Bloco quer mais força para governar e para construir uma nova Europa

Catarina Martins vai este domingo anunciar as exigências do BE para o Orçamento do Estado para 2017. Sobre a hipótese de Portugal sair da Europa foi peremptória: "O tempo não volta para trás, não vamos ser nações isoladas." Agora, esta Europa "não serve".

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Catarina Martins diz que o Bloco de Esquerda tem de estar preparado para todos os cenários Miguel Manso

"Brexit", austeridade, Europa, esquerda. Os temas surgem interligados na X Convenção do Bloco de Esquerda que termina neste domingo, no Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa. A saída do Reino Unido da União Europeia (UE) foi obviamente discutida. Desengane-se, porém, quem pensa que o BE quer já um referendo igual em Portugal. Não. Pelo menos por agora. Embora se tenham ouvido posições como a de Fernando Rosas que ontem à tarde, no palco do Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, chegou a proclamar: “A União Europeia faliu.” A posição da direcção é a de que há que procurar uma alternativa dentro da UE. Essa é a responsabilidade da esquerda, no país e lá fora.

É certo que  todos os bloquistas são críticos do actual estado do projecto europeu e alguns bem ácidos. Basta atentar na escolha de palavras do ex-líder Francisco Louçã que, à entrada para a convenção, declarava aos jornalistas que a UE é “um projecto falhado, que redundou em finança selvática contra as pessoas”. Embora a porta-voz Catarina Martins tenha ressalvado também à chegada que “este não é o momento de os países saltarem com cartadas de referendos, é o momento de pôr em cima da mesa alternativas pensadas”.

Mas não deixou de fazer um problemático diagnóstico: “O euro e a União Europeia hoje não são uma solução para o país. São um problema, não para Portugal, mas para todos os países. Mas isso não quer dizer que não resida na Europa uma solução de futuro para todos os países. Não nos enganemos, o tempo não volta para trás, não vamos ser nações isoladas. Agora é preciso dizer que a construção europeia, tal como ela foi feita, não serve.” Porém, fez questão de acrescentar: “Acho que, neste momento, não ganhamos em achar que as soluções para todos os países são referendos que podem pôr em campos opostos soluções que são todas más. Este é momento de a política assumir responsabilidades e fazer propostas sobre alternativa de construção.”

Por agora a ideia é, como diz o título da moção maioritária que une as correntes de Catarina Martins e do líder parlamentar Pedro Filipe Soares, consquistar o poder para construir uma alternativa: “Força da Esperança, o Bloco à conquista da maioria”. A responsabilidade que o BE entende ter em mãos é lutar contra a austeridade em Portugal e na Europa.

Na intervenção de abertura, Catarina Martins foi mais longe na admissibilidade de que a participação portuguesa na UE pode mudar. Transparente, assumiu que o BE tem de estar preparado “para todos os cenários”. Considerou mesmo que pode ser “perigoso” que o país fique “à espera dos bons ventos” de Bruxelas. E avisou que no futuro os portugueses podem ser “confrontados com maiores crises financeiras” e um crescendo de xenofobia.

Outra linha de orientação do discurso da porta-voz foi o objectivo de ser Governo. Admitindo que “falta muito, falta mesmo o mais difícil”, Catarina Martins lembrou que o BE “teve 10% nas eleições” legislativas, resultado que considerou determinante para a formação da maioria de esquerda, mas desabafou: “Não temos ainda a força para fazer o Governo.” Uma ideia que fez questão de frisar, acrescentando uma promessa. A de que “o partido irá continuar a sua intervenção na defesa, por exemplo, do emprego e dos pensionistas”.

E empolgando a plateia, Catarina Martins garantiu que “tivesse o Bloco tido mais força e o Banif não teria sido entregue ao Santander”. Salientando ainda outras causas em que o Bloco teria apostado se tivesse mais influência governativa: “Tivesse o Bloco mais força e o governador do Banco de Portugal não continuava a assustar o país com ameaças de colapso bancário umas atrás das outras.” E ainda: “Tivesse o Bloco mais força e Portugal não tinha assinado com a Turquia a vergonha do acordo anti-humanitário que é o contrário do que a Europa tinha que fazer.”

A prioridade das autárquicas

A preocupação com a conquista e aumento do poder foi uma constante nos discursos dos principais dirigentes. E a questão eleitoral levou mesmo a que alguns delegados - entre eles dirigentes com o peso na estrutura do partido como são Helena Pinto e Pedro Soares - subissem ao palco do pavilhão para lembrar a prioridade que o BE tem de dar às autárquicas. Uma novidade no discurso do BE que demonstra o quanto o crecimento no poder local como modo de implantação a nível nacional é uma preocupação.

A afinação do discurso dos dirigentes foi uma constante. O BE quer mais força para governar e para construir uma nova Europa. Já à tarde, Pedro Filipe Soares, ao apresentar a moção da direcção, tratou de fazer ele mesmo a pergunta e dar a resposta: “Quer o BE ser Governo? A resposta é: quer ser a força mais forte do Governo de Portugal”.Ora como quer o BE chegar a essa situação de força maioirtária? A resposta é dada pelo próprio: “Se quisermos ter futuro temos que desenhar uma maioria social à esquerda.”

Mas o líder parlamentar não deixou de ser duro com a actual orientação da UE. E exigindo mudanças soltou em tom irónico: “Será que acreditam mesmo que Wolfgang Schäuble vai ficar mansinho e vai falar candidamente com os países do sul da Europa ou vai-se levantar e dizer: ‘nem pensar em aplicar sanções para Portugal, eles não podem sofrer mais?” ”. Repetiu que Portugal tem que dizer no Conselho Europeu que “não é aceitavel a aplicação de sanções”.

Pedro Filipe Soares acusou ainda os dirigentes da UE de terem aberto “a porta à extrema-direita” e de tratarem “os povos como lixo”. Os mesmos que, afirmou, “são eles que a cada cedência que fazem” vão abrindo “caminho à extrema-direita” nos Estados-membros.

Recado ao PS

“Há um espectro que paira sobre a Europa”. Foi com estas palavras, as mesmas com que começa o Manifesto Comunista de Marx e Engels, de 1848, que, na tarde deste sábado, o bloquista José Manuel Pureza iniciou a sua intervenção na X Convenção. Já não é o espectro do comunismo, como noutro século. “É o espectro da política do medo”, continuou o deputado e vice-presidente da Assembleia da República.

E foi no palco do pavilhão do Casal Vistoso talvez o dirigente do BE que assumiu um tom mais frontal na critica e na interpelação directa ao primeiro-ministro António Costa: “Disse há dias António Costa que é cada vez mais difícil ser socialista sem ser crítico da União Europeia. Tem plena razão. Mas isso é pouco. É mesmo o mínimo dos mínimos.”
Para Pureza, “está na hora de dizer, com toda a clareza, que só se pode ser socialista contra a City e contra Frankfurt, contra Cameron e contra Hollande, contra Merkel e contra Dijsselbloem”. E justificando a exigência que faz ao líder do PS e primeiro-ministro explicou porquê: “Em nome da melhor Europa, do espírito critico, das lutas todas pela dignidade, da permanente incompletude, é com serenidade e com firmeza que afirmamos nesta X Convenção do BE que não se pode ser socialista senão recusando aquilo em que União Europeia se tornou.”

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