Seis anos depois, Israel e Turquia reatam relações diplomáticas

Os dois países tinham relações cortadas desde a operação militar israelita contra uma frota humanitária turca que pretendia chegar a Gaza.

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O barco turco Mavi Marmara em Dezembro de 2010, alguns meses depois do incidente com as forças israelitas Mustafa Ozer / AFP

Os governos de Israel e da Turquia anunciaram esta segunda-feira que vão retomar as relações diplomáticas entre os dois países. A decisão põe fim a um período de seis anos de costas voltadas na sequência do incidente que envolveu uma flotilha turca que se dirigia para Gaza.

Em Roma, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que o acordo entre os dois países é um “passo importante” e referiu as “imensas implicações para a economia israelita”. De acordo com a Reuters, a normalização das relações com Ancara irá permitir a abertura de negócios lucrativos para o transporte de gás natural israelita através do mar Mediterrâneo.

Da sua parte, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, disse que os dois países vão poder trocar embaixadores, assim que o acordo — assinado formalmente esta terça-feira — entrar em vigor. Porém, o recém-empossado chefe de Governo turco afirmou ser ainda muito cedo para se falar na questão energética. O Presidente, Recep Tayyip Erdogan, informou na véspera o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, acerca do restabelecimento das relações com Israel, de acordo com a AFP.

O acordo permite à Turquia retomar o envio de ajuda humanitária para Gaza através dos portos israelitas. Yildirim revelou que o primeiro barco com dez mil toneladas de bens será enviado na direcção do porto de Ashdod na sexta-feira, segundo o jornal Hurryiet. Serão ainda construídas instalações hospitalares e habitacionais no território palestiniano.

Netanyahu reiterou que Israel vai manter o bloqueio a Gaza, mas irá permitir o envio de ajuda humanitária através dos seus portos. Israel impede praticamente qualquer entrada ou saída por via terrestre no enclave palestiniano, com a justificação de que o movimento islamita Hamas, actualmente no poder na Faixa de Gaza, possa receber apoio para atacar o território israelita. “Este é um objectivo de segurança supremo para nós e eu não estava disponível para o comprometer”, afirmou Netanyahu.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, revelou estar “obviamente agradado” com a reaproximação diplomática de dois dos principais aliados de Washington na região. “Este é um passo que queríamos ver a acontecer”, disse Kerry, após reunir com Netanyahu.

Depois de décadas de grande proximidade, os caminhos de Israel e da Turquia afastaram-se após o incidente que envolveu uma embarcação turca que pretendia fazer chegar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. A 31 de Maio de 2010, a flotilha Mavi Marmara foi interceptada pelas forças israelitas quando tentava furar o bloqueio imposto por Telavive a Gaza.

A operação militar provocou a morte de dez activistas turcos e deixou as relações entre os dois países em muito mal estado. Ambos os lados trocaram acusações quanto à origem do confronto. Os membros da ONG pró-palestiniana acusaram as forças israelitas de dispararem sem contemplações assim que alcançaram a embarcação. O Governo israelita justificou a acção dos militares como uma resposta em legítima defesa perante ataques com bastões, facas e uma arma.

Foi estabelecida uma comissão de inquérito pela ONU, mas não se conseguiu apurar a altura exacta em que o comando militar iniciou os disparos. No âmbito do reatamento das relações entre os dois países, Israel comprometeu-se a pagar uma indemnização de 20 milhões de dólares (18 milhões de euros) a um fundo de apoio às famílias das vítimas.

Os dois países já haviam dado sinais que indicavam uma reaproximação. Em 2013, Netanyahu chegou mesmo a pedir desculpas a Erdogan, durante uma conversa telefónica promovida pelos EUA. O acordo agora alcançado chega numa altura em que os dois países vêem a sua posição internacional enfraquecida. O abate de um caça russo, em Novembro passado, que sobrevoava o espaço aéreo turco deixou os dois países perto de um conflito; as relações entre os EUA e Israel atravessam um dos períodos mais negativos das últimas décadas, especialmente após o acordo para a limitação do desenvolvimento nuclear iraniano.

Erdogan aproveitou também para pedir desculpas à Rússia pelo abate do caça e deixou um apelo para "restaurar as relações" entre os dois países, de acordo com um comunicado divulgado pelo Kremlin.