Entrevista

O homem por trás da máscara

David Lloyd criou com Alan Moore uma das melhores novelas gráficas de sempre. Décadas depois, a sua máscara de V de Vingança confundiu-se com os protestos que bordejaram a segunda década do século XXI. “É um símbolo universal de resistência à opressão”, regojiza-se em entrevista ao Ípsilon

David Lloyd criou um adereço para a era da austeridade. Uma máscara para a grande encenação do capitalismo ou das pequenas grandes tiranias do século XXI, um objecto com um simbolismo que nasceu numa página em Inglaterra e acabou cingido aos rostos contestatários por todo o mundo
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David Lloyd criou um adereço para a era da austeridade. Uma máscara para a grande encenação do capitalismo ou das pequenas grandes tiranias do século XXI, um objecto com um simbolismo que nasceu numa página em Inglaterra e acabou cingido aos rostos contestatários por todo o mundo FRED DUFOUR/AFP

Sem saber, David Lloyd criou um adereço para a era da austeridade. Uma máscara para a grande encenação do capitalismo ou das pequenas grandes tiranias do século XXI, um objecto com um simbolismo que nasceu numa página em Inglaterra e acabou cingido aos rostos contestatários por todo o mundo. Com Alan Moore, Lloyd, que se aproxima com um copo gelado na mão e a olhar-nos por cima dos óculos escuros, desenhou uma das mais importantes novelas gráficas de sempre, V de Vingança, que três décadas depois da sua publicação ganhou novo significado nas mãos de movimentos como o Anonymous ou o Occupy.

Editada agora em Portugal (na nova colecção de Novela Gráfica do PÚBLICO e da Levoir), trouxe a Lisboa David Lloyd, o ilustrador da obra com argumento do genial Moore. O britânico chegou uma semana antes do referendo do Brexit e, com a mesma força com que abraça a nova vida real da sua máscara, teme que o seu país escolha sair da União Europeia (UE). Ataca o racismo no centro da violência e da retórica antieuropeísta que grassa actualmente em Inglaterra.

Em 1982, estreava-se o comic em que V, um herói que circula entre os ideiais anárquicos e o terrorismo (embora os autores contestem algumas destas leituras), usa uma máscara e bombas para mobilizar o povo e depor um regime totalitário numa Inglaterra distópica dos anos 1990. Nascia um clássico, publicado na revista Warrior até 1985 a preto e branco e que só com a publicação nos EUA em 1988 pela Vertigo (DC Comics) é que é colorida. Em 2006 chega ao cinema V de Vingança, a adaptação realizada por James McTiegue com guião de Lilly e Lana Wachowski (que assinavam então como "irmãos Wachowski"). O público gostou, Moore não terá apreciado a adaptação. Anos depois, a máscara desenhada por Lloyd a partir da figura de Guy Fawkes, que durante a Conspiração da Pólvora, em 1605, tentou assassinar o rei James I de Inglaterra, começa a surgir no fórum 4chan.

Em 2008, uma manifestação em Londres do colectivo Anonymous ganhava um rosto (anti)social num protesto contra a Igreja da Cientologia. usavam as máscaras popularizadas pelo filme (a empresa Rubie’s Costume Company, fabricante oficial desde o lançamento do filme, vendia anos depois mais de 100 mil exemplares por ano). Fawkes versão Lloyd e Moore tornar-se-ia também símbolo de contestação do movimento Occupy, põe-se do lado dos 99%, mostra-se na Praça Tahir, é usado pelo denunciante Julian Assange, sorri para as câmaras e para os polícias. A máscara é “rosto do protesto pós-moderno”, como postulou a Economist.

David Lloyd, esguio e sorridente, parece mais jovem do que a ultrapassagem que faz aos 65 anos e trabalha há quase 40, com a Marvel, DC, Dark Horse e muitas outras chancelas no currículo. Deu autógrafos dois dias seguidos, falou a estudantes e é um apaixonado pelas potencialidades do ciberespaço que já não lê comics salvo os que edita na sua revista online, a Aces Weekly. Nela já colaboraram os autores portugueses André Oliveira, Ricardo Drumond e Carlos Páscoa. Adora uma boa telenovela para relaxar ou um thriller escandinavo. Não mantém contacto regular com Moore, um conhecido génio introvertido de opiniões fortes, que muito admira. A sua carreira é longa, o desassombro também.

V de Vingança começou a ser publicado há quase 35 anos e continua a ocupar muito do seu tempo, e das suas conversas com a imprensa. Cansa-se de falar sobre ele?
É sempre um prazer porque, para começar, tenho muita sorte. Trabalhei muito para estar onde estou, trabalhei muito para atingir um nível de qualidade de que me orgulho - a sorte leva-me a poder trabalhar com um grande escritor e dá-nos a liberdade de fazer exactamente o que queremos. Todos esses elementos se conjugam e colocam-nos numa posição privilegiada.
V de Vingança é uma marca. As pessoas conhecem-nos por isso, é como Sean Connery ser James Bond. Mas também é uma credencial, é como um cartão de visita. Toda a gente sabe quem somos por isso não temos de provar nada. Também é muito bom para fazermos coisas novas. Uso isso sempre que posso. Estou a fazer a Aces Weekly, que é uma revista online de comics que edito e a tagline é “do tipo que vos trouxe V de Vingança”.
Se ainda desenhasse não seria tão útil, porque o meu objectivo seria cumprir prazos e estar no estirador. Mas como estou a editar, não desenho nada e posso ir a qualquer lado.

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Porque é que deixou de desenhar?
A última coisa que fiz foi no primeiro volume da Aces Weekly. Foi a minha última história. Parei porque não tinha tempo para o fazer e também porque não sentia necessidade disso. Acho que a minha fome é por criatividade, não pelo objecto. Desde que esteja a produzir algo novo, a criar, novos conceitos...Somos únicos no nosso formato particular de comics digitais [na Aces Weekly]. Talvez isso esteja a preencher essa necessidade. Faço uns esboços, pequenas coisas, mas não tenho saudades e não consigo explicá-lo.

Em termos conceptuais, como trabalhou com Alan Moore para chegar à representação da personagem V e aos temas do livro? Esta imagem de Guy Fawkes, que se tornou um símbolo tão forte, nem sempre esteve nos planos...
A personagem inicial que construímos era “um guerrilheiro urbano básico a combater uma ditadura fascista numa Inglaterra futura”. Ambos - o que mostra o mindset que ambos tínhamos e por que é que trabalhávamos tão bem juntos - separadamente tínhamos trabalhado ideias de “um guerrilheiro urbano básico a combater uma ditadura fascista numa Inglaterra futura”. O meu era uma guerrilheira feminina chamada Evelina e a de Alan era uma personagem chamada The Doll, um terrorista com maquilhagem branca na cara.
Ambos percebemos que tínhamos estes conceitos e que éramos dois indivíduos politicamente conscientes que não gostavam do que estava a acontecer em Inglaterra.

Os primeiros anos Thatcher?
É pré-Thatcher que toda a gente viria a conhecer. Isto era mais cedo. Margaret Thatcher tornou-se mais monstruosa em meados dos anos 1980 e nós começámos em 1980, 81. Foi sim a ascensão da National Front, um partido radical de direita, o tipo de pessoas loucas que mataram a deputada [trabalhista Jo Cox, atacada na véspera da entrevista]. Esta personagem vem dessa situação de possibilidade fascista. O modelo era a Alemanha dos anos 1930. E depois tive um brainstorm doido sobre Guy Fawkes. Andávamos a debater-nos com o conceito e uma tarde surgiu esta ideia louca. Muita da criatividade são acidentes. A percepção tradicional é que era um terrorista e queimamo-lo na ruas [anualmente no dia 5 de Novembro], mas éramos suficientemente sofisticados para saber que o terrorista de alguém é o combatente pela liberdade de outra pessoa.
Fui a primeira pessoa com quem Alan colaborou. Líamos os mesmos livros, víamos os mesmos filmes e queríamos fazer a mesma coisa.

Se estivéssemos a falar há um par de anos da forma como V está presente na cultura actual, estaria a perguntar-lhe sobre austeridade, soberanias, manifestações, a Grécia e o sul da Europa. Mas há agora a interrogação em torno do Brexit, uma retórica nacionalista e a morte da deputada Jo Cox - no livro a personagem de Lewis Prothero tem como mantra a frase “England prevails” e o atacante de Cox terá gritado “Britain first!”, por exemplo. Como é que vê tudo isto?
Em primeiro lugar, esse tipo é um psicopata. Os psicopatas podem ser estimulados por qualquer coisa, mas temos demasiados psicopatas racistas em Inglaterra. Há um núcleo de rufias racistas em Inglaterra, que são encorajados por um patriotismo insano anti-estrangeiros, que são estimulados por jornais como o The Sun, que não querem ter nada a ver com algo estrangeiro salvo quando estão em Benidorm a apanhar sol. É horrível. Vi-o toda a minha vida e não muda. Porque nada mudou na estrutura social em Inglaterra. Todos sonhámos que em alguma altura, especialmente quando Tony Blair surgiu, isso mudaria. Tinha boa retórica, mas nunca conseguiu.
O governo é responsável por isso, não conseguiu controlar as migrações, estimula guerras que levaram a massas de refugiados e a migrantes económicos. E compreendo a reacção do homem comum perante os gastos que isso traz, porque o governo não o explica, vive no seu mundo isolado e não sabe o que se passa nos bairros da classe trabalhadora, especialmente no Norte de Inglaterra.

Acha que a retórica em torno do referendo também alimentou e se alimentou desse discurso sobre a diferença e o desconhecimento e distância em relação ao outro?
Absolutamente. Acho que o aumento das migrações é o maior factor no Brexit. Se não fosse pela possibilidade de milhares de romenos e turcos chegarem, acho que ninguém o faria. Ninguém sabe o que se passa com as directivas financeiras da UE, com as perdas de soberania, mas a migração é que faz as pessoas votar pelo Brexit.

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A máscara é “rosto do protesto pós-moderno”, postulou a Economist

V de Vingança tem um fim em aberto - qual é o seu prognóstico para o referendo?
Dói-me dizê-lo, mas pelo que vejo parece-me que podemos sair [da UE]. O que é demasiado triste para traduzir em palavras. Mas quanto ao fim do livro... [abre os braços e encolhe os ombros]. Não podemos confiar nas pessoas. O fim é aberto, e se eu escrevesse o fim ou a forma como a sociedade vai continuar, acho que eles iam só tentar encontrar um outro líder. E V, e especialmente no fim, encerra uma ironia em si mesmo. V diz que não se devem seguir líderes, mas ele lidera toda a gente. Sem a sua liderança e os seus actos, a sociedade não chega aonde está. E no final ainda procuram um propósito...

E alguém para seguir?
Sim, V guia-os para que o resolvam sozinhos, porque é o que tem de se fazer. E tem de se deixar as pessoas pensar por si. Mas quando o fazemos, não sabemos em que vão acreditar ou o que vão ouvir. Sou muito cínico, é mais provável que as pessoas nos desiludam do que nos surpreendam.

A posição de V é paradoxal, e também há um paradoxo no que toca à sua máscara. Hoje, graças ao seu uso pelos manifestantes, por exemplo, favorece o anonimato em manifestações de milhares de pessoas e, ao mesmo tempo, é um ícone muito potente e nada anónimo. Sabia que estava a desenhar uma máscara, um objecto com características especiais, e ao mesmo tempo um símbolo, mas ele tornou-se outra coisa nos últimos anos - o que pensa da sua evolução?
A ideia original da máscara era usar o tipo que vendem à volta do 5 de Novembro, juntamente com o fogo-de-artifício, para a nossa festa tradicional. Mas era Verão e por isso tive de desenhar de memória e uma coisa de que me lembrava era que tinha um bigode, mas também uma espécie de sorriso. Tornou-se parte do meu desenho e esse sorriso viria a revelar-se um acidente muito bom. Um sorriso representa optimismo, remete para tanta coisa. “Smile, though your heart is aching” [clássico musical associado, entre outras coisas, a Tempos Modernos, de Chaplin], “smile, boys, smile” [frase que remete para os soldados da I Guerra], “sorrir face à adversidade”, também é “o sorriso na cara do tigre”. São ressonâncias muito convenientes, mas foi um acidente. Mais um.
No que toca à sua manifestação na vida real, também funciona muito bem. Aquele sorriso é optimista, está congelado no optimismo. De que precisamos. A máscara representa o que é a personagem, liberdade da tirania, resistência à opressão. É um símbolo universal de resistência à opressão e por isso pode ser usado pelos Anonymous, pelo Occupy, pode ser usado no Egipto, na China, em qualquer lado.
Acho que é óptimo que seja usado por eles, mas o seu poder, a sua potência é muito forte e há um caso que conheço de polícias na América - que muitas vezes são muito proactivos - que viram um tipo sentado com uma máscara no cimo da cabeça e pensaram que ele era anarquista e mandaram-no sair dali ou tirá-la. Ele estava só sentado. Tornou-se num símbolo muito poderoso de protesto. Estou muito feliz e orgulhoso disso, de que se tenha mudado da ficção para a realidade dessa maneira.

Como muita arte, de certa maneira já não é sua desde que a liberta no mundo...
Não a controlo, se a arte é pública não temos controlo sobre ela. Só posso ficar feliz por estar a ser usada para o bem. Só sei de um par de exemplos em que foi utilizada de formas que são contra o seu espírito - a imagem do filme de duas facas cruzadas foi usada num site tipo fascista, mas acho que quem as usou nem sabe sobre o que é, era só uma imagem violenta.

Tanto você quanto Alan Moore apoiam este uso e no prefácio do livro escreve que “V de Vingança é para pessoas que não desligam o noticiário” - portanto não põe nuances nesse apoio por as máscaras terem sido usadas pelos Anonymous ou pelo Occupy, ou em manifestações locais como as dos Indignados, por exemplo?
A maior parte das organizações que usa a máscara contesta algo que... bom, seguramente não são de direita. Podem ser anarquistas, ou socialistas, ou estar só fartos [risos]. O mais próximo do que aconteceu com ela é a imagem de Che Guevara e com a fotografia dos anos 1960 [de Alberto Korda] mas Che era marxista e por isso essa imagem tinha uma bagagem política e V não tem.
A não ser que se queira etiquetá-lo como um símbolo anarquista. Mas ninguém sabe verdadeiramente o que é o anarquismo, não é um conceito político firme, tem diferentes rostos... A anarquia é um termo muito ambíguo. Um sistema social baseado nos princípios anarquistas era uma óptima ideia, mas só há um exemplo de relativo sucesso, Christiania [Copenhaga], que não é um sistema perfeito. Em alguma altura haverá corrupção... é como o conceito de Utopia, são precisos ser humanos utópicos e isso não existe [risos]. Somos todos corruptos, somos todos demasiado dados a actos corruptos, ao egoísmo...

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David Lloyd é um apaixonado pelas potencialidades do ciberespaço que já não lê comics salvo os que edita na sua revista online, a Aces Weekly — nela já colaboraram os portugueses André Oliveira, Ricardo Drumond e Carlos Páscoa

Olhando para a sua carreira, é mais divertido ou interessante representar personagens insurrectas, rebeldes?
Claro, porque queremos criar uma personagem que conquista a fragilidade humana. Precisamos de nos identificar com elas, com os seus triunfos, queremos que as personagens tenham sucesso. Quero contar histórias de pessoas que conquistam. Fiz uma novela gráfica de crime, Kickback [em formato digital], a única que fiz sozinho. E é sobre um polícia corrupto numa força policial corrupta que decide que não pode fazê-lo mais. Todos nós seguimos a manada.

Usou a definição “novela gráfica” - concorda com ela, portanto, ao contrário de Alan Moore, que acha que é um termo do marketing que se tornou numa forma de dizer “comic caro”?
Não o ouvi dizer isso, mas ele tem opiniões firmes sobre muita coisa. Dickens escreveu os seus livros de forma serializada e quando foram coligidos chamaram-lhe romances. V é uma serialização e não há qualquer motivo para não o juntar e chamar-lhe novela gráfica. Muitos livros foram chamados novelas gráficas como ferramenta de marketing - pegavam num arco narrativo de Batman e juntavam tudo. Mas o termo novela gráfica foi muito bom para a imagem dos comics. E surgiu por acidente. A maior parte das pessoas a quem falamos de comics pensam em super-heróis ou animais engraçados. Falar-lhes de Persépolis, por exemplo, não saberiam do que se trata e sim, é um comic, Ghost World... há toda uma série de títulos que desconhecem e só falam de super-heróis. Não podemos impedir a DC ou a Marvel de se apropriarem do que for para vender livros. Mas há tantos exemplos de novelas gráficas como os livros de Will Eisner, ou Ghost World, ou Blankets, que são genuínos. A imagem dos comics melhorou muito graças a isso e tem de melhorar para se construir uma massa de leitores. Para mim isso é uma missão, mesmo com a Aces Weekly, com a qual quero cortar custos, dar mais aos autores mas ao mesmo tempo chegar a mais pessoas.

Acha que Hollywood contribuiu para isso com a profusão de filmes dos universos Marvel e DC, mas também com as adaptações de Ghost World, ou de American Splendor, por exemplo?
Esses já foram há muito tempo. Acho que Hollywood não contribuiu nada. Nada. Estão a contribuir muito para eles próprios. Pelo que sei as vendas de comics não estão a subir por causa dos filmes. As pessoas que gostam de comics vão ver esses filmes aos magotes para ver Scarlett Johansson como uma das suas personagens preferidas e não acho que os que não lêem passem a ler. Para Hollywood é bom material de base, podem usar mais CGI para dar vida aos comics...

Deixou de desenhar mas desenhou muito, e muitas coisas diferentes, desde Dr. Who a Hulk ou um livro sobre São Paulo. O que foi mais gratificante para si e que temas gostou mais de tocar?
Para alem de V, a minha própria novela gráfica. Porque pude expressar-me completamente e é sobre algo importante. E também de trabalhar com grandes escritores que querem dizer algo sobre os seres humanos, como Garth Ennis [autor de Preacher, que se tornou numa série que é a sensação do Verão televisivo nos EUA], especialmente, com quem fiz War Stories. E Jamie Delano [com colaborações em Hellblazer, The Territory, Night Raven], um escritor muito motivado politicamente e sem cedências. Aprecio muito trabalhar com pessoas empenhadas em dizer algo útil.