Morreu Paquete de Oliveira, pioneiro de estudos sobre jornalismo e um provedor “didáctico”

Sociólogo cumpria segundo mandato como provedor do leitor do PÚBLICO. Tinha 79 anos.

Paquete de Oliveira na redacção do PÚBLICO em Lisboa
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Paquete de Oliveira na redacção do PÚBLICO em Lisboa Daniel Rocha

Dizia ter horror a autobiografias mas admitiu que muitas vezes pensou em escrever uma nota curricular sob o título: “Fisicamente, morre-se uma única vez; socialmente, podemos morrer e nascer várias vezes”.

Afinal, ao longo da sua vida, José Manuel Paquete de Oliveira, que morreu neste sábado em Lisboa aos 79 anos, foi padre, jornalista, sociólogo pioneiro de estudos dos media em Portugal, professor, e terminou como um provedor mais “didáctico” do que dado a conflitos, um perfil que condizia com a sua personalidade. Desde 2013 era provedor do leitor do PÚBLICO.

Madeirense, casado e pai de dois filhos, depois de ter começado por ser padre, Paquete de Oliveira dizia ter andado sempre “perto de jornais, rádio, televisão”, “umas vezes por dentro, outras por fora”. Com apenas 23 anos, foi chefe de redacção do Jornal da Madeira, onde permaneceu até 1966.

Acabou por se licenciar em Ciências Sociais – ramo Sociologia – na Universidade Gregoriana, PUG, de Roma, em 1973, numa altura em que este curso não existia em Portugal. Regressa ao país em Janeiro de 1974, adoentado. Já desvinculado da Igreja, a revolução de Abril surpreende-o na Madeira, onde se preparava para rumar ao Brasil com uma bolsa do Banco Mundial. Ainda passa pelo Diário de Notícias da Madeira antes de decidir ir, em 1976, para o continente onde colabora no Expresso, no Diário de Lisboa e também, ao longo de uma década, no Jornal de Notícias.

Em 1989, doutorou-se em Sociologia da Comunicação e da Cultura pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), através da Universidade Técnica de Lisboa (1989). A sua tese de doutoramento, Formas de ‘censura oculta’ na imprensa escrita em Portugal no pós 25 de Abril, (1974-1987), de 1988, foi um marco.

A escolha deste tema “foi um acto de coragem”, resume Mário Mesquita, docente universitário, ex-director e ex-provedor dos leitores do Diário de Notícias. Isto porque, à época, não era tradicional a um sociólogo enveredar por uma linha de investigação ainda inexplorada: os estudos sobre o jornalismo em Portugal, área que já tinha começado a ser desbravada nos Estados Unidos muitos anos antes, na Universidade de Chicago, na passagem do século XIX para o século XX, explica.

Tornou-se assim “pioneiro na área dos estudos sobre os media” e, com a sua tese, “contribui para que o estudo sobre os media ganhassem relevância na universidade portuguesa”, continua. “Como tinha experiência profissional como jornalista tinha empatia por esse campo de estudo.”

No ISCTE foi quem introduziu esta área de estudo, depois de ela já existir na Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), refere José Rebelo, professor jubilado desta área de estudo, além de amigo e “vizinho de gabinete” de Paquete de Oliveira no ISCTE, onde este foi professor, vice-presidente e coordenador do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação.

José Rebelo realça o facto de Paquete de Oliveira sempre ter “querido abrir a universidade ao mundo” e de “não restringir a investigação à academia”.

Lembra que, numa altura, em que se estava a tentar arranjar formas de permitir que jornalistas com longas carreiras, mas sem estudos universitários ou que não tinham chegado a terminar os seus cursos, pudessem regressar à universidade, o ISCTE, devido a Paquete de Oliveira, “foi a única instituição que se ofereceu”.

Aí foi então criado uma pós-graduação, em conjunto com a Escola Superior de Comunicação Social, permitindo que jornalistas seniores como Adelino Gomes, Cesário Borga, Avelino Rodrigues, Diana Andringa e Óscar Mascarenhas pudessem “regressar à universidade e satisfazerem as suas curiosidades científicas”, refere.

“Isso levantou celeuma nas faculdades”, havia a ideia de que “os jornalistas vinham macular as universidades”, lembra Diana Andringa, que estava na direcção do Sindicato dos Jornalistas quando a proposta foi lançada.

Muitos destes jornalistas, como foi o caso de Diana Andringa, acabaram por avançar depois para mestrados e doutoramentos em estudos dos media.

Por causa deste percurso, alguns destes profissionais acabaram por criar, em Janeiro deste ano, a Associação de Estudos Comunicação e Jornalismo. O seu primeiro acto público, a 3 de Março deste ano, contou simbolicamente com uma conferência de Paquete Oliveira. Naquela que seria a sua última intervenção pública falaria sobre o Comportamentos dos media nas últimas eleições legislativas e presidenciais em Portugal.

José Rebelo, que também foi coordenador do mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias da Comunicação no ISCTE lembra que, quando foi convidado para aquele evento, já estava doente. “Desde Outubro que sentia que o fim chegaria”, mas dizia com “uma calma inacreditável ‘tenham cuidado com a marcação da data, se marcam muito tarde já não estou cá’”, recorda. “Com a mesma calma e ponderação com que vivia a vida, também encarava o fim da vida. Nunca o vi zangar-se, era incapaz de levantar a voz.”

Confirmando a ideia de um académico que não se fecha ao mundo, acabou por ficar conhecido do grande público, entre 1992 e 1997, como comentador residente do programa Casos de Polícia, da SIC.

Em 2006, acaba por se tornar no primeiro provedor do telespectador na televisão pública. “É quem constrói a figura do provedor da RTP”, resume Diana Andringa, que o descreve nestas funções como “didáctico, não muito dado a críticas. Não era um provedor conflituoso, tinha um tom não confrontacional. Tentava desmontar e fazer compreender o papel do jornalismo ao público. Foi um excelente provedor”.

“Tinha um profundo respeito pelo público, defendia 'o sentido de responsabilidade dos jornalistas'”, resume, por seu turno, o jornalista Avelino Rodrigues.

O Presidente da República considerou a morte do sociólogo "uma perda para a comunidade académica e para o mundo da comunicação social portuguesa". "Paquete de Oliveira deixa um contributo incontornável no jornalismo, na universidade, na investigação relativa aos mass media", diz a nota de Marcelo Rebelo de Sousa enviada à Lusa. O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, por sua vez, “lamenta profundamente o falecimento deste colega e amigo. Era um homem bom, sério e rigoroso, construtor de soluções”.

Paquete de Oliveira foi sempre conciliando as colaborações com a sua actividade principal, a docência, que diz ter marcado a sua identidade. Além do ISCTE, deu aulas no ISCSP e no ISEG.

Autor e co-autor de vários livros e muitas publicações sobre media, participou em diversos projectos de investigação científica internacional sobre comunicação social. Foi membro do Conselho Consultivo do Instituto Civil de Autodisciplina da Publicidade (ICAP).

Paquete de Oliveira cumpria agora o segundo mandato como provedor do leitor do PÚBLICO. Numa das visitas às instalações do jornal em Lisboa, após a morte de Tolentino de Nóbrega – o sociólogo tinha acompanhado a directora Bárbara Reis ao funeral, na Madeira, em representação do jornal –, distribuiu um a um cravos vermelhos pela redacção. Fê-lo a pedido da família de Tolentino, para que os jornalistas do PÚBLICO se lembrassem sempre dos valores da liberdade.

O representante da República para a Madeira, Ireneu Barreto, disse à Lusa que partiu um dos "grandes vultos da comunicação social" e "defensor da liberdade de expressão" em Portugal.

As exéquias de Paquete de Oliveira realizam-se na Basílica da Estrela, em Lisboa, onde o corpo está a ser velado desde as 19h deste sábado. Às 14h15 de amanhã, domingo, será rezada uma missa. Segue-se o funeral, às 15h30, com cremação às 17h no cemitério dos Olivais. Com H.T.