A arte urbana saltou da Quinta do Mocho e propagou-se a todo o concelho de Loures

Durante uma semana, cerca de 100 artistas nacionais e estrangeiros produziram obras em prédios, equipamentos e autocarros. “Adoro pintar em sítios em que a cultura não é fácil de encontrar para as pessoas de lá”, diz um desses artistas, o francês STEW

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A arte urbana, na qual Loures se vem afirmando nos últimos anos como uma referência nacional e internacional, galgou as fronteiras do bairro da Quinta do Mocho e disseminou-se pelo concelho. Um pouco por todo o território, há agora empenas de prédios, muros de escolas, paredes de viadutos, depósitos de água, postos de transformação da EDP e autocarros que estão nas ruas, à vista de todos, mas bem podiam estar numa qualquer galeria ou museu.

Ao longo da última semana, cerca de 100 artistas portugueses e estrangeiros participaram naquela que foi a primeira edição do Loures Arte Pública. A iniciativa terminou (pelo menos oficialmente) no domingo, com a promessa de regressar em 2017, mas as obras que dela resultaram vão perdurar e contribuir para que Loures constitua, cada vez mais, um local de visita obrigatório para todos os apreciadores de arte urbana.

A Quinta do Mocho, que antes era um bairro no qual só entrava quem tinha que o fazer e que está hoje transformado numa galeria de arte a céu aberto, foi o primeiro ponto do concelho a conquistar um lugar no roteiro dessa visita. Agora as cruzes a marcar no mapa são muitas mais e estão, nalguns casos, separadas por dezenas de quilómetros.

“Há obras que nos têm deixado em estado de êxtase. São fantásticas, extraordinárias. E muito variadas”, observa a vereadora da Coesão Social e Habitação da Câmara de Loures, que em conversa com o PÚBLICO confessa ter dificuldade em destacar este ou aquele trabalho de entre os mais de uma centena que ganharam forma nos últimos dias.

“Cada um é mais bonito do que o outro”, diz Maria Eugénia Coelho, que ainda assim arrisca  referir algumas obras. Entre elas duas visitadas pelo PÚBLICO na passada quinta-feira: um reservatório de água em Santo António dos Cavaleiros, pintado pelo brasileiro Utopia, e uma parede de um viaduto em Frielas, intervencionada pela francesa Vinie.

A vereadora fala ainda numa empena de um prédio no Prior Velho, obra do francês Greg Astro (que por estes dias também deixou a sua marca num autocarro da Rodoviária de Lisboa), e no edifício de uma escola em A-das-Lebres, no qual Marcelo Gomes pintou um pássaro pousado num galho. Sobre essa última, Maria Eugénia Coelho conta com satisfação que uma educadora se congratulou com a obra, dizendo que graças a ela a sua escola tinha ganho asas.

A autarca constata aliás que tem sido generalizada a satisfação dos munícipes para com este Loures Arte Pública. Uma prova disso mesmo são os muitos pedidos que já no decurso da iniciativa têm chegado à câmara, através de telefonemas e mails, provenientes de privados e de representantes de instituições públicas, para que também os seus imóveis sejam intervencionados.

“No próximo ano a selecção de suportes vai dar algum trabalho”, antecipa por isso Maria Eugénia Coelho. Neste que foi o ano de estreia do festival, a escolha foi mais fácil, sendo certo que à população foi também pedido que indicasse locais que gostaria de ver pintados.

A convicção da autarquia é que iniciativas como esta permitem não só “uma transformação do espaço urbano”, mas também “uma apropriação do mesmo pelas pessoas”, contribuindo para que ele se torne local de “partilha, convívio, harmonia”. Além disso, sublinha a vereadora da Coesão Social e Habitação, por detrás de tudo isto está também a ideia de que “a cultura é democrática”. “As artes plásticas têm que estar na rua e não fechadas em museus e em galerias”, defende, salientando o “incentivo à criação” que tal pode constituir.

Cerca de dois anos depois de a arte urbana ter entrado em força no município, através da porta grande que foi a Quinta do Mocho, Maria Eugénia Coelho não tem dúvidas de que o concelho “é cada vez mais uma referência a nível internacional”. “A arte urbana é uma marca de Loures”, conclui com agrado.

Das pombas às figuras japonesas

Entre os artistas que dedicaram os últimos dias a deixar o bairro ainda rico estiveram o uruguaio Pablo Machioli, que deixou para trás uma pomba repleta de cores e um apelo à paz no mundo, e o israelita Untay, que pintou uma figura feminina. Segundo conta um dos elementos da organização, alguns dos populares que por ela passaram alertaram para as semelhanças com a fadista Amália Rodrigues. Convencido, o artista acabou por escrever na empena do prédio a palavra saudade.

Também na obra do espanhol Aleix Gordo há sinais de que este é um trabalho que se faz com os contributos dos moradores da Quinta do Mocho e de quem por ali passeia, de olhos bem abertos e pescoço levantado. Num dos cantos inferiores do seu mural, o artista escreveu os nomes de algumas das pessoas da organização, do graffiter portuquês que o trouxe ao país, de um rapper local e de um grupo de raparigas do bairro.

Depois de três dias de trabalho, Aleix Gordo explica que aquilo que pretendeu foi homenagear as mulheres que vivem na Quinta do Mocho. “Faltava um toque feminino ao bairro”, diz ao PÚBLICO, observando que a figura que desenhou é “uma versão africana” da deusa grega Atena.

O artista de 37 anos, que se apresenta como “muralista e ilustrador”, nota que “é muito difícil de encontrar” no mundo um espaço como este, que reúna de uma forma tão concentrada tantos murais com tão grande dimensão. Aleix Gordo elogia também o festival que agora termina, constatando que é invulgar uma iniciativa como esta conseguir reunir um número de artistas tão significativo.

Alguns prédios à frente, na tarde muito quente de quinta-feira, o PÚBLICO encontra o francês STEW a trabalhar. No topo de uma das gruas que a câmara alugou para o Loures Arte Pública, o artista vai fazendo, com recurso a folhas de stencil e a latas de tinta, “uma figura japonesa” que espreita através de uma porta aberta.

“Adoro pintar em sítios em que a cultura não é fácil de encontrar para as pessoas de lá. Este não é um bairro muito rico e fico feliz por lhe dar alguma cor”, diz. A Quinta do Mocho, acrescenta STEW, é hoje “um museu para a arte de rua, uma galeria a céu aberto”, da qual podem usufruir residentes e visitantes.

Num outro ponto do concelho, por baixo de um viaduto em Frielas, trabalha na mesma altura a francesa Vinie. Ao vê-la concentrada na sua obra, quem por lá passa não se atreve a interromper. Alice Ferreira, moradora da zona, pára a sua marcha durante alguns minutos para contemplar o rosto feminino, com uns grandes olhos verdes e cabelo da mesma cor que ali vai surgindo.

“Está muito bonito. Está um espectáculo, não tenha dúvida”, diz, constatando que “há muita gente que passa aqui e diz o mesmo”. Elogio feito, Alice Ferreira segue caminho, embora volte a parar uns metros adiante, para lançar um novo olhar sobre a obra que veio tornar mais bela a localidade em que vive.

Também aqui há uma história que, entre as muitas que ficarão para contar deste festival, a organização não esquece: a de um solícito transeunte que perguntou a Vinie se não queria que ele fosse a casa buscar a sua motoserra e cortasse a figueira que tapa parte da parede que a artista pintava. Conhecida por incorporar no seu trabalho elementos da natureza, a francesa recusou e a árvore lá permaneceu, agora com uma nova envolvência.

Um dos muitos percursos possíveis pelas mais de cem novas obras de arte urbana de Loures inclui uma passagem por Santo António dos Cavaleiros, onde foram intervencionados dois reservatórios de água. Um deles ostenta um desenho de Homer e Bart Simpson, da autoria de SEM e Risco. Já o segundo reservatório ganhou uma obra do brasileiro Utopia, na qual se vê uma rapariga de cabelos azuis, rodeada de esferas com rostos de várias cores, dimensões e expressões. O artista pintou também dois dos candeeiros de iluminação pública existentes no local. 

Já com várias obras em Loures (incluindo a Angela Merkel da Quinta do Mocho), o português Nark teve agora oportunidade para pintar um autocarro. O artista de 36 anos explica que escolheu a inteligência artificial, o facebook, o instagram e as “relações artificiais” que se formam em torno deles como tema. “Não me consigo adaptar”, confessa ao PÚBLICO.

Nark diz que “é espectacular” que o seu mais recente trabalho vá circular pelo concelho, sobre rodas. “É o melhor meio publicitário que um artista pode ter”, constata satisfeito. O artista também não poupa elogios ao trabalho que vem sendo feito na Quinta do Mocho e ao Loures Arte Pública. “Até me custa acreditar como é que conseguiram juntar 100 artistas. É gente muito complicada”, remata. 

Apesar de oficialmente o festival ter terminado no domingo, não é de estranhar se nos próximos dias houver novas obras a nascer em Loures, tal foi a dimensão que o evento atingiu e a atenção que despertou.

Quando tudo estiver terminado a câmara quer publicar um catálogo com todos os trabalhos. A autarquia promete também manter actualizada a informação online com a localização das diferentes obras, para que todos aqueles que as queiram visitar o possam fazer sem dificuldade. Em 2017, o Loures Arte Pública está de volta.