O coração fez Raphaël escolher Portugal, a razão afastou-o do PSG

Natural de Blanc-Mesnil, no Norte de Paris, o jovem defesa esquerdo convenceu na estreia do Euro 2016 e foi confirmado como reforço do Borussia Dortmund por 12 milhões de euros.

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Miguel Vidal/Reuters

À semelhança do que acontece em praticamente todas as cidades e vilas de Seine-Saint-Denis, um dos mais pequenos dos 101 departamentos franceses, uma percentagem elevada dos cerca de 50 mil habitantes de Blanc-Mesnil é de origem portuguesa. Paredes-meias com o aeroporto Charles de Gaulle, neste subúrbio a Norte de Paris é fácil tropeçar em estabelecimentos comerciais com adereços de Portugal, mas para a comunidade lusófona local o jogo que a selecção nacional vai disputar no sábado, no Parque dos Príncipes, ganha um interesse redobrado pela presença em campo de Raphaël Adelino José Guerreiro, um dos poucos jogadores portugueses que terminou a partida de estreia no Euro 2016 com a sua reputação imaculada.

Filho de pai português e de mãe francesa, Raphaël Guerreiro nasceu há 22 anos em Blanc-Mesnil, a pouco mais de uma dezena de quilómetros do local onde, 497 dias mais tarde, se iniciou a construção do Stade de France, o principal palco do Campeonato da Europa de França. Os primeiros toques certeiros na bola do “5” da selecção portuguesa foram dados no colégio Nelson Mandela, que mantém um protocolo com o Blanc-Mesnil SF, principal clube da vila, e, aos 12 anos, o talento do pequeno Raphaël valeu-lhe uma vaga no restrito Centre Technique National Fernand Sastre, uma das 12 academias da Federação Francesa de Futebol para onde são seleccionados apenas os mais promissores jogadores da região de Île-de-France.

Com a confirmação do seu talento, Raphaël não tardou em ser recrutado para a academia do AM Caen, no Norte de França, mas uma grave lesão aos 16 anos - fractura da tíbia e do perónio - colocou um momentâneo travão na evolução do pequeno esquerdino. Após oito longos meses de recuperação, Guerreiro regressou em pleno e não demorou a impor-se novamente: em 2010 já jogava na equipa de reservas dos “rouge et bleu”; dois anos mais tarde, estreou-se pela formação principal do Caen, na segunda Liga francesa.

Escolha qual o "onze" que Portugal deve apresentar frente à Áustria

Com a sua qualidade reconhecida – foi considerado pela associação de jogadores profissionais franceses (UNFP) o melhor defesa esquerdo de 2012-13 -, era inevitável o salto para um clube maior, mas a cobiça por Raphaël Guerreiro não se limitou a várias equipas da principal divisão gaulesa. Em Novembro de 2012, o esquerdino foi pré-seleccionado para representar a formação de esperanças de Portugal e de França. Após rejeitar a primeira abordagem de ambas as selecções, Raphaël decidiu-se, meio ano mais tarde: declinou o convite da federação do país onde nasceu e, a 20 de Março de 2013, num jogo dos sub-21 frente à Suécia, vestiu pela primeira vez a camisola de uma selecção portuguesa.

A opção de Raphaël ainda hoje intriga os franceses. A meia-dúzia de dias do início do Euro 2016, o jornal Le Parisien confrontou o internacional português: “Porque decidiu representar Portugal em detrimento da França?” A decisão, admite o jovem de Blanc-Mesnil, “não foi fácil”, mas foi “uma escolha com o coração”: “Sempre apoiei esse país no futebol. Em casa, com os meus irmãos, houve sempre um grande fervor por Portugal. Todos os anos íamos de férias de carro para perto de Faro, como uma verdadeira família portuguesa.” Na entrevista ao Le Parisien, Raphaël revelou ainda que “adora” a cozinha portuguesa – “regalo-me sempre com o peixe grelhado, em especial sardinhas” – e quando foi questionado sobre se conhecia o hino português, não deixou dúvidas sobre os seus sentimentos: “Claro que conheço. [Aprender o hino] foi a primeira etapa quando cheguei às selecções jovens, para honrar o meu país e os meus colegas. Também sei “la Marseillaise” [hino francês], mas quando canto o hino português é diferente. É sempre qualquer coisa de extraordinário.”

Feita a escolha pela selecção portuguesa, Raphaël teve, alguns meses mais tarde, outro enorme dilema para resolver. As excelentes exibições na primeira época no Lorient, equipa que pagou três milhões de euros pelo português ao AM Caen, não passaram despercebidas a grandes clubes europeus, entre os quais o FC Porto, mas a proposta mais sedutora chegou de bem perto do local onde Raphaël nasceu. No início de 2015-16, o PSG procurava um defesa esquerdo que fizesse sombra ao brasileiro Maxwell e os 10 milhões de euros pedidos por Loïc Ferry, presidente do Lorient, não eram um problema para os multimilionários de Paris. Porém, a um ano do Euro 2016 e com a perspectiva de não conseguir jogar com regularidade, Raphaël declinou mudar-se para o clube do seu coração. “O Maxwell podia ser o meu mentor, mas sabia que não era a escolha que se impunha para mim. Para o bem da minha carreira, entendi que seria melhor continuar como titular no Lorient do que ser suplente em Paris. O PSG é o clube do meu coração e foi uma escolha complicada. Em condições normais, faria tudo para ir, já que se trata do PSG. Mas não me arrependo. Quero projectar-me no Euro com Portugal e preciso de jogar para aproximar-me da selecção.”

Um ano mais tarde, a decisão de Raphaël Guerreiro revelou-se acertada. Após mais uma excelente época em Lorient, o defesa esquerdo convenceu Fernando Santos que, em entrevista à Sport TV, confessou ter ficado impressionado com o jogador: “Era o mais desconhecido para mim. No primeiro dia surpreendeu-me. Lembro-me de no primeiro treino olhar para o miúdo e pensar: ´Que talento é este?´” Hábil e inteligente dentro do campo, tímido e pouco falador fora dele, Raphaël Guerreiro, apesar dos seus 22 anos, tem sabido gerir a carreira com sapiência. A recompensa chegou nesta semana: dois dias depois de ser titular contra a Islândia na estreia de Portugal no Euro 2016, com uma exibição que mereceu consenso nos elogios, surgiu a confirmação oficial de que será reforço do Borussia Dortmund para as próximas quatro épocas, num negócio que renderá ao Lorient 12 milhões de euros mais 20% da mais-valia obtida numa futura transferência.