Carlos Rocha, mestre de um design novo

José Bártolo, investigador e director científico da Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos (ESAD), escreve sobre o designer que morreu esta terça-feira aos 73 anos.

De Carlos Rocha dir-se-ia ter sido designer por descendência, por tradição, por vocação, por empenho e por génio.

Cresceu entre desenhos, artes finais, provas de impressão e ferramentas gráficas, no contexto da ETP – Estúdio Técnico de Publicidade fundado pelo seu tio José Rocha e com o qual colaboram quase todos entre os maiores ilustradores e designers de entre as décadas de 30 e 60: nomes como Carlos Botelho, TOM, Emmérico Nunes, Bernardo Marques, Fred Kradolfer, Jorge Matos Chaves ou Sebastião Rodrigues (este, caricatamente, despedido por não ser considerado desenhador suficientemente talentoso).

Carlos Rocha criaria no final dos anos 60 o estúdio Letra – Estúdio Técnico de Comunicação Visual, situado na Rua Marquês da Fronteira. Um anúncio do final dos anos 60 (que constitui, aliás, uma das mais magníficas composições gráficas desse período) dava conta do largo campo de actuação, do design de stands e exposições, ao design industrial, publicidade e identidade corporativa. Efectivamente, tudo isso Carlos Rocha fez com elevado destaque, marcando o design português no período do pós-25 de abril, contribuindo, determinantemente, para a sua institucionalização e para a sua valorização num mercado e sociedade que se renovavam. Os projectos para a TAP, Grupo Lena, para a CP ou para a Carris são exemplares.

Magnífico representante de um design racionalista e sistemático, da mão de Carlos Rocha resultaram icónicos logótipos (aos quais a Letra associava um amplo projecto de comunicação) como os do BCP – Banco Comercial Português, Bolsa de Valores de Lisboa ou para a AVIGAL  - Centro Avícola de Portugal.

Em 1982, deu-se a fusão do ETP com a Letra, ficando todo o valioso espólio, no qual se incluem centenas de originais, a cargo de Carlos Rocha. A sua publicação vem sendo trabalhada e contou sempre com a colaboração diligente, entusiasta e generosa de Carlos Rocha. Com o seu falecimento, é igualmente uma das referências maiores do “design novo” português que se perde. Que a história do design português o saiba manter presente.