentimos por condição ou pelo coração. Volto a abrir os olhos com a sensação de que senti o isqueiro que lhe acendeu o cigarro, da gargalhada forte depois do primeiro travo, da voz que será sempre a dele, da mão que passava sempre pelo cabelo, antes de chegar ao bolso, e do abraço que nos une o rosto onde lhe sinto a barba de dois dias e a força de ser sempre o nosso abraço. Como é bom "bater" a saudade. É por isso que ela pode ser o mais nobre e forte dos sentimentos.

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