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Siva Vieira
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Souto de Moura

Obras de Siza Vieira e Souto de Moura em leilão solidário

A associação “Encontrar-se”, em funções há dez anos, tem a sua continuidade em risco. Obras de mais de vinte artistas serão leiloadas, nesta quinta-feira, nos Paços do Concelho do Porto

O relatório "Portugal - Saúde Mental em Números 2015" coloca Portugal na posição de um dos países ocidentais com os valores mais elevados de prevalência de perturbações psiquiátricas, apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte e Estados Unidos. De acordo com a mesma fonte, um em cada cinco portugueses sofre de doença mental. A associação Encontrar-se, no Porto, segue diariamente 65 pessoas que não encontram resposta para o seu problema nas unidades de saúde tradicionais. Ao longo dos dez anos de actividade, o número de hospitalizações de todos os pacientes que foram acompanhados pela instituição, de acordo com a mesma, foi reduzido a zero. Mas agora está em risco e, para o contornar, serão leiloadas 24 obras de arte.

A Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), fundada em 2006 no Porto, com a missão de promover a saúde mental e prevenir a doença mental, atravessa uma fase financeira de risco. Em declarações ao PÚBLICO, a directora da Encontrar-se, Filipa Palha, afirma mesmo que a previsão é de que o saldo contabilístico disponível “não garanta o funcionamento da instituição por mais de um ano”. Neste momento diz viverem “apenas das poupanças”, tendo em conta que “à excepção de um apoio da Câmara, no âmbito do programa Porto Solidário”, não têm, “nem nunca tiveram”, qualquer tipo de ajuda por parte do Ministério da Saúde. Enquanto conserva “a esperança” de que um protocolo, que garante a continuidade dos cuidados integrados, seja oficializado pelo Ministério da Saúde, a IPSS, face à possibilidade de extinção procura “outras vias” para a resolução de uma situação financeira frágil.

Em 2014 foi lançado um desafio aos pacientes que frequentam a instituição. Numa frase teriam que descrever um estado de alma que definisse o processo resultante da sua condição mental. “Até os abraços do meu filho parecem agulhas no meu corpo”. “Sinto que estou em falta com a vida… com a minha”. “Só estou bem a ver televisão. Sinto-me estranha”. “Sempre que tento fazer algo, sei logo à partida que não vou conseguir”. Estas frases, parte das que foram escritas pelos utentes, foram usadas como ponto de partida para que cerca de duas dezenas de artistas criassem uma obra de arte. Este trabalho, que reuniu artistas que se associaram à causa como Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto de Moura, Joana Vasconcelos, Julião Sarmento ou Luís Buchinho, deu origem à colecção “Frases para quem”. Esta colecção, que surge no sentido de “dar resposta à falta de capacidade ao nível de actuação e ao escasso apoio financeiro” faz parte da exposição “Quanto tempo falta?”, patente nos Paços do Concelho até 29 de Julho.

É este mesmo espólio que reúne 24 obras de 24 artistas que será leiloado. O valor angariado, segundo Filipa Palha, será canalizado para o financiamento da programa de reabilitação psicossocial de pessoas com doença mental grave, no sentido de “garantir o apoio psicológico gratuito prestado a dezenas de utentes”.

O leilão é organizado pela galeria P55 com o apoio da Câmara Municipal do Porto. O responsável pela galeria, Aníbal Faria, diz que o motivo da associação à iniciativa surge “da empatia pela causa” de um projecto que considera “prestar um serviço sem paralelo”. Por isso mesmo, o serviço que será prestado, será realizado “sem qualquer contrapartida financeira”.

O leilão decorrerá às 21h00, desta quinta-feira, na Câmara Municipal do Porto. As peças podem ser vistas antecipadamente na exposição, no mesmo local, e no site da P55.