Croácia-Portugal à lupa: gerir o jogo, mesmo sem bola

Equipa académica analisa o jogo dos oitavos-de-final do Euro 2016.

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A dinâmica das acções de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede. Na figura “rede de acções” do Portugal-Croácia, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos, cruzamentos. O “tamanho” de cada jogador é definido pelo número de jogadores com quem este interage. A cor verde significa menor precisão nas acções, aumentando para amarelo e, finalmente, mais vermelho que indica maior precisão. A “largura” de cada ligação (seta), que apenas aparece se for superior a 4, aumenta em função do número de acções realizados entre os jogadores dessa ligação. 

A equipa de Portugal fez três estreias nestes oitavos-de-final: José Fonte entrou para o lugar de Ricardo Carvalho na defesa, Cedric substituiu Vieirinha como lateral-direito e Adrien substituiu João Moutinho no meio-campo. A Croácia, primeira classificada no grupo D, fez cinco alterações em relação ao jogo com que venceu a Espanha, pois Strinic, Modric, Brozovic, Mandzukic e Vida substituíram Vrsaljko, Jedvaj, Rog, Kalinic e Pjaca.

A rede de ações mostra uma maior densidade de ligações entre os jogadores da Croácia, resultante do facto de ter tido mais tempo a posse de bola (59%) e ter realizado 673 passes, dos quais 83% chegaram ao seu destino, ao passo que Portugal fez 479, com 76% de eficácia. Todavia, Portugal teve uma rede mais homogénea, indicando que os jogadores portugueses estavam igualmente activos na participação no jogo.

Portugal iniciou o jogo no habitual 4-4-2, com William Carvalho como o médio mais defensivo, João Mário e André Gomes como médios interiores e Adrien Silva como médio mais ofensivo. A Croácia iniciou o jogo em 4-2-3-1, com Modric e Badelj como médios mais recuados e Perisic, Rakitic e Brozovic como médios ofensivos.

Com um jogo diferente do habitual e com ambas as equipas a adoptarem uma postura mais cautelosa, Portugal sentiu maiores dificuldades em fazer chegar a bola aos homens mais adiantados. Com a pressão feita pela Croácia, Rui Patrício optou por jogar longo, o que resultou numa percentagem de apenas 50% passes certos, como mostra a cor amarela na rede. William Carvalho voltou a ser o organizador de jogo, no centro do terreno, mas foi pelo lateral-esquerdo Raphael Guerreiro que a bola mais circulou, sendo dele as ligações mais fortes da equipa portuguesa para William e Adrien Silva. Os avançados de Portugal deslocaram-se muito para os corredores laterais, para auxiliar os médios interiores e laterais, deixando mais livre o corredor central. André Gomes foi um elemento que não conseguiu criar ligações com os colegas, dificultando a circulação de bola de Portugal e a entrada da bola em zonas de finalização. Ao contrário dos jogos anteriores, Portugal não foi a equipa mais rematadora e Cristiano Ronaldo esteve sempre longe das zonas de finalização, tendo em todo o jogo realizado apenas um remate.

A Croácia, em posse de bola, circulou a bola entre os seus defesas, com Modric a ser o principal organizador de jogo. Ao contrário dos anteriores adversários de Portugal, a Croácia, com um jogador a mais no meio-campo, tomou a iniciativa e foi capaz de circular a bola entre os seus defesas e médios, principalmente pelos defesas Vida e Corluka e os médios Modric e Badelj, como mostra a rede de acções. No entanto estas acções desenvolveram-se sobretudo no seu meio-campo defensivo, uma vez que Portugal defendeu à entrada do seu meio-campo. Com a bola no corredor central, os laterais davam largura e jogavam subidos em linha com os médios, permitindo que Perisic e Brosovic jogassem mais pelo corredor central e criando superioridade numérica. No entanto, William Carvalho seguiu sempre de perto Rakitic e, com uma equipa compacta e organizada a defender, Portugal conseguiu anular o ataque da Croácia, que não foi capaz de levar a bola até Mandzukic, apesar das várias tentativas através de cruzamentos. Portugal recorreu inclusivamente à falta para impedir o ataque croata como mostram as 28 faltas cometidas, sete sobre Srna e seis sobre Rakitic. A Croácia tentou chegar ao último terço do campo através de passes longos em diagonal de Modric para Perisic, mas foi sobretudo em situações de bola parada que conseguiu entrar na área portuguesa.

No inicio da segunda parte, Portugal mudou para 4-3-3, com a entrada de Renato Sanches para o lugar de André Gomes. A entrada do médio veio dar maior capacidade de manutenção e condução da bola. 

Ambas as equipas jogaram de forma muito organizada, evitando movimentos de ruptura na procura do espaço atrás da linha defensiva, o que levou a um jogo com muito poucas oportunidades de golo e onde ao fim dos 90 minutos não tinha havido nenhum remate à baliza. Consequentemente o jogo foi para prolongamento já com Quaresma a substituir, João Mário que até então tinha tido um papel importante no meio campo de Portugal, com 97% de passes com êxito.

No prolongamento, apesar das situações de bola parada da Croácia, foi num contra-ataque conduzido por Renato Sanches que Portugal conseguiu chegar ao golo de Quaresma, após um primeiro remate de Cristiano Ronaldo defendido pelo guarda-redes. Com este golo Portugal garantiu a passagem aos quartos-de-final, onde irá defrontar a Polónia que eliminou a Suíça, após grandes penalidades. 

Duarte Araújo, José Pedro Silva, Micael Couceiro

Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa; e Ingeniarius, Lda.