Mia Hansen-Løve, Isabelle Huppert e a dúvida em movimento

Em O Que Está por Vir, Isabelle Huppert interpreta uma professora apanhada de surpresa pela vida. Através dela, Mia Hansen-Løve, prémio de realização em Berlim, retrata com ternura mas sem condescendências o mundo de intelectuais burgueses em que cresceu.

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História de uma professora de filosofia (Isabelle Huppert) cuja vida parece ruir de um momento para o outro, é também um filme que evoca a geração dos pais da realizadora

Diz-se a certa altura em O Que Está por Vir que é o tempo que revela as verdades absolutas ou incontornáveis, mesmo que seja preciso muito tempo para elas decantarem e vir ao de cima. É uma afirmação que se pode aplicar ao cinema de Mia Hansen-Løve (n. 1981): tínhamos deixado a cineasta francesa, “herói independente” do IndieLisboa em 2015, num ponto de dúvida. Depois de três filmes progressivamente mais conseguidos e aclamados, Tout est pardonné (2007), O Pai das Minhas Filhas (2009) e Um Amor de Juventude (2011), Éden (2014), ambicioso retrato da geração de DJs e músicos dos anos 1990 da qual o seu irmão fez parte, foi recebido com frieza e perplexidade. Mas o filme que se lhe segue, O Que Está por Vir, que chega esta semana às salas, foi um dos triunfos críticos do festival de Berlim, valendo a Mia Hansen-Løve o prémio de realização.

História de uma professora de filosofia, interpretada pela incomparável Isabelle Huppert, cuja vida parece ruir de um momento para o outro, é também – e percebemo-lo em conversa com a cineasta um filme “decantado”, onde a dimensão de vivência pessoal e autobiografia transfigurada que alimentou os seus filmes anteriores se mescla com a evocação, em “discurso indirecto”, da geração dos seus pais, do mundo em que cresceu. O Que Está por Vir é um retrato de mulher que se instala numa genealogia muito específica do cinema francês, trabalhando a inseparabilidade do pessoal e do político na história de uma mulher que, pelo meio das suas dúvidas, continua sempre a seguir em frente. Um percurso que Mia Hansen-Løve, ao telefone de Paris, diz ter sido revelado aos poucos, com o tempo.

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O Que Está por Vir parece remeter para os seus primeiros filmes, mais intimistas, depois do “filme de geração” que foi Éden...
Haverá sempre um antes e um depois de Éden, na medida em que rodar esse filme fez evoluir a minha mise en scène. Mas as coisas não são bem assim. Quando escrevi O Que Está por Vir, já tinha escrito Éden mas ainda não o tinha rodado, estava à espera do financiamento. E tem muito mais a ver com o futuro do que eu pensava inicialmente, mesmo que isso não se traduza no mesmo tipo de experimentação formal que Éden tinha. A forma dos meus filmes deriva directamente da identidade das personagens. Éden tinha a ver com o meu desejo de ligar um retrato de alguém ao retrato da sua geração; se aqui me concentro numa personagem, tem mais a ver com a própria solidão da heroína, o facto de o seu universo ser mais restrito.

Mas apesar dessa solidão, Nathalie [a personagem de Isabelle Huppert] é alguém que nunca pára, está sempre em movimento de um lado para o outro: de casa para o liceu para a casa da mãe para a editora para o jardim...
Isso vem na verdade da minha mãe, que tem uma energia muito próxima da de Nathalie. É interessante reparar como o nosso cinema pode ser influenciado pelas personagens que nos inspiram. Podemos ter veleidades, intenções formais às quais queremos adaptar as personagens. Mas funciono ao contrário: são as personagens que fazem avançar a minha encenação, é a personalidade dos protagonistas que decide o filme. Em O Pai das Minhas Filhas, filmei uma personagem que era produtor de cinema, que estava sempre em movimento, e foi assim que aprendi a aproximar-me do movimento na encenação. A velocidade da personagem ditou a velocidade do filme, e isso ensinou-me imensas coisas. O Que Está por Vir inspira-se numa personagem que está sempre em movimento e no fundo talvez seja o movimento, o nunca parar, que a salva. Interessou-me capturar isso.

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No entanto, Nathalie dá por si completamente desorientada quando a sua fé na filosofia não basta para sustentar a sua vida. Ao mesmo tempo, é algo que lhe dá força para avançar.
O filme tem de facto essa ambivalência. Disseram-me muitas vezes “para que é que serve a filosofia? Não serve para nada, Nathalie dá por si tão desorientada no fim de contas...” Há quem tenha a impressão que ela não tira as lições devidas do ensino da filosofia nem as aplica na sua própria vida, mas há quem pelo contrário sinta muito profundamente a força interior que ela tira da filosofia. Ambos os lados existem no filme. E isso é lógico, porque a filosofia ensina-nos principalmente a duvidar. Nathalie é uma personagem que duvida, e nisso é bastante coerente com o que faz na vida. A filosofia não nos dá respostas, leva-nos a fazer perguntas e talvez sejam perguntas que ela levou tempo a aplicar à sua própria vida. Mas quando se encontra à beira do vazio, Nathalie vai finalmente colocá-las a si própria.

Porquê professora de filosofia?
Fiz-me essa pergunta antes de começar a escrever! O filme é parcialmente inspirado pelos meus pais que eram professores de filosofia, e é uma pergunta que se coloca sempre: não seria melhor partir noutra direcção, não seria mais universal escolher outra disciplina, outra coisa que não fosse tão intelectual? Acabei por achar que eram as perguntas erradas, na medida em que tinham menos a ver com uma relação com a verdade do que com uma preocupação com os espectadores. Ter-me colocado essas perguntas permitiu-me reafirmar com outra segurança a relação de Nathalie com o pensamento. Compreendi que a personagem como eu a imaginava, como eu a sentia, estava de tal modo ligada à filosofia e ao pensamento que era preciso assumi-lo por inteiro. Não era anedótico nem dispensável, estava verdadeiramente no centro do filme.

Daí as discussões de Nathalie com o marido, com os alunos, com o protegido Fabien…
Essas discussões foram a minha infância. Passei muito tempo a ouvir debates muito animados entre os meus pais e os seus alunos, os seus amigos ou os seus professores. Banhei-me nesse universo, e este acabou por ser o filme que tive mais facilidade em escrever. Praticamente escreveu-se a si mesmo. É verdade que tinha a impressão de dominar muito bem a linguagem deste mundo, sem o julgar.

Isso dá-lhe também um lado político. O simples facto de poder e querer pensar nas coisas é em si mesmo uma declaração política.
E tive mais prazer em escrever o filme devido a essa dimensão, que me interessava muito. Estou muitas vezes em desacordo com a relação que o cinema mantém com a política, que me parece bastante grosseira. Tenho a impressão que os filmes que se dizem políticos forçam muitas vezes portas que já estão abertas. Dizem coisas com as quais a maioria das pessoas já concorda naturalmente, mas fazem-no de maneira muito polémica. Este filme oferecia-me a ocasião de falar de política de uma maneira muito mais conforme àquilo que me parece pertinente, sem reivindicar o que quer que seja. O que mais me interessava era descrever o mundo em que vivi: o mundo dos intelectuais de esquerda, em todas as suas nuances, sem renunciar à complexidade, sem medo de simplificações sedutoras ou confortáveis. Isso interessou-me tanto mais quanto se tratava de uma maneira de falar de política que não se vê muito no cinema. Evidentemente não concordo com tudo o que se diz, mas, como Éric Rohmer, faço parte dos cineastas que pensam que vale a pena falar do que conheço, e é verdade que para mim a filosofia, as ideias de esquerda, os debates sobre a actualidade são coisas que tinha a impressão de nunca ter visto nos filmes do modo como os vivi. Perguntava-me sempre porque é que as pessoas tinham tanta vergonha de representar a classe média de tendência intelectual, porque é preciso estar sempre a justificar, porque há tanto medo de falar de burguesia, etc. E acabei por querer abraçar por inteiro esse mundo. Era a maneira mais honesta de o fazer.

Fala de Rohmer, mas ao falar da burguesia evoca também um certo cinema francês que falava da vida normal, de nomes como André Téchiné ou Claude Sautet.
Téchiné é um cineasta que aprecio imenso, mas confesso sentir mais afinidade com os realizadores da Nouvelle Vague, que foram aqueles com quem cresci, que são as minhas referências, e dos quais me sinto mais próxima ao nível da linguagem e da relação com os actores. Mas é verdade que existem laços com os filmes de Téchiné, mesmo sendo diferentes dos meus, ao nível do olhar que temos sobre o mundo. A empatia é determinante no meu cinema, sempre esteve no centro do meu olhar, ao ponto de ser o tema da minha tese de mestrado na universidade. Nessa altura já me colocava a possibilidade de fazer filmes e a questão do olhar sobre o outro, tanto mais que muitos outros cineastas filmam o mundo com muita dureza. Sinto-me mais do lado de cineastas que gostam das personagens que filmam.

A esse propósito, é inevitável perguntar: foi sempre Isabelle Huppert que teve em mente?
Sim. Ao ponto de pôr a hipótese de não fazer o filme. O que me deu confiança – bizarramente, porque não se pode dizer que Isabelle Huppert seja reconfortante [risos]... foi perceber que esta actriz era a única que poderia ter a graça e o humor da personagem e ao mesmo tempo a autoridade intelectual para interpretar uma professora de filosofia. Sei que ela disse em entrevistas que lhe dei uma prenda com este papel; penso que é porque Nathalie lhe permitia uma interpretação toda em delicadeza, em subtileza. É o tipo de papel em que não a vemos muito, e para ela também existia qualquer coisa, ao nível do compromisso pessoal, em encarnar uma personagem intelectual. Creio que isso lhe deu imenso prazer.

Parece haver uma sintonia notável entre realizadora e actriz, uma espécie de estado de graça...
Foi uma rodagem bastante idílica. Claro que não foi fácil todos os dias, porque rodar com Isabelle Huppert exige um ritmo que não é o mesmo que se tem com outros actores. Mas ao mesmo tempo existia uma harmonia entre a sua performance e a minha mise en scène, uma espécie de adequação, de cumplicidade e compreensão mútua que foi bastante mágica... Tive a sensação de existir de facto um estado de graça, sobretudo nos exteriores de montanha – pareceu-me reencontrar a felicidade que senti na rodagem do meu primeiro filme, senti-me totalmente realizada. E isso é para mim a grande sorte de fazer filmes.