Crónica de jogo

Os islandeses também sabem pescar “tubarões”

Com triunfo por 2-1, Islândia afasta Inglaterra e marca encontro com a França nos quartos-de-final

Eles não querem parar de sonhar
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Eles não querem parar de sonhar PAUL ELLIS/AFP

Este é o sonho do qual a Islândia não quer acordar, a história que os islandeses não querem que acabe: um triunfo por 2-1 sobre a Inglaterra valeu à equipa nórdica a passagem aos quartos-de-final do Euro 2016. A selecção comandada por Lars Lagerbäck mostrou que o bacalhau pode ser uma das principais exportações da Islândia, mas estes jogadores também já sabem pescar “tubarões”. Depois de uma fase de grupos invicta, com uma vitória e dois empates (um deles diante de Portugal), os estreantes islandeses continuam a escrever páginas de história.

A Islândia era uma das selecções com pior ranking entre as qualificadas para a fase final deste Campeonato da Europa, mas tem-se aplicado em campo para demonstrar quão enganadoras podem ser as hierarquias. Sem mostrarem medo de ninguém, e com momentos de brilhantismo, os islandeses continuam a trilhar um percurso cheio de mérito por este Euro 2016. A última jornada da fase de grupos foi um excelente exemplo disso: já no período de compensação, a Islândia chegou à vitória sobre a Áustria e redefiniu os cruzamentos nos oitavos-de-final – Portugal ia enfrentar a Inglaterra e a Islândia defrontaria a Croácia, mas as posições inverteram-se com aquele golo. O David não se atemorizou e abateu mais um Golias. As consequências foram imediatas, com a demissão do seleccionador inglês, Roy Hodgson (no cargo desde 2012), logo no final do encontro.

Contudo, até foram os ingleses a primeira equipa a estar em vantagem no marcador. Uma entrada forte na partida resultou no 1-0 logo aos quatro minutos: Rooney, de penálti a castigar falta de Halldórsson sobre Sterling, adiantou a equipa comandada por Roy Hodgson.

Mas a Islândia ripostou de imediato e restabeleceu a igualdade com recurso a uma das suas armas predilectas, os lançamentos laterais. Gunnarsson fez o arremesso, Árnason cabeceou e Ragnar Sigurdsson, de primeira, fez o 1-1.

Apesar da boa entrada, a Inglaterra era uma equipa sem ideias ou criatividade, à qual faltou frescura física – algo que pareceu abundar sempre entre os islandeses, disponíveis para correr cada centímetro do relvado em luta pela bola. Depois do golo inglês, contam-se pelos dedos de uma mão as situações flagrantes para fazer o marcador funcionar. Harry Kane atirou por cima (17’) e depois obrigou Halldórsson a uma grande defesa (28’). Mas nessa altura já era a Islândia que liderava o marcador: num lance em que o sector mais recuado da Inglaterra comprometeu, Sigthórsson aproveitou a passividade dos defesas e desferiu um remate rasteiro ao qual Hart chegou, mas não conseguiu travar. O guarda-redes devia ter feito melhor, mas foi incapaz de impedir que a bola entrasse lentamente na sua baliza.

O ataque da Inglaterra não funcionava, com Kane desaparecido e os extremos Sterling e Sturridge sem capacidade para criarem desequilíbrios. Rooney, no seu novo posicionamento a meio-campo, também não fez suficiente para se destacar: um remate que errou o alvo, mesmo a terminar a primeira parte, foi tudo o que se viu do capitão inglês, que seria substituído ainda antes do final do encontro.

A Inglaterra teria de fazer muito mais para evitar a saída prematura do Euro 2016. Roy Hodgson fez uma mudança para a segunda parte, com Dier a ceder o lugar a Wilshere – uma aposta arriscada no futebolista do Arsenal, vindo de uma temporada flagelada por lesões. Mas a selecção inglesa não melhorou substancialmente. Um cabeceamento de Kane para as mãos de Halldórsson e um remate de Dele Alli por cima foi o que se viu.

A alma islandesa durou até ao fim. Ragnar Sigurdsson ainda voltou a ameaçar Hart, num remate acrobático, e Gunnarsson também assustou já perto do apito final. Mas nada iria alterar a epopeia da Islândia no Europeu. Diante da França há um novo capítulo a escrever.