Portugal-Áustria à lupa: dificuldades portuguesas para entrar na área austríaca

Uma equipa académica analisa ao detalhe o jogo entre Portugal e a Áustria.

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A dinâmica das acções de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede. Na figura “rede de acções” do Portugal-Áustria, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos, cruzamentos. O “tamanho” de cada jogador é definido pelo número de jogadores com quem este interage. A cor verde significa menor precisão nas acções, aumentando para amarelo e, finalmente mais vermelho que indica maior precisão. A “largura” de cada ligação (seta), que apenas aparece se for superior a 5, aumenta em função do número de acções realizados entre os jogadores dessa ligação.

Para o jogo com a Áustria, Portugal apresentou-se em 4-3-3, em comparação ao 4-4-2 utilizado contra a Islândia, em que William Carvalho substituiu Danilo e Quaresma substituiu João Mário. No lado da Áustria, Ilsanker entrou para o lugar do castigado Dragovic, Januzovic foi substituído por Prodl e Janko por Sabitzer.

A rede de ações mostra uma maior densidade de ligações entre os jogadores, resultante do facto de Portugal ter tido mais tempo a posse de bola que a Áustria (59 e 41%, respectivamente) e de Portugal ter realizado 512 passes, dos quais 86% chegaram ao seu destino, ao passo que a Áustria fez 335, com 81% de eficácia. Esta circulação da bola aconteceu frequentemente no meio-campo adversário, mas teve dificuldade em entrar na grande área e criar oportunidades para marcar golo, com excepção dos cruzamentos a partir dos corredores laterais.

Tal como no jogo com a Islândia, Portugal saiu a jogar pelos defesas centrais e efectuou várias variações de corredor, como mostram as ligações entre Raphaël Guerreiro – Ricardo Carvalho - Pepe – Vieirinha. William Carvalho foi o jogador que mais fez circular a bola, permitindo a João Moutinho e André Gomes jogarem mais subidos no campo. A este aspecto foi acrescida a subida dos defesas laterais, que para além de contribuírem para a largura constante da equipa, permitiram que os médios alas pudessem jogar no interior do campo, garantindo muitas linhas de passe e maior mobilidade entre os médios centrais, alas e avançado. As fortes ligações entre Raphaël Guerreiro – André Gomes e de ambos para Cristiano Ronaldo, demonstram a influência dos dois jogadores na criação de situações de golo. Exemplos disso são os cruzamentos de Raphaël Guerreiro para Cristiano Ronaldo, que num desses cruzamentos, fez a bola a passar muito perto do poste. E um outro desses cruzamentos deu origem à grande penalidade, após combinação com André Gomes. De destacar também a ligação entre André Gomes e Quaresma. Embora com pouca frequência, Nani foi assistido sobretudo pelos três médios, sem ligações preferenciais, e por isso aparecer na rede sem ligações, semelhante ao que acontece com o austríaco Alaba. A dificuldade de Portugal em entrar na área adversária deveu-se muito às actuações dos austríacos Fuchs e Prodl. Todavia, Portugal fez 23 remates, dos quais foram 6 à baliza, 10 foram para fora e 7 foram interceptados. Por seu lado, a Áustria fez 3 remates, em que apenas 1 foi à baliza e os outros 2 foram para fora.

Em ataque organizado a Áustria teve como jogador que mais fez circular a bola Baumgartlinger, com ligação preferencial ao avançado Harnik, de quem surgiu o passe para o único remate da Áustria à baliza, logo no inicio da segunda parte, após combinar com Ilsanker. A linha avançada da Áustria manteve-se sempre longe da linha média, como se vê pela falta de ligações ao médio Schopf e ao médio ofensivo Alaba. Possivelmente por isso, a Áustria recorreu a passes longos para a frente, inclusivamente realizados pelo guarda-redes Almer.

A ausência de ligações entre os avançados Ronaldo-Nani-Quaresma contribuiu para a falta de oportunidades criadas a partir do corredor central, por exemplo para criar movimentos de ruptura nas costas da defesa. As entradas da bola na área adversária aconteceram, sobretudo, através de cruzamentos dos corredores laterais. Mas foram as situações de bola parada as que criaram maiores oportunidades de golo, como foi o cabeceamento ao poste de Nani e o cabeceamento de Ronaldo aos 55’, que o guarda-redes Almer defendeu. As substituições também não tiveram repercussões na dinâmica da equipa, não alterando a rede de ações de Portugal. Todavia, em termos gerais, reforça-se a posição ofensiva de Portugal, visível por exemplo na menor necessidade de Rui Patrício participar nas interacções, em contraste com o guarda-redes austríaco.

Analisando o desempenho global das equipas no Euro 2016, após dois jogos cada, Portugal é a terceira equipa com maior percentagem de passes realizados com êxito (89%), ultrapassada apenas pela Espanha (92%) e pela Alemanha (91%). Além disso, Portugal, em igualdade com a Espanha, é a segunda equipa com maior tempo de posse de bola (62%), ultrapassadas apenas pela Alemanha (63%). Mas o dado mais interessante e que mostra que o processo de jogo de Portugal pode estar no bom caminho é que Portugal é a equipa com mais remates (50), a larga distância da Croácia e de Inglaterra (ambas com 37). De entre todas as equipas no Euro, Portugal é a equipa com mais remates a acertarem na baliza (16), acima da segunda equipa, a Suíça (13). Curiosamente, os guarda-redes com maior número de defesas neste Euro são precisamente o da Islândia (14) e o da Áustria (12).

Duarte Araújo, José Pedro Silva, Micael Couceiro Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa; e Ingeniarius, Lda.