Opinião

Conectados e compartimentados

As vítimas de ontem em Orlando sabiam que não havia mal em ser-se como se é, desde que se respeite a liberdade dos outros.

Aconteceu de novo. Ontem em Orlando, na Florida, como antes em Bruxelas, Paris, Ancara ou no ataque da Páscoa em Lahore, no Paquistão. Recebemos as notícias de que algo está a acontecer, quase em direto, pelas redes sociais. Depois percebemos que é um algo terrível. Vamos aos sites dos jornais, lemos que o ataque causou vinte vítimas. Refrescamos a página e o número aumentou. E só depois nos inteiramos do contexto: cinquenta vítimas numa discoteca gay, atacadas por um atirador que terá feito um telefonema a declarar a sua lealdade ao “califado” do ISIS.

O que significa a maneira como agora, desde há poucos anos, recebemos as notícias destes ataques quase em direto e entramos num diálogo em tempo real com pessoas de todo o mundo. O que significa esta proximidade quase imediata com as vítimas, com matizes culturais e geográficos é certo, e sujeita à usura do tempo também, mas sem dúvida uma proximidade sentida e sincera?

Este sentimento de conexão, creio eu, é a nossa versão daquilo a que Aristoteles chamava de philia ou philia politike — a amizade cívica que unia a polis. Só que a polis, no tempo de Aristoteles, e no seu entendimento, era uma cidade-estado relativamente pequena e que assim se deveria manter, sob risco de não haver “linguagem de justiça” comum entre os seus membros. E hoje, dois milénios depois, podemos descarregar um podcast com uma lição de Aristoteles e ouvi-lo enquanto caminhamos pela nossa cidade, e qualquer cidade média à escala mundial é muitas vezes mais populosa do que a maior das cidades que ele conheceu. A lição terá sido gravada numa universidade do outro lado do oceano, e os auscultadores terão sido produzidos no outro lado do mundo. Estamos conectados entre milhares de milhões de pessoas.

Para alguns de entre nós, essa conexão é um perigo. Ela dissolve os antigos laços de autoridade e obediência. É então necessário voltar a compartimentar, em nações, em religiões, em raças até, para impedir que a descoberta do direito à felicidade numa comunidade “contamine” os indivíduos de outra comunidade e assim os autonomize para procurarem a sua vida.

Há “compartimentados” de várias estirpes. Se esta leitura estiver correta, talvez se explique por que — nos ataques de Paris e agora no de Orlando — os terroristas do ISIS tenham deixado de fazer ataques com mensagem geopolítica (como fazia a Al Qaeda) e os comecem a fazer com intuitos de terror social e cultural. Talvez eles saibam que estão a perder, porque o mundo “conectado” é mais expansivo, mais pessoal e gregário ao mesmo tempo, mais feliz por isso mesmo também.

As vítimas de ontem sabiam que não havia mal em ser-se como se é, desde que se respeite a liberdade dos outros. Essa “linguagem de justiça” é suficientemente coesa para se estender até se transformar numa amizade cívica global que não converte as pessoas com lavagem cerebral, mas deixando-as buscarem ser o melhor de si mesmas. Não mata ninguém, apenas pede que se viva conforme o sentir de cada um. Essa é uma mensagem que não tem hierarquia política nem disciplina militar, mas que já está a ganhar o mundo e é imparável.