Portugal tem um plano nacional contra o Zika para reduzir risco de epidemia

Organização Mundial da Saúde está reunida até sexta-feira em Lisboa para melhorar a resposta da Europa a uma possível epidemia do vírus Zika. Madeira é exemplo no combate de doenças transmitidas por mosquitos.

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Os mosquitos Aedes aegypti são responsáveis pela transmissão do vírus Zika Paulo Whitaker/Reuters

No mesmo dia em que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) publicou um plano nacional para minimizar o impacto do vírus Zika em Portugal, iniciou-se nesta quarta-feira em Lisboa uma reunião de três dias do Gabinete Regional para a Europa da Organização Mundial da Saúde (OMS) com o objectivo de se definirem as melhores práticas no combate ao Zika a nível europeu, caso o vírus se instale cá.

Já foram identificadas mais de 700 pessoas com este vírus na Europa, infectadas em países onde decorre uma epidemia de Zika, 17 em Portugal, segundo o site da DGS. Não há transmissões locais. Apesar de o risco da epidemia do vírus Zika se espalhar pela Europa ser baixo ou moderado, esse cenário é possível, explicou nesta quarta-feira Nedret Emiroglu, directora do departamento de Doenças Transmissíveis e de Segurança da Saúde do Gabinete Regional para a Europa da OMS.

Lisboa foi escolhida para a reunião porque Portugal é um dos poucos países europeus com experiência no combate ao mosquito transmissor do vírus Zika e cuja resposta é “uma referência para outros países”, assegurou Nedret Emiroglu na sede da DGS, em Lisboa, numa conferência de imprensa com Francisco George, director-geral da Saúde, horas antes do início do encontro. A responsável referia-se ao surto de vírus da dengue, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, que ocorreu na Madeira em 2012.

Tal como a dengue, também o Zika é transmitido aos humanos pela picada de mosquitos do género Aedes. Por isso, é necessário haver uma população de mosquitos para que o vírus se instale numa nova região. Foi assim que nos últimos tempos o Zika se espalhou na América do Sul e na América Central, afectando em todo o mundo 60 países, 46 dos quais nunca tinham tido surtos de Zika antes de 2015. Cabo Verde também foi um dos países apanhados pela epidemia, vinda das Américas.

Na maior parte dos casos, o Zika produz apenas borbulhinhas, uma febre passageira, podendo até passar despercebido. Em alguns adultos, pode provocar a síndrome de Guillain-Barré, em que o sistema imunitário ataca o sistema nervoso periférico, afectando o controlo do movimento dos músculos.

Mas a doença é particularmente perigosa nas grávidas porque, tal como o vírus da rubéola, pode afectar o desenvolvimento do feto. Mais precisamente, provoca microcefalia. Segundo a OMS, já há 1581 casos de bebés no Brasil com microcefalia ou outros problemas no sistema nervoso associados à presença do vírus nas mães. Cabo Verde já registou seis casos de microcefalia associados ao Zika, a Polinésia Francesa oito e a Europa já importou três casos, dois em Espanha e um na Eslovénia, avança a OMS.

Mediterrâneo vulnerável

Em ano de Jogos Olímpicos no Brasil, há ainda uma maior preocupação de que o vírus se espalhe para outro países, apesar de a OMS já ter dito que esse risco é baixo. No entanto, aconselha-se às mulheres grávidas que evitem locais com a epidemia. Por tudo isto, a organização quer estar preparada para o caso de o vírus atingir a Europa. Num relatório publicado em Maio, a OMS analisou o risco da transmissão local do Zika em cada um dos 53 países da região europeia. Este risco depende em grande medida da existência de mosquitos Aedes em cada país.

A região da bacia do Mediterrâneo é particularmente vulnerável. Em Portugal continental, o risco foi considerado baixo. Mas na Madeira, onde existe o mosquitos Aedes aegypti, o principal transmissor, o risco é alto. O Nordeste do Mar negro é outra região com esta espécie de mosquito. Noutros 18 países europeus (incluindo Espanha), regista-se a presença do Aedes albopictus, outra espécie de mosquito que também pode transmitir o vírus.

Na reunião de três dias, os 80 especialistas da região europeia vão “olhar para a capacidade de resposta dos países” à possível transmissão do vírus e definir “as melhores práticas”, disse Nedret Emiroglu. Dos 53 países da região europeia, 41 têm “boa ou muito boa” capacidade de resposta. “Para os restantes, estamos a trabalhar para aumentar a suas capacidades”, explicou a responsável, garantindo que a reunião está a ser feita atempadamente, já que a temporada dos mosquitos só vai começar agora.

Virar o prato na Madeira

No caso da Madeira, explicou Francisco George ao jornalistas, o dever da DGS é “juntamente com as autoridades [regionais] fazer com que os mosquitos que existam não sejam infectados”, adiantando que “é possível reduzir o nível de risco da epidemia”. No documento da DGS (Zika – Plano Nacional de Prevenção e Controlo de Doenças Transmitidas por Vectores), a região está no nível 1 (amarelo) de risco, com a “presença de mosquitos Aedes não infectados”. Esta escala de risco começa no nível 0 (verde) – quando não há mosquitos nem casos autóctones de infecção pelo vírus Zika, como acontece no resto do país –, até o nível 3 (vermelho) – quando há um surto.

Segundo o plano, os principais objectivos são reduzir a densidade populacional do mosquito na Madeira, minimizar a possibilidade do mosquito ser infectado pelo vírus Zika, impedir que mosquitos do género Aedes se estabeleçam tanto nos Açores como em Portugal continental e controlar a ocorrência de eventuais surtos.

Francisco George lembrou de gestos simples que ajudam a controlar a proliferação do mosquito, como “virar o prato” na ilha da Madeira. As fêmeas de mosquitos precisam de água límpida para pôr os ovos. Por isso, todos os recipientes que estão fora de casa, nos jardins, e podem acumular águas da chuva devem estar virados ao contrário, avisou o director-geral da Saúde.

Texto actualizado às 18h55.

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