Como um ruído abafado

Na dezena de longas-metragens (mais quatro curtas) produzidas na Argentina no último par de anos, o programa do II Festival de Cinema Argentino, vai-se impondo a sensação de um ruido surdo, abafado, tão indefinível como discretamente ameaçador, uma paranoia estranhamente serena.

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Um só filme, visto isoladamente, talvez não nos diga muito sobre o sítio e sobre o tempo em que foi feito, porque prevalece a visão específica do seu autor. É preciso uma catadupa de filmes para que se comece a desenhar qualquer coisa que ultrapasse as visões individuais, que estabeleça um "panorama". É com o que se passa quando se mergulha na dezena de longas-metragens (mais quatro curtas), produzidas na Argentina no último par de anos, que constitui o programa do II Festival de Cinema Argentino que ocupa o São Jorge entre os dias 30 de Junho e 3 de Julho.

Nos seus diferentes temas e histórias, vai-se impondo a sensação de se ouvir um ruido surdo, abafado, tão indefinível como discretamente ameaçador, uma paranoia estranhamente serena. Que seria bem exemplificada por Parabellum (dia 30, 22h, e dia 1, 18h), de Lukas Rinner, a baloiçar entre o realismo e a semi-loucura do seu contexto narrativo: no delta do Tigre, um dédalo de rios e canais que serve de local para casas de férias e fins de semana para muitos habitantes de Buenos Aires, uma comunidade que tem tanto de milícia como de seita mística, prepara-se, em estranhos rituais, para o "fim do mundo" - seja ele o que for. É uma espécie de realidade paralela, que confunde o medo com uma tomada de posição (e acção) sobre o medo, narrada com aquele tipo de humor frio, quase clínico, que talvez associemos mais a certas coisas vindas da Europa, dos austríacos como Haneke ou Seidl aos gregos como Lanthimos (mas Rinner tem origem austríaca, a relação é capaz de não ser espúria).

Esse ruido abafado pode, também, ser a história da Argentina. Num dos melhores filmes do programa, 327 Cuadernos de Andrés di Tella (dia 1, 16h, e dia 3, 14h00), a memória da segunda metade do século XX e a sua convulsa história política toma conta dos acontecimentos, numa obra que funde o diário pessoal (os 327 cadernos) de um escritor exilado (Ricardo Piglia) de regresso à Argentina e ao confronto com o seu próprio passado. Numa estrutura densa, onde o racconto na primeira pessoa se imiscui com muitas imagens de arquivo, é como que o "regresso" de uma história escondida, e a constatação da impossibilidade de separar um destino colectivo de um destino individual - há sempre qualquer do primeiro a determinar o segundo. A história é também o tema de El Movimiento (dia 30, 20h, e dia 1, 20h), de Benjamin Naishtat, evocação - distanciada e artificialista - da Argentina "sem lei" da época da sua constituição em estado independente. E as ressonâncias políticas assombram o misterioso Cuerpo de Letra, de Juan Angiolillo (dia 2, 16h), que segue "graffiteiros" políticos numa Buenos Aires nocturna, cerrada e clandestina - é um documentário, mas é um filme onde a tensão se respira como se fosse uma ficção.

Depois, há os retratos de personagens femininas, com rimas curiosíssimas como os nomes de Paulina, de Santiago Mitre (dia 2, 22h), e Paula, de Eugenio Canevari (dia 30, 18h, e dia 3, 20h), que também põem em questão a relação entre a Argentina urbana e a rural, tema ainda presente em Camino a la Paz, de Francisco Varone (dia 30, 16h, e dia 3, 16h). E, para nós o mais surpreendente filme do programa, o momento em que o ruído abafado se revela ser o do crepitar das chamas de um incêndio invisível: El Incendio, de Juan Schnitman (dia 1, 22h, dia 3, 22h), retrato de uma intimidade conjugal a ser devastada pela angústia imposta de fora (dinheiro e burocracias), pasto para labaredas sem imagem, terror sem "terror", thriller sem "thriller", com inspiração - disse o realizador - num cruzamento entre Cassavetes e os Cães de Palha de Peckinpah.