Entrevista

Anohni: "Até certo ponto somos todos cúmplices deste sistema onde vivemos"

Em Hopelessness Antony não mudou apenas de nome – agora é Anohni. A sonoridade electrónica e a canção política de protesto coabitam num álbum surpreendente em que tanto critica Obama como a desresponsabilização perante a destruição do planeta. Esta terça, no Coliseu do Porto, e quarta em Lisboa.

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O espectáculo que virá apresentar – esta terça-feira no Coliseu do Porto e quarta-feira no Coliseu de Lisboa – é distinto de anteriores passagens por Portugal Alice Omalley

Vivemos num momento histórico de graves convulsões sociais, políticas e ambientais e Antony Hegart, até há pouco tempo conhecido como a voz e o rosto de Antony and the Johnsons, sabe-o bem. Ao longo de quatro álbuns de estúdio, com destaque para I Am a Bird Now (2005) e The Crying Light (2009), foi capaz de expor uma música de beleza tranquila, canções quase sempre confessionais para piano, orquestrações e uma voz de grande expressividade emocional. Ao quinto disco de estúdio quis mudar. Hopelessness, lançado há poucas semanas, é uma obra inesperada, marcada por uma sonoridade electrónica e essencialmente por letras de carácter político em que aborda de forma descomplexada temas que habitam a actualidade das nossas vidas.

O espectáculo que Anohni virá apresentar – esta terça-feira no Coliseu do Porto e quarta-feira no Coliseu de Lisboa – também é distinto de anteriores passagens por Portugal onde se foi transformando numa cantora de grande culto. Em palco estará apenas ela, coadjuvada por dois músicos, e muitas imagens. Também aí, ao vivo, parece decidida a ser mais directa do que alguma vez foi, abordando a destruição ambiental, as políticas de género, o sonho americano transformado em pesadelo, o capitalismo selvagem ou o legado de Barack Obama, envolvido por imaginativas camadas electrónicas, da autoria de dois alquimistas dos estúdios, Hudson Mohawke e Oneohtrix Point Never, que estará também em Portugal. Foi por aí que começámos a entrevista a Anohni.

O seu novo álbum do ponto de vista sonoro é diferente dos anteriores. Em parte isso resulta da colaboração com os músicos Hudson Mohawke e Oneohtrix Point Never. Dir-se-ia que os ambientes electrónicos revigorantes contrastam com as letras que retratam um mundo em conflito. Essa dicotomia foi algo que esteve presente no seu pensamento?
Foi exactamente esse o ponto. Queria trabalhar com produtores de música electrónica e criar uma sonoridade tão próxima quanto possível dessa ideia do que é um disco de dança, apesar de este não o ser. Imaginei como é que resultaria a exuberância da electrónica com as temáticas propostas nas letras.

É a primeira obra em que adopta o nome Anohni, depois de vários álbuns como Antony and the Johnsons. Qual o significado dessa mudança? 
Na minha vida privada há muito que utilizo o nome Anohni. É tão simples como isso. Não quero utilizar mais o nome Antony, apesar de poder vir a fazer uma digressão no futuro como Antony and the Johnsons, porque é o nome da banda e é qualquer coisa de abstracto. Gosto da ideia de não ser eu. Quando ganhei o Prémio Mercury em 2005, recordo-me de um jornalista me perguntar por que me escondia atrás da maquilhagem. Na verdade, é o contrário: através da maquilhagem mostro de forma mais evidente quem sou. É uma forma de acederem ao meu espírito. Com o nome acontece um pouco o mesmo.

Depreende-se do que diz que o concerto que anda a apresentar é diferente do que fez no passado recente, sendo centrado no novo disco.
Sim, o concerto é uma combinação de performance e filme, durante o qual Dan Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Christopher Elms surgem em palco ao meu lado. Filmei e editei retratos de mulheres, combinando-os para representarem uma espécie de oráculo feminino. Uso um véu na performance, por isso a minha presença é ao mesmo tempo anónima e emocional através da utilização da voz. É como se fosse uma colaboração entre mim e os temas do filme, que acabam por representar as diversas facetas do novo trabalho.

Na maior parte das canções do novo álbum aborda uma série de temáticas fortes – guerra, ecologia, políticas de género, Obama, neoliberalismo selvagem, tortura ou vigilância governamental. Abordou esses temas, de forma empírica, a partir da sua visão pessoal, ou foi-se documentando e reunindo informação para a feitura das letras?
As duas coisas. Leio os jornais como toda a gente e vou sentindo a direcção errada que tantas questões vão tomando neste nosso mundo em crise. Desde o início que era claro para mim que desejava criar uma música mais vigorosa e transparente como resposta a esta crise que estamos a enfrentar. Uma crise com muitas faces, todas elas interligadas, e que colocam em causa não só os nossos modelos de sociedade, mas também a um nível mais global a nossa espécie. Da minha parte havia alguma saturação em compor música pastoral. Dadas as circunstâncias da vida actual, parecia-me algo passivo. Não só queria utilizar a minha esfera de influência, como participar activamente no que está a acontecer à nossa volta de uma forma mais vivida e profunda.

Canções como Drone bomb me abordam a guerra e a morte, fazendo-o a partir de uma vulnerabilidade extrema. É como se essa vulnerabilidade fosse ao mesmo tempo testemunha do horror e mecanismo de defesa.
Nessa canção, como acontece com outras, tento expor vários pontos de vista. Não me interessa reduzir, mas sim ampliar as possibilidades de leitura. E, sim, utilizo muitas vezes essa espécie de expressão extrema da vulnerabilidade, porque me parece que não funciona como fragilidade mas sim como sintoma de inteligência. De algum modo é uma forma de confundir os nossos carrascos e nesse movimento de os poder abrir ao diálogo.

Um desses carrascos parece ser Obama. Há uma canção sobre ele em que é muito crítica. Ele introduziu mudanças, ao nível da reforma do sistema de saúde, por exemplo, mas isso não a parece deixar satisfeita. Parte dessa desilusão não residirá nas expectativas que foram depositadas nele, quando se sabe que um único político é incapaz de produzir mudanças significativas, sem um movimento colectivo que o suporte.
Sim, nenhum homem consegue mudar o sistema sozinho. Mas Obama foi eleito por parte do país que depositou esperanças de que ele diria sempre a verdade com uma urgência tal que a mudança a partir da base seria possível. Mas não. Isso não aconteceu a uma escala suficiente. Talvez tenhamos sido ingénuos. Talvez todos desejemos ter o nosso pai protector que faz sozinho o que não somos capazes de fazer colectivamente. Mas ele não insistiu na educação da classe trabalhadora e da classe média americana, quando lhes foram sendo retirados mecanismos de protecção ao longo das últimas décadas, com o mito do crescimento inesgotável, em primeiro lugar vendido por Reagan. Ele não conseguiu combater um sistema de opressão social e de diminuição das oportunidades. Não parou o fluxo constante de propaganda dos media malévolos que moldam a psique americana e mantêm o país num estado perpétuo de ansiedade. Destruiu o único desenvolvimento na política americana com potencial revolucionário, o movimento Occupy, porque representava uma ameaça às instituições e às minorias ultra-ricas, que o próprio havia denunciado nos seus discursos. Não responsabilizou o anterior Governo pelos crimes de guerra e na verdade contribuiu até para a escalada de injustiça internacional com o seu programa de bombardeamentos. Perpetuou a fantasia de que 25 anos de alinhamento com as políticas do Médio Oriente foram apenas um “erro trágico.”

Não existe a possibilidade de que depois da eleição de Donald Trump ou Hillary Clinton os americanos venham a sentir saudades de Obama? 
Mas isso não pode servir para não falarmos do presente. Obama não levantou a proibição das imagens de guerra americanas que são mostradas nos media, mantendo os cidadãos alegremente ignorantes sobre a maneira como os seus impostos estavam a ser usados para ferir pessoas noutras partes do mundo. Só introduziu a agenda climática nos últimos meses do seu segundo mandato. Não desmantelou os lobbies corporativos e os bancos que dominam os EUA e grande parte do mundo. E mesmo que não pudesse fazer todas essas coisas sozinho, podia ao menos ter continuado a falar sobre elas ao povo americano de forma implacável e com o carisma que todos lhe reconhecemos, afectando dessa forma a psique do país de forma significativa. É verdade que tentou trabalhar com o sistema para criar algumas mudanças e conseguiu alguma redução de danos ao nível do aquecimento global, mas é pouco, porque estamos na fase de assassinato do ambiente. Dito isto, a perspectiva de termos Donald Trump no poder é aterradora! Alguém tão volátil, fascista e totalitário como ele até nos pode conduzir a uma guerra nuclear. Já com Hillary Clinton, dada a sua longa presença no governo, será a continuação de uma dinastia da qual não se espera que traga algo de novo.

 Durante muitos anos quem criava canções politizadas era logo catalogado como cândido, porque não iria conseguir mudar nada, ou como cínico, porque lhe eram apontadas segundas intenções, ou como simplista, porque se limitava a apontar o dedo sem apresentar soluções. Apesar de tudo, parece existir hoje um compromisso maior de alguns músicos com as experiências da vida. Qual pode ser o papel de um músico nessa intenção de transformar a realidade à sua volta? 
A minha intenção com este disco foi olhar-me ao espelho e tentar perceber a minha relação com sistemas que não têm os nossos melhores interesses em mente. Queria ir para lá da minha zona de conforto, tentando manter os olhos bem abertos e ser honesta comigo, mesmo se nem sempre me senti confortável com a realização deste inquérito a mim própria, porque até certo ponto somos todos cúmplices deste sistema em que vivemos. Sinto que o problema está na forma como abordamos as coisas – está enraizada na nossa negação. A disparidade entre aquilo que experienciamos, entre aquilo que pensamos que somos e a pegada real que deixamos pela terra é um exemplo disso. Não tenho respostas para esta crise, ou para este conjunto de crises, mas queria começar a fazer perguntas, porque, se forem bem feitas, é meio caminho andado para a resolução dos problemas. Vejo a erosão dos nossos sistemas como uma espécie de síndrome de condições interdependentes que se exacerbam umas às outras e o clímax disso tudo é o genocídio ecológico.

 Existe muita gente a criticar, por exemplo, Beyoncé, argumentando que o seu posicionamento político não conduz a nenhuma mudança, porque faz parte de um sistema que a absorve por inteiro. É possível mudar o sistema a partir de fora? Ou é melhor tentá-lo a partir do interior?
Não tenho a resposta para isso. Provavelmente, cada pessoa, tem de tentar resolver os problemas de todos os ângulos possíveis ao mesmo tempo – seja a partir de dentro ou de fora. O que me parece importante é todos termos ferramentas que nos permitam examinar a nossa relação com sistemas que não têm os nossos melhores interesses no coração e que não estão interligados com os melhores interesses da biosfera e da biodiversidade.

Apesar do panorama tenebroso que descreve - o álbum chama-se Hopelessness - no meio da tensão é possível a produção de esperança?
Sou cidadã americana, sendo também britânica. Muitos dos sistemas modernos que agora causam danos no mundo ou foram desenvolvidos aqui ou foram inspirados pelo que acontece aqui, como as formas mais virulentas do capitalismo neoliberal. Também foi aqui que se gerou o bastião para o extremismo religioso ocidental e este é terreno fértil para colaborações insidiosas entre empresas multinacionais e fundamentalistas, cada qual à sua maneira parecendo correr na direcção das suas fantasias de apocalipse. Mas, sim, mesmo assim a esperança é possível. Encontro-a nas expressões mais vigorosas da verdade e no desmantelamento dos lobbies de combustíveis fósseis ou dos banqueiros que tentam corromper essa mesma verdade acerca da devastação ecológica. Considero esperançoso haver muitas pessoas que lutam pela decência humana e reconhecem que estamos perante uma crise sem precedentes na história da nossa espécie, sabendo que as nossas acções colectivas determinarão o futuro mais próximo da biodiversidade.