Em Lisboa, 94 entidades lutam para salvar mais de 2,1 milhões de refeições por ano

O representante da FAO em Portugal quer ver o comissariado criado pela câmara divulgado, para que possa ser replicado noutros locais.

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No final de 2014, ano em que a Câmara de Lisboa constituiu o Comissariado Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar, eram 15 as entidades a trabalhar nesta área, em 11 das 24 freguesias da cidade. Menos de dois anos depois, elas são já 94, estão espalhadas por todo o território e levam mais de 2,1 milhões de refeições por ano a quem delas precisa.

Estes números foram dados a conhecer esta sexta-feira, numa conferência de imprensa de apresentação do trabalho desenvolvido até aqui. Nela o comissário João Gonçalves Pereira congratulou-se com o facto de a rede de instituições que combatem o desperdício alimentar “ser alargada todos os dias” e sublinhou que tal demonstra que este é já “um desígnio da cidade, que envolve dezenas e dezenas de instituições”.

Entre as 94 que estão referenciadas, há vários centros sociais e paroquiais, diversas instituições particulares de solidariedade social e núcleos do projecto Re-food. Parceiras essenciais são também as juntas de freguesia que, à excepção da de Campolide (que já tinha em funcionamento um projecto próprio), constituíram núcleos locais de combate ao desperdício alimentar. 

Agora que Lisboa tem uma rede que abarca todas as suas freguesias, João Gonçalves Pereira (que é também vereador do CDS na Câmara de Lisboa) fala na possibilidade de esta iniciativa de Lisboa poder ser “replicada” noutras áreas do país e mesmo além-fronteiras. Essa ideia foi também defendida pelo representante em Portugal da Organização nas Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que participou na conferência de imprensa.

Na ocasião Hélder Muteia sustentou a importância de a iniciativa da capital portuguesa, que considerou ser “um exemplo”, ser divulgada. “Não como um exercício de auto-promoção, mas sim para que possa ser replicada”, disse, notando que “o mundo oferece diferentes possibilidades, diferentes soluções” e que todos têm a ganhar com o facto de elas serem dadas a conhecer.

Para Hélder Muteia, “a magia” daquilo que tem vindo a ser feito em Lisboa ao nível do combate ao desperdício alimentar assenta num elemento chave: “o protagonismo da sociedade civil não só não foi retirado como foi reforçado”, frisou, considerando que “este tipo de iniciativas gera uma onda”.

Já o vereador dos Direitos Sociais da Câmara de Lisboa notou que “o trabalho que se faz no âmbito do desperdício alimentar é local”. “Pode ser coordenado, estruturado ao nível da cidade mas é ao nível local que tem a sua real expressão”, disse João Afonso.

Para o autarca dos Cidadãos Por Lisboa, o Comissariado Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar (cujo tempo de vida não deverá prolongar-se para lá do final deste ano ou do início do próximo) funcionou como “um acelerador”. “Não nos pretendíamos substituir ao já existente”, frisou, apontando como objectivo do comissariado “estruturar o trabalho que se sabia existir na cidade”.

De acordo com João Gonçalves Pereira, a rede hoje constituída consegue recuperar 2.134.794 refeições por ano, o que no entender do autarca constitui um “motivo de orgulho”. O comissariado não divulgou números sobre o valor económico dessas refeições, mas o presidente da Comunidade Vida e Paz tinha um para partilhar: segundo Henrique Joaquim as refeições reaproveitadas em 2015 pela instituição (que além de sem-abrigos apoiou 60 famílias “em situação de grave vulnerabilidade social”) representaram 768 mil euros. “É um valor económico elevadíssimo”, constatou.