Portugal-Hungria à lupa: Finalmente, os golos

Equipa académica analisa a dinâmica da selecção no jogo frente à Hungria.

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A dinâmica das acções de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede. Na figura “rede de acções” do Portugal - Hungria, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos, cruzamentos. O “tamanho” de cada jogador é definido pelo número de jogadores com quem este interage. A cor verde significa menor precisão nas acções, aumentando para amarelo e, finalmentec mais vermelho que indica maior precisão. A “largura” de cada ligação (seta), que apenas aparece se for superior a 3, aumenta em função do número de acções realizadas entre os jogadores dessa ligação. 

Neste último jogo da fase de grupos, Portugal voltou a fazer alterações aos jogadores seleccionados. Eliseu entrou a substituir Raphael Guerreiro no lado esquerdo da defesa e João Mário entrou a substituir Quaresma. A Hungria, já apurada, fez cinco alterações em relação ao jogo com a Islândia com Korhut, Elek, Szalai, Lovrencsics e Pinter a substituírem Kádár, Nagy, Kleinheisler, Stieber e Priskin.

A rede de acções portuguesa mostra uma maior densidade de ligações entre os jogadores, resultante do facto de Portugal ter tido mais tempo a posse de bola e de ter realizado 540 passes, dos quais 86% chegaram ao seu destino, ao passo que a Hungria fez 314, com 78% de eficácia. Esta circulação da bola, embora semelhante aos jogos anteriores, teve a consequência que se previa: a marcação de golos e a obtenção de um empate que viabilizou o apuramento para a fase seguinte.

Portugal começou o jogo em 4-4-2 com William Carvalho a ser o médio mais defensivo. Os defesas laterais, Eliseu e Vieirinha, deram largura pelos corredores ao espaço útil de jogo. Por seu lado, os médios interiores André Gomes e João Mário deram maior mobilidade à equipa portuguesa.

Em posse de bola, Portugal saiu a jogar pelos defesas centrais que jogavam preferencialmente com William, o mais activo na fase inicial de construção do ataque, e a quem se destacam as ligações para André Gomes e João Mário. Os médios Moutinho, André Gomes e João Mário jogavam entre as linhas adversárias, tendo sido João Mário o jogador português que mais passes efextuou, sobretudo, na primeira parte, para Vieirinha e Nani. Os avançados gozaram de grande liberdade, baixando até ao meio campo para criar superioridade numérica na construção ofensiva do jogo, ou aparecendo em diagonais para os corredores laterais. Com essa mobilidade, Cristiano Ronaldo fez a assistência para Nani fazer o primeiro golo.

A Hungria, contrastando com os dois anteriores adversários de Portugal, procurou jogar em ataque organizado. Saiu a jogar pelos defesas centrais, com Gera a ser o médio mais defensivo e a aproximar-se para ajudar nas primeiras fases de construção ofensiva, mas Pinter foi o principal organizador. Como se pode ver na rede de acções, o guarda-redes Kiraly esteve muito ativo, com ligações fortes com os defesas centrais e o defesa-lateral Lang. Perante esta forma de jogar, Portugal pressionou alto e obrigou a Hungria a jogar longo, o que permitiu também a Portugal recuperar muitas bolas no meio-campo adversário. Em transição ofensiva, a Hungria aproveitava o adiantamento dos laterais e procurava jogar rápido no corredor lateral, como mostram as ligações de Juhasz para Dzsudzsák e Pinter. Dzsudzsák esteve em destaque no ataque, tendo sido o jogador que mais passes recebeu, em contraste com o avançado Szalai, que, para além de ter recebido poucos passes, teve pouco êxito nos passes efetuados, fruto da marcação de Ricardo Carvalho e Pepe.

Portugal voltou a criar várias oportunidades de golo, com 10 remates, mas que surgiram sobretudo de bolas paradas. A Hungria apenas fez metade do número de remates que fez Portugal e foi na sequência de um pontapé de canto que marcou o primeiro golo aos 18’.

Na segunda parte, Portugal jogou em 4-3-3, com a saída de João Moutinho e a entrada de Renato Sanches, e com João Mário a jogar do lado direito. A Hungria substituiu Gera por Bese e, logo aos 46', Dzsudzsák marcou o segundo golo, de livre directo. Portugal respondeu e após um cruzamento de João Mário, Ronaldo de calcanhar marcou o golo do empate. Logo depois, aos 54’, a Hungria volta a marcar com um golo de Dzsudzsák, na sequência de outro livre directo. Quaresma entrou aos 60’ para o lugar de André Gomes e logo no minuto seguinte, após um canto, faz o cruzamento para Cristiano Ronaldo marcar o seu segundo golo e empatar o jogo a 3-3. Renato Sanches foi um elemento importante no jogo ofensivo de Portugal, conduzindo a bola pelo corredor central e dando força ao meio-campo. Em apenas 45 minutos, estabeleceu várias ligações fortes, nomeadamente com João Mário, e que permitiu aumentar as opções para circular a bola, não só a partir dele próprio, mas também entre os jogadores com quem se ligava. A Hungria, nesta fase procurava sobretudo realizar transições ofensivas rápidas, como é exemplo o remate de Szalai ao poste português. Aos 80’, Portugal mudou para 4-2-3-1, com a entrada de Danilo para o lugar de Nani, contrapondo-se à Hungria que jogava em 5-4-1 e procurava manter a bola no seu meio-campo.

Analisando o desempenho global das equipas no Euro 2016, Portugal está entre as cinco equipas com maior percentagem de passes realizados com êxito (89%). É a segunda equipa com maior tempo de posse de bola (61%), ultrapassada apenas pela Alemanha (65%). Mantém-se como a equipa com mais remates a acertarem na baliza.

Duarte Araújo, José Pedro Silva, Micael Couceiro

Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa; e Ingeniarius, Lda.