Crítica

Diálogos entre a música e o teatro ibérico no Palácio de Sintra

Um recital de harpa por Sara Águeda Martín e a bem sucedida estreia em Portugal do agrupamento Seconda Pratica.

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Centrado na música medieval e renascentista, o ciclo “Reencontros – Memórias Musicais de um Palácio”, com direcção da violoncelista Diana Vinagre e organização do Divino Sospiro-CEMSP e da Parques Sintra/Monte da Lua, constitui um valioso contributo para colmatar a lacuna desses repertórios na maior parte das iniciativas da vida musical portuguesa. Depois de uma primeira edição dedicada à redescoberta da história do Palácio Nacional de Sintra, a programação de 2016 centrou-se na interacção entre a música, a dança e o teatro.

Depois da abertura, a 3 de Junho, com um baile renascentista pela Compagnie Outre Mesure, passaram pelas magníficas Salas dos Brasões e dos Cisnes agrupamentos de referência como Oltremontano e Mala Punica e conferencistas como o musicólogo Manuel Pedro Ferreira e o historiador de teatro José Camões. O fim-de-semana de encerramento deu destaque às relações entre a música e o teatro através de um recital de harpa por Sara Águeda Martín e da bem sucedida estreia em Portugal do agrupamento Seconda Pratica.

Instrumento de relevo na música ibérica dos séculos XVI e XVII, a harpa de duas ordens (com duas filas de cordas de modo a permitir a tocar os sons da escala cromática) possui um amplo repertório, quer a solo, quer na música de conjunto ou como acompanhamento da voz. Colaboradora de diversos grupos internacionais, Sara Águeda Martin tocou recentemente em Beja com La Grande Chapelle e apresenta-se a 8 de Julho com o mesmo agrupamento no Festival da Póvoa de Varzim, sendo também membro da Capella Sanctae Crucis, dirigida pelo português Tiago Simas Freire. Em Sintra intercalou a sua interpretação com comentários sobre a história e os usos da harpa na igreja e no teatro de corte e procurou construir uma dramaturgia que despertasse a imaginação do ouvinte, enunciando verbalmente personagens, sentimentos ou traços de carácter antes de cada obra.

O programa incluiu versões instrumentais de canções, mas também páginas representativas da emancipação da linguagem instrumental no séc. XVI (como os Tentos do português Fr. Agostinho da Cruz e do espanhol Alonso de Mudarra e a Fantasia X, que contrahaze la harpa de Alonso de Mudarra) e danças (pavanas, xácaras, canários, folias) de autores como Diego de Huete, Lucas de Ribayaz, António de Cabezón e Antonio Martin y Coll. Um mosaico pleno de variedade, servido por uma interpretação tecnicamente apurada de grande sensibilidade expressiva.

A acústica da sala favoreceu a beleza da sonoridade e a intérprete tirou partido de uma ampla paleta dinâmica, transmitiu com clareza as diferentes texturas e mostrou bom gosto na arte de frasear e de ornamentar. Para ilustrar as funções de acompanhamento da harpa, Sara Martín cantou também algumas peças, exemplificativas da simbiose entre poesia e música (Yo soy la locura, Vuestros hojos tienen de amor e La noche tenebrosa, esta última de Juan Hidalgo).

No sábado, o agrupamento Seconda Pratica, criado em 2012 por um grupo de jovens portugueses e estrangeiros formados nos conservatórios de Haia e Amesterdão e dirigido por Nuno Atalaia e Jonatan Alvarado, apresentou um programa em torno do teatro de Gil Vicente, que incluiu também textos declamados por João Veloso Paixão, igualmente com importantes intervenções como cantor (baixo), em conjunto ou alternância com Sofia Pedro (soprano), Sophia Patsi (meio-soprano), Emilio Aguilar (tenor) e vários instrumentistas. A escolha do repertório contemplava quer associações explícitas à música nas peças vicentinas (como por exemplo o vilancete Nunca fue pena mayor, de Juan Urrede), quer apenas implícitas ou pertencentes ao repertório cortês da época, compilado em vários cancioneiros (Palacio, Elvas, Colombina, Paris, Medinacelli, Uppsala) e noutras fontes.

Os cantores e instrumentistas mostraram uma sólida preparação técnica e artística e exploraram com eficácia diversas soluções na distribuição vocal (a solo ou em versões polifónicas) e instrumental de cada peça, já vez que a música deste período deixa em aberto múltiplas escolhas tímbricas. Neste caso, recorreram adequadamente às flautas, à viola da gamba, à guitarra renascentista, ao órgão e ao cravo, sendo apenas mais controversa a opção pelo violino, pois embora se usassem outros instrumentos de cordas friccionadas aparentados na época (como a viola da braccio), este só começaria a adquirir as características que hoje conhecemos após a morte de Gil Vicente. Todavia, conforme se depreende da sua apresentação no programa de sala, apesar de atentos às práticas de interpretação históricas, os Seconda Pratica não se afirmam como puristas.

Salienta-se ainda a procura de diferentes atitudes interpretativa face aos diferentes repertórios, incluindo a disposição em torno de uma única estante (evocando o antigo facistol) nas peças em latim de carácter sacro. A longa duração do programa não diminuiu a atenção do público, cujos efusivos aplausos contribuíram para dois encores.