Manuel Gomes da Costa (1921-2016): o motor da arquitectura moderna algarvia

O seu trabalho teve uma notável repercussão e fez escola: muitas casas, prédios e lojas foram erguidos ‘à maneira de’. O arquitecto algarvio morreu no dia 17 de Junho, ao 95 anos.

Fotogaleria
Igreja de Santa Luzia em Tavira (1956-1958) R. Agarez
Fotogaleria
Edifício Gago Rosa, Rua General Humberto Delgado, 17, Faro (1955-1956) R. Agarez
Fotogaleria
Edifício Galhardo, Rua Doutor Miguel Bombarda, 118-120, Tavira (1956-1957) R. Agarez
Fotogaleria
Edifício Mendonça-Pereira, Rua Lethes, 51, Faro (1963) R. Agarez
Fotogaleria
Edifício Pires, Rua Frei Lourenço de Santa Maria, 2, Faro (1969-1977) R. Agarez
Fotogaleria
Edifício Dores-André, Rua de Alportel, 2-4, Faro (1963) R. Agarez

Manuel Gomes da Costa, falecido há uma semana em Faro aos 95 anos, foi um dos mais importantes e influentes arquitectos da sua geração no Algarve. Entre 1950 e 2002, desenhou e construiu cerca de quatrocentos edifícios na região, sobretudo no Sotavento algarvio – em Vila Real de Santo António (sua terra natal), Tavira, Olhão e Faro.

Contudo, a sua extraordinária destreza, a sensibilidade plástica e o vocabulário distinto que utilizava no desenho de fachadas – a face mais visível das suas criações – tiveram notável repercussão no ambiente construído algarvio no seu todo: um conjunto substancial de actores envolvidos na produção arquitectónica no Algarve, desde engenheiros civis até desenhadores técnicos, construtores e mestres de obra desenharam e edificaram inúmeras casas, prédios e lojas ‘à maneira de’ Gomes da Costa, impressionados pela sofisticação dos seus alçados.

O arquitecto e a sua corte alargada de seguidores foram apoiados, de forma essencial, por figuras e comunidades locais ávidas por ver o seu contexto claramente modernizado e detentoras de uma mobilidade e cosmopolitismo de certo modo insuspeitos na nossa visão colectiva do Portugal a preto, branco e cinzento das últimas décadas da ditadura. O renascimento modernista de uma cidade como Faro no pós-guerra, resultando num tecido edificado que se pode considerar hoje um exemplo admirável de modernismo regional, foi possível graças a uma conjugação particular de circunstâncias políticas, económicas e sociais – mas quem desenhou a face deste renascimento foi, em muito significativa medida, o arquitecto Manuel Gomes da Costa.

“Em arquitectura, temos de exprimir tudo [sobre a nossa sociedade], foi o que fizeram todos os artistas no seu tempo. Arquitectura internacional [faz-se] quando se sai da escola: no princípio, a gente vai tacteando, é como a criança que começa a engatinhar até começar a andar, vai aprendendo. [...] Aqui no Algarve, eu passava por zonas de campo com casas, [meras] paredes com telhado, e dizia: isto é uma coisa de tal maneira equilibrada, humanizada, está a uma escala humana, completamente!”

Nestes termos, muito claros, descrevia Gomes da Costa, em entrevista de 2008, o seu próprio processo de aprendizagem e os princípios que guiaram a sua apropriação do vocabulário da arquitectura moderna internacional no pós-guerra. O arquitecto conhecia bem este vocabulário: ingressado aos vinte anos no curso de arquitectura da Escola de Belas-Artes de Lisboa, transferiu-se antes ainda de terminado o primeiro ano para o Porto, lamentando a falta de diálogo entre docentes e estudantes e, em especial, o apertado controle exercido pela polícia política PIDE sobre a escola da capital.

No Porto, onde foi aluno de Carlos Ramos e colega de curso de Fernando Távora, conheceu e conviveu com outros dois ilustres modernistas algarvios: António Vicente de Castro (1920-2002), de Lagos, e Manuel Laginha (1919-1985), de Loulé. Os três partilharam não só hospedagem na cidade mas também um interesse ávido pelos desenvolvimentos mais recentes da arquitectura internacional: Gomes da Costa tinha por hábito adquirir revistas francesas e italianas e arquivar, na memória, os projectos publicados – de Le Corbusier a Gropius passando por Bakema e Terragni –, informação à qual depois todo o grupo recorria, para referência nos trabalhos académicos. Nasceu naquele meio o fascínio, também ele colectivo, pelo trabalho dos brasileiros Costa, Reidy e Niemeyer das décadas de quarenta e cinquenta, que marcou fortemente as primeiras obras dos três arquitectos algarvios.

A sedução exercida pela experiência brasileira ficou patente com clareza singular no excepcional programa dos centros de assistência social polivalente, estruturas de educação e apoio à infância, maternidade e família com que instâncias locais e regionais, públicas e privadas, procuraram mitigar carências sociais profundas dos concelhos algarvios. Na na peugada de Laginha e Rogério Martins (1920-1997), que realizaram os pioneiros centros de Loulé e Olhão (1952-1958), Gomes da Costa projectou em 1957 os centros de Aljezur (construído), Vila Real e Tavira (não construídos), cabendo a Vicente de Castro os projectos de Portimão (1957) e Lagos (1959). Esta rede regional de equipamentos, notável enquanto programa funcional e na sua realização formal, assinalou tanto a afirmação do grupo na sua região natal, quanto o pôr em prática de uma estratégia bem definida: para vingar no Algarve, a arquitectura moderna teria de encontrar um compromisso com as práticas construtivas tradicionais locais.

Soluções comuns e bem testadas em contextos específicos – o muro de pedra solta em Loulé, a cobertura plana em Olhão e Faro, o rendilhado de madeira em Tavira ou o telhado de água simples no Barrocal – foram apropriadas, reformuladas e conciliadas com elementos recorrentes no léxico internacional – da estrutura visível à quebra de barreiras interior/exterior – para atingir uma síntese pragmática, simultaneamente expressiva de uma urgência de modernização e de uma percepção realista das particularidades do contexto. Não abdicando de princípios modernistas (‘verdade’, contemporaneidade, abstracção), estes edifícios garantiam uma materialidade (textura, massa, cor) relevantes para a região e os seus hábitos construtivos.

Manuel Gomes da Costa foi uma das figuras principais nesta procura de uma arquitectura moderna e algarvia, antes de que o tema se tornasse motivo preferido na construção massificada para alojamento turístico, após a abertura do aeroporto internacional em Faro em 1965. Contudo, se uma das suas primeiras casas em Faro, de 1950-1952, foi celebrada pela cultura arquitectónica metropolitana como um ‘milagre’, o seu nome depressa saiu do alcance dos radares sedeados em Lisboa e no Porto. A partir da sua (impressionante) casa-escritório na Rua Reitor Teixeira Guedes da capital algarvia, trabalhando em regra sozinho e apurando a sua expressão arquitectónica pessoal, o arquitecto teceu pacientemente uma teia de relações pessoais, sociais e profissionais que lhe permitiram transformar-se, a partir do início dos anos 1960, no projectista de referência para um amplo leque de obras na cidade. O reconhecimento da comunidade – em encontros diários no Café Aliança – traduziu-se no apoio das instâncias municipais e regionais e na encomendas de clientes como o Bispado do Algarve, os principais promotores imobiliários, responsáveis oficiais e engenheiros civis / construtores de Faro e de outros centros do Sotavento. 

Foi nas obras mais icónicas – a Casa de Retiros e Colónia de Férias em Alcantarilha (1957-1962), a ampliação do Colégio da Senhora do Alto em Faro (1960-1965) ou a Igreja de Santa Luzia em Tavira (1956-1958) – mas, sobretudo, nos inúmeros edifícios, pequenos e grandes, para habitação multifamiliar que preenchem frentes de rua em Faro, Tavira e Vila Real de Santo António, que Gomes da Costa ensaiou uma lição de prática arquitectónica universal: é com a comunidade, não contra ela, que se faz boa arquitectura-de-todos-os-dias. E é esta a arquitectura que mais importa na qualidade do ambiente construído que nos rodeia. Do Algarve para o Mundo.

Ricardo Agarez, arquitecto e historiador da arquitectura, é o autor de Algarve Building: Modernism, Regionalism and Architecture in the South of Portugal, 1925-1965 (Routledge, 2016) publicado este mês