O Porto homenageou as vítimas de Orlando: “Não é por respeito, é por direito”

No ano em que passam dez anos do assassinato de uma transexual no Porto, a vigília pelas vítimas do atentado nos EUA sublinhou o “enorme caminho a percorrer” pelos direitos da comunidade LGBT.

Fotogaleria
Na vigília desta quarta-feira no Porto participaram algumas dezenas de pessoas Fernando Veludo/NFactos
Fotogaleria
Fernando Veludo/NFactos
Fotogaleria
Fernando Veludo/NFactos

Rui é estudante e foi à Avenida dos Aliados movido pela memória daquele dia em que ameaçaram bater-lhe porque achavam que era gay. “Por acaso” não é, mas isso não o demoveu de estar presente na vigília desta quarta-feira, no Porto, em solidariedade com as vítimas do massacre do passado sábado que fez 49 mortos numa discoteca na cidade norte-americana de Orlando.

Veio porque sentiu medo. Esse medo que tantos homossexuais “sentem na pele, em todo o mundo”, lembra Amanda Palmeira. Foi dela que partiu a iniciativa de criar um evento no Facebook que levou à concretização desta “vigília pelas vítimas do hetero-patriarcado”, ao mesmo tempo que outra decorria em Lisboa, onde terão estado presentes mais de duas centenas de pessoas. Um momento solene para “não esquecer as mortes em Orlando, nem as mortes e toda a violência que a comunidade LGBT conhece todos os dias”, destaca. As poucas dezenas de pessoas presentes não deixam de considerar o tiroteio na discoteca norte-americana “um acto de ódio.”

Vieram por pessoas como Eric Martins. Ele diz-se com “muita sorte”, porque encontrou em comunidades LGBT pessoas com quem falar, e que o terão salvado do ciclo de depressões em que tinha mergulhado. Obrigado “a sair do armário”, o estudante brasileiro não fala com a mãe há três meses.

No Brasil, a discriminação pela sua orientação sexual afastou-o de estagiários e de um trabalho de pesquisa. O professor não quis trabalhar com ele. Em várias empresas, para onde ia estagiar em engenharia civil, ao verem que reprovava os comentários homofóbicos de políticos brasileiros, foi afastado. Mas não deixa de se sentir “abençoado”, porque nunca viu nada tão violento como o que viu e o chocou em Orlando.

A vigília desta quarta-feira quis também combater “este problema que é o patriarcado”, disse uma das intervenientes na série de testemunhos que se seguiram à vigília. “Contra esta ideia fascista de apropriação do que não lhes pertence, cada vez mais se estão a levantar”, destacou, deixando uma mensagem de esperança para os que também ali queriam ganhar voz.

Amanda nunca sentiu a descriminação na pele. Nem Margarida. Mas vieram porque esta é a sua luta por pessoas como Enric e “pelos que ficaram pelo caminho“. “Faz este ano dez anos desde a morte da Gisberta, e a violência ainda não parou.” Margarida Cândido relembra a transexual assassinada no Porto, quando o gozo de um grupo de rapazes descambou em violência e na sua morte.

Quando se interrogam sobre o que falta fazer pelos direitos da comunidade em Portugal, suspiram: “É uma boa pergunta.” Apesar dos avanços legislativos dos últimos anos, o caminho ainda é longo, acreditam. Animam-se com propostas como a do Bloco de Esquerda de alterar a legislação sobre a identidade de género, ao retirar a necessidade de diagnóstico médico. “Falta normalizar o que é considerado uma minoria”, destaca Margarida.

Telmo Fernandes reconhece o “bom patamar” em que o país está no reconhecimento de direitos da comunidade. Há mais testemunhas, há pessoas com mais consciência e há mais gente “a apontar o dedo”, refere o membro da Ilga Portugal. O Observatório da Discriminação reconhece, num estudo de 2015, que o número de denúncias de descriminação por questões de género e orientação sexual aumentou 300% em relação a 2014. Houve 158 denúncias na Ilga Portugal, muitas delas que incluíam participações às autoridades.

Mas Telmo não esquece os casos que passam ao lado da lei, “como aquele hotel no Minho que não aceita homossexuais”. O activista refere-se ao caso do complexo hoteleiro Casa D’João Enes, em Viana do Castelo que, no início do mês, se envolveu numa polémica por alegadamente vedar a entrada a gays e lésbicas. “Ainda temos que ter leis mais eficazes contra este tipo de descriminação.” Telmo Fernandes fala mesmo na necessidade de se fiscalizar se a lei é cumprida, para evitar este tipo de casos.

Orlando não é Charlie

Esta quarta-feira, as poucas dezenas de pessoas que se juntaram nos Aliados reivindicaram direitos de uma comunidade que ainda dizem ser altamente descriminada pela sociedade. “Para mim esta é uma questão de liberdade, não tem nada a ver com a orientação sexual”, defende Rui Amaral Mendes. Não exige respeito, “porque ninguém é superior a ninguém para ser respeitado. Não é por respeito, é por direito a ser diferente.”

Também ele veio porque já sentiu medo por o julgarem homossexual, “e a sensação não é agradável”. Exige sim “o direito a uma vida sem medo” para todos. Aqui todos esperam pelo dia em que se “aceita a diferença como algo natural”.

“Por ser uma questão de liberdade”, uma manifestante afirma que “todos os que são Charlie” deviam estar lá. Ao seu lado, há quem aplauda e muitos acenam em concordância. Em cada intervenção houve-se o lamento de que “deviam estar aqui mais”.

Margarida Cândido não deixou de frisar: “Isto não é só sobre Orlando.” Como a manifestação de repúdio à violação em grupo de uma menor brasileira, no início do mês, não foi só sobre o Brasil, reproduzem-se os movimentos sociais que lutam pelos direitos humanos, apoiados na chama de um acontecimento. No dia 1, fora a violação da menina de 16 anos; esta quarta-feira, “foi por Orlando, mas isto é por todos nós”, destaca.

Pela “homofobia do dia-a-dia”, muitas vezes anónima e escondida, relembra João Fadário. Agora com 35 anos, admite que “sempre soube que era gay”, mas uma parte da família não o sabe. Muitas vezes não pode contar o que fez, tem que inventar “todas aquelas histórias”. O mais difícil é remeter-se “ao silêncio.” Foi vítima de bullying na escola e na vida depois disso, mas acredita que “os miúdos são mais intolerantes agora”. Vê-os mais cruéis, escondidos nas redes sociais, onde “facilmente se diz ‘vai-te matar’ ou ‘és feio’”. Afirma, convicto: “O preconceito magoa e o preconceito mata.”

Como tantas outras concentrações populares, esta vigília surgiu “da ideia de várias pessoas”. Anónimas e sem bandeiras de partidos. Esta, como diversas manifestações que têm surgido em cidades como o Porto e Braga, surgem da iniciativa anónima de cidadãos que sentem a necessidade de intervir.

Este sábado, as cores do arco-íris voltam a sair à rua, em Lisboa, para mais uma edição da Marcha do Orgulho LGBT. O evento repete-se no Porto alguns dias depois, a 2 de Julho.