Em Matosinhos, o noroeste atlântico transforma pedra em obras de arte

Victor Ribeiro, Paulo Neves e Alvaro de la Vega são os artistas do Simpósio de Escultura que decorre em Matosinhos. Entre esta terça e quarta-feira, as obras produzidas pelos escultores desde o início do mês vão ser colocadas nos jardins da cidade.

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Fernando Veludo / NFACTOS
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A névoa de pó que o mármore recém-cortado por Victor Ribeiro, Paulo Neves e Alvaro de la Vega deixa no ar denuncia o processo que transforma um bloco de pedra numa obra de arte. Na Grécia Antiga, um simpósio era uma parte de um banquete, durante a qual os convivas se divertiam. Agora, o termo utiliza-se para fazer referência a um conjunto de trabalhos de autores diferentes mas sobre um mesmo tema. Assim é o Simpósio de Escultura que decorre em Matosinhos até esta quarta-feira. No entanto, este também é um Simpósio com algo de grego à mistura. A diversão é ponto assente entre os três escultores, que estão a criar desde 1 de Junho no espaço do parque de estacionamento junto à Galeria Municipal. A iniciativa está integrada na programação da Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016 e as obras que os três estão a esculpir tem como tema a relação entre as regiões. 

Para Victor Ribeiro, "as nuvens não conhecem fronteiras". E foi justamente nisso que se inspirou para fazer a sua peça. As nuvens "recolhem a água aqui, passam-na para acolá e não vão presas por causa disso", brinca.

Paulo Neves está também a "partir pedra" para criar uma "peça muito simples". Como vai para um espaço "muito aberto", vai chegar aos cinco metros de altura. O artista escolheu o mármore preto para espelhar a "relação entre a Galiza e o norte de Portugal". "É na relação entre o quadrado e o cilindro que as coisas funcionam", explica. A peça é adornada com uns "pequenos baixos-relevos ondulares", que representam "esta coisa do mar de Matosinhos e da Galiza".

E directamente da Galiza vem Alvaro de la Vega com a ideia de "juntar forças" numa peça que assume a figura humana. Partindo do plano de simetria, Alvaro utilizou um material com cor "levemente diferente". Um mármore mais escuro e outro mais claro, dois materiais na mesma peça que, "em teoria", se poderia fazer só com um. E que parte da diferença, mas sobretudo da "colaboração, da coordenação das políticas locais entre regiões". "A arte propõe ideias que depois irão parar à política, à economia. Está muita gente a trabalhar na ideia de estabelecer correntes que superam as fronteiras, sobretudo, em países tão semelhantes cultural e etnograficamente", esclarece o galego, num portuñol muito claro. 

Um barulho ensurdecedor de rebarbadoras, martelos e cinzéis vão dando forma à pedra, deixando um rasto de pedaços de mármore que sobram do processo de criação. Num norte granítico, de "pedra muito pesada e escura", o mármore "dá uma luz, dá uma alegria diferente", diz Paulo. "Dá uma frescura aos sítios", conclui Victor. 

"Partir pedra" há 30 anos 

O que une dois portugueses e um galego apaixonado por bacalhau e por pudim Abade de Priscos? Para além do pó que lhes cobre as mãos, são 30 anos a transformar pedra, e outros materiais, em obras de arte. Por isso, trabalhar a pedra já não apresenta grandes dificuldades. "Para eles não tem problema nenhum", diz Alvaro que admite não estar tão habituado a trabalhar mármore. Mas graças aos "sábios conselhos" dos "amigos portugueses", o trabalho fica mais fácil. Três personalidades artísticas que se conhecem muito bem. "Nós já fazemos simpósios e coisas juntos há bastantes anos", refere Paulo.

No entanto, os três admitem que os escultores em pedra são cada vez menos. "Somos quantos em Portugal?", questiona Paulo."Se houver uns 30, já vamos com sorte”, retorque Victor. E é a continuidade da arte que está em causa. "Os putos, a malta nova, têm medo das rebarbadeiras, fazem tudo em computador e em 3D", lamenta Paulo. Mas o trabalho de partir pedra continua. Vai-se ajustando aqui e ali e há a necessidade de se irem afastando das obras, porque, como dizem os espanhóis: Los árboles no nos dejan ver el bosque. É preciso ir sempre vendo a peça de longe para ter a noção do trabalho que se está a fazer. 

"A arte pede muitas ideias"

O pó que se levanta do trabalho afasta os visitantes, lamenta Alvaro. "Seria engraçado que aparecessem pessoas. Ver nascer uma escultura é um privilégio que as populações têm" e até de "criarem laços mais fortes" com a peça que está ali, diferente de "chegar de camião" e ser instalada, diz Victor. "Nós podemos conversar com as pessoas, explicar o nosso trabalho, porque, às vezes vês uma peça no ar e nem imaginas como é que aquilo aconteceu", explica Paulo. Para além disso, "o espectador encontra coisas que o escultor nunca encontrou", continua o galego. E "a arte pede muitas ideias", conclui. 

Com a cidade de Matosinhos como Capital da Cultura do Eixo Atlântico, esta é uma “oportunidade de consolidar um conjunto de programas [ligados às artes] e de dar mais um passo em frente para atingir outros públicos”, salienta o vereador da Cultura e Turismo da Câmara de Matosinhos. Depois da constituição da Frente Atlântica, passou-se de um “universo de 200 e poucas mil pessoas para mais de um milhão”. Mas com o alargamento ao noroeste peninsular, “atingimos um universo de mais de seis milhões de pessoas”, constata Fernando Rocha. E que se pode alargar com a “grande corrente de turistas” que se dirigem para o “Grande Porto”, a partir do novo Terminal de Cruzeiros de Leixões. A partilha da Capital da Cultura com Vila Real permitiu também “fazer a ligação entre o litoral e o interior do país” - "do Douro ao Atlântico" - e “criar um eixo de circulação e de interesse”, afirma o responsável pela pasta da cultura. 

“Nós entendemos que a regularidade das actividades é o essencial para a fixação de públicos e, portanto, tudo isto obrigou-nos a ter uma programação ao longo de doze meses”, refere o vereador. E que conta com mais de mil iniciativas programadas, desde Janeiro, em que foram investidos cerca de três milhões de euros. Uma programação que a autarquia quer manter e estender às infra-estruturas criadas “paralelamente à capital”: a Casa da Arquitectura, a Sede da Orquestra de Jazz de Matosinhos, o Museu da Diáspora, a Casa do Design e a Casa da Memória.

As três peças vão integrar o acervo do município. As peças de Victor Ribeiro e de Alvaro de la Vega estão a ser instaladas nos jardins envolventes da Galeria Municipal. A peça de Paulo Neves está já colocada junto à ponte móvel, em Leça da Palmeira.

Texto editado por Ana Fernandes