Atirador de Orlando ameaçou executar reféns e tinha outra arma no carro

Maior massacre com armas de fogo na história dos EUA fez 49 vítimas mortais e 53 feridos. Autoridades dizem que já identificaram 48 e não contam com o atirador no balanço oficial.

Fotogaleria
Steve Nesius/Reuters
Fotogaleria
Brendan Smialowski/AFP
Fotogaleria
Monika Graff/AFP
Fotogaleria
Steve Nesius/Reuters
Fotogaleria
Spencer Platt/AFP

O homem que matou 49 pessoas numa discoteca em Orlando, na Florida, na madrugada de domingo, esteve mais de duas horas fechado numa casa de banho com "quatro ou cinco reféns" e ameaçou executá-los durante a conversa com os negociadores da polícia. Foi nesse momento que as autoridades decidiram lançar o assalto que acabou com a morte do atirador, Omar Mateen, um norte-americano nascido em Nova Iorque que prestou juramento de fidelidade ao líder do grupo terrorista Estado Islâmico durante o ataque.

Na única conferência de imprensa marcada para esta segunda-feira, responsáveis das várias agências envolvidas na investigação do massacre na discoteca Pulse actualizaram a informação disponível, sem fazerem qualquer referência a supostas ligações ao grupo terrorista Estado Islâmico – as respostas focaram-se na identificação das vítimas e nas investigações na cena do crime.

Como é costume nestas situações, as autoridades norte-americanas não incluem o autor do crime na lista de vítimas mortais, pelo que o número oficial de mortes na discoteca frequentada pela comunidade lésbica, gay, bissexual, transgénero e intersexo é 49, sendo que 48 delas foram identificadas até ao início da manhã desta segunda-feira. O ataque lançado por Omar Mateen fez também 53 feridos.

A prioridade da polícia do estado da Florida é identificar as vítimas mortais e enviar agentes para comunicarem pessoalmente a notícia da morte aos familiares; só depois disso é que as identidades são reveladas publicamente, disse o agente Danny Brooks.

Lee Bentley, um procurador do Ministério Público no estado da Florida, informou na mesma conferência de imprensa que foram recolhidos "indícios electrónicos e físicos", e admitiu que possa haver detenções para interrogatórios nas próximas horas ou dias. Ainda assim, o procurador disse que as autoridades não acreditam que a população da Florida esteja em risco depois do ataque na discoteca Pulse – indicando que Omar Mateen terá agido em resposta aos apelos genéricos do Estado Islâmico para que sejam lançados ataques um pouco por todo o lado, e não directamente coordenados com a organização terrorista.

A autoria do ataque foi reivindicada pelo Estado Islâmico no site Aamaq (que a organização terrorista apresenta como a sua agência noticiosa oficial) e também através de uma comunicação radiofónica, mas isso não significa que foi coordenado pelo grupo terrorista, nem que Omar Mateen foi recrutado e treinado.

Precisamente devido à dificuldade de se organizar um ataque deste género a partir do território controlado pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque, os seus líderes têm incentivado seguidores a lançarem ataques um pouco por todo o mundo, em particular nos Estados Unidos, para cumprir dois objectivos – conseguir realizar essas operações em países que considera como inimigos e criar uma sensação de terror ainda mais vincada nas sociedades onde esses ataques acontecem.

O porta-voz do grupo terrorista, Abu Muhammad al-Adnani, incentivou os que seguem as suas causas a cometerem atentados terroristas durante o Ramadão, numa mensagem publicada em Maio: "A mais pequena operação que vocês realizarem no coração da terra deles é mais cara para nós do que a maior operação realizada por nós, e mais eficaz e penalizadora para eles."

Em Setembro de 2014, Abu Muhammad al-Adnani incentivou os seguidores do Estado Islâmico em todo o mundo a lançarem ataques "sem pedirem autorização a ninguém" – bastaria prestar juramento de fidelidade do líder do grupo, o que Omar Mateen fez durante o ataque em Orlando numa chamada telefónica para o número de emergência do país (o 911, equivalente ao 112 em Portugal).

À semelhança do que aconteceu em Dezembro de 2015 com os autores do tiroteio em San Bernardino, no estado da Califórnia, Omar Mateen também prestou juramento de fidelidade ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi – prestar este juramento antes ou durante um ataque é o suficiente para que a organização terrorista considere o atacante como um dos seus mártires e permite-lhe depois reivindicar a autoria do ataque.

Encontrada terceira arma

Regina Lombaro, da agência ATF (responsável pela investigação de crimes cometidos com armas de fogo e explosivos), disse que foram encontradas três armas e não duas, como foi avançado inicialmente. O atirador entrou na discoteca Pulse com duas armas – uma pistola e uma espingarda semiautomática, ambas compradas por Omar Mateen – mas as autoridades encontraram uma terceira arma num veículo alugado pelo atacante.

Limitar a venda de armas nos EUA pode ser a última grande guerra de Obama

O responsável do FBI nesta investigação, o agente Paul Wysopal, disse que foram encontrados "cerca de 100 indícios ao longo da noite", e pediu calma aos meios de comunicação e à população em geral: "Vamos divulgar o que pudermos quando pudermos. Há informações que têm de ficar em segredo durante a investigação."

"Queremos dar informações correctas, e não dizer coisas e depois ter de corrigi-las duas horas mais tarde", disse o agente do FBI na conferência de imprensa.

O xerife de Orange County, na Florida, avançou alguns pormenores sobre a operação da polícia de intervenção e as comunicações entre o atirador e as equipas de negociação.

Jerry Demings disse que Omar Mateen esteve trancado numa das casa de banho com "quatro ou cinco reféns" depois de ter disparado de forma indiscriminada contra as dezenas de pessoas que estavam na discoteca. Por volta das 5h da madrugada de domingo (meia-noite em Portugal continental), e três horas depois do início do massacre, o atirador terá dito aos negociadores que iria começar a matar mais pessoas, o que levou as autoridades a ordenarem a entrada em cena do grupo de operações especiais (SWAT).

O xerife de Orange County disse que a operação das várias agências envolvidas salvou "dezenas de pessoas"  que estavam em três áreas da discoteca – o lounge, o bar e uma outra casa de banho –, e não confirmou se algum dos reféns foi morto durante a troca de tiros com Omar Mateen. O responsável disse apenas que o atirador nunca disparou durante as horas em que esteve trancado numa das casas de banho; foi a ameaça de começar a matar os reféns, e não quaisquer disparos, que levou a polícia a entrar na discoteca para deter ou matar Omar Mateen.

Quando ao facto de o atirador ter sido interrogado pelo FBI em pelo menos três ocasiões (duas em 2013 e uma outra em 2014), por suspeitas de ligações a grupos extremistas e a um outro muçulmano norte-americano, Moner Mohammad Abu Salha (que cometeu um ataque suicida na Síria em 2014, em nome da Frente al-Nusra), o agente Paul Wysopal disse que essas informações estão a ser cruzadas no quartel-general.

"A nossa missão é resolver este caso, o quartel-general vai olhar para isso. Não temos resposta para essa pergunta neste momento. Não tenho informação suficiente."