Jaime Rocha regressa ao mar

O mar tem sido um motivo de assombro para Jaime Rocha, um dos elementos matrizes de uma escrita que investiu tanto do seu poder na convocação e no esconjuro de diversos males. Do mal. Eis Escola de Náufragos

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Dramaturgo, ficcionista e poeta, Jaime Rocha escreve nos três domínios como se cada um deles fosse um ofício distinto, mas estranhamente complementar Nuno Ferreira Santos

Jaime Rocha regressa ao mar, tema e cenário de um descalabro de dimensões trágicas. Na sua poesia, como na prosa que tem escrito, o mar tem sido um motivo de assombro; um dos elementos matrizes de uma escrita que, de há muito, investiu tanto do seu poder na convocação e no esconjuro de diversos males. Do mal. O mal que é aqui a própria morte. Aquela que é horizonte do humano, mas que, sobretudo, se forma panorama obsessivo, paisagem claustrofóbica, de quem escolheu – ou foi escolhido por – uma vida de mar. Uma vida de enganar a morte até poder.

A saga do mar, a senda turva da pesca, trajecto que deixa sulcos profundos nas suas figuras, como rugas num rosto semelhante a pele curtida pelo sol, ou salitre persistente sobre o corpo. O mar como inscrição, ou insígnia calada de uma condição para sempre mortal. Essa é a safra que Jaime Rocha retoma em Escola de Náufragos. É a obscura poesia dessa existência presa que o autor volta a propor. Vidas presas por fios tão enredados como redes de pesca.

Os três vértices de um escritor

Dramaturgo, ficcionista e poeta, Jaime Rocha escreve nos três domínios como se cada um deles fosse um ofício distinto, mas estranhamente complementar. “No teatro”, explica o autor, “crio uma reação de absurdo, caótica, de rupturas, entre comédia e tragédia. Com cómico de situação. Aproveito o mundo, o conhecimento e o ruído, para criar uma ruptura, um rasgo subversivo, naquela criação”. Quando se trata da escrita poética, algo diferente se passa: “Na poesia é o contrário, procuro criar uma espécie de escultura em que esse caos está dominado por um edifício poético. É o oposto: vou ao caos para lhe dar uma lógica interna, um sentimento poético. Conciso, preciso.” “A poesia”, como nos revela, “procura o autor, pega nela, como se fosse uma garra. Na prosa e no teatro, sou eu que vou agarrar, eu sou a garra”. E particulariza, falando de aspectos técnicos da sua arte como se eles, de repente, se tornassem partes quase visíveis de um todo, quase repetíveis, sem que, no entanto, alguma vez o sejam.

Porque há todo o mistério do gesto criador a interpor-se entre a técnica e o impacto final daí resultante. “Para que as alegorias, as metáforas obedeçam a uma cadência, uma lógica. Como se eu pacificasse o pensamento.” Jaime Rocha compara com clareza, com surpreendente clareza, as distintas manifestações da sua criatividade. “Na poesia, vou buscar o material do mundo e tento domesticá-lo num edifício que concentre tudo o que se expande no teatro.” Os ciclos ajudam-no a permanecer nesse circuito sem saída – “na poesia não há possibilidades de saída, ao passo que no teatro há imensas saídas”. Qual o papel da prosa ficcional, neste “triângulo” (expressão sua) dos géneros? O de “uma espécie de reflexão no meio, em que a personagem tenta perceber onde está no mundo, e em que mundo está. Na poesia e no teatro, não me interessa perceber. Não me interessa que se perceba. Na ficção procuro criar um lugar para a reflexão sobre a sua própria natureza. A prosa é um texto mais existencial, mais filosófico”.

Nazaré, palco trágico

O seu mais recente livro, Escola de Náufragos, esteve para se chamar A Cama dos Mortos. Esse leito para a morte, há que procurá-lo nas páginas desta novela, que Jaime Rocha submeteu a uma operação de corte e concisão. Até obter o que lhe pareceu ser o ideal de síntese e ambiguidade, que situa a narrativa nesse plano que conhecemos da sua prosa e da sua poesia, em que os medos vagueiam juntamente com o erotismo, em que a pele passa muito perto de superfícies cortantes e em que se atravessam territórios arriscados. Em que os sentidos, enfim, são levados a exercitarem com entrega o seu poder de atenção e resistência. O autor pretendeu dar à sua novela, após um pousio de cerca de um ano, ao longo de 2015, uma dimensão e uma expressividadade que concedessem lugar a uma história de crescimento e de tensões profundíssimas, entre a obediência a chamamentos que vêm dos abismos do passado e a liberdade de um “eu” em formação e em luta contra tudo e todos.

Mateus é um jovem nascido no seio de uma tragédia que, mais do que estar prestes a acontecer, paira como uma atmosfera, um céu carregado de nuvens que formam uma ameaça permanente, inescapável. “Este livro é uma aprendizagem para a tragédia”, resume o autor. “A criança nasce dentro desta dinâmica de tragédia. Nasce para sobreviver, para lutar contra o mar e morrer no mar.” A sua luta será contra o peso incalculável da tradição familiar. Este não é apenas um dado cultural, etnográfico. Pelo contrário, na escrita de Jaime Rocha, eleva-se a uma dimensão trágica. A força do destino, o desafio a ordens que transcendem o plano terreno, fazem destas personagens e dos seus percursos uma transposição do legado da tragédia grega. Não por acaso, Jaime Rocha compôs duas peças de matriz helénica: Agamémmnon – A Herança das Sombras (Fluir Perene, 2012) e Filoctetes – A Condição do Guerreiro (idem), a que se há-de seguir a tragédia consagrada a Aquiles que encerrará a “Trilogia da Guerra”.
Mateus sente, literalmente, a diferença na pele: “O facto de ele ter a mancha negra é um sinal para que faça uma ruptura. Para criar nele a sua própria saída contra este destino: a morte, o naufrágio, o luto. Esta incapacidade que o homem tem de contrariar o destino. O mal, por um lado, tem este lado abstracto, de que eu gosto, porque é algo que não se pode agarrar; mas, por outro, é uma coisa que se sabe.” É a força do destino, que forjava os caminhos de queda e destruição dos heróis da tragédia ática e que as personagens de J. Rocha replicam com notável dignidade composicional.

Transposta para a vila da Nazaré, o trágico adquire uma coloração simultaneamente reconhecível e estranhável. O peso do destino, medido contra a dimensão ínfima dos mortais, não renega uma estruturação epocal, situável na década de 50 e 60 do século passado. Mateus move-se num universo reconstituído de memória, o da pequena vila piscatória com a sua esquadria social, que a sala de aula estranhamente repete. Tanto a que Jaime (re)cria em Escola de Náufragos, como aquela que descreve, ao rememorar o seu passado. “Filho da pequena burguesia”, Jaime Rocha beneficiava de uma localização a meio do organograma da sala de aula. “À frente, o filho do doutor, do engenheiro, depois o do armador. Depois os pequenos comerciantes”. Uma escala de valores assentes nas clivagens sociais, que a novela repercute e inscreve no seu discurso. “Eu estava ao lado do filho do carteiro e, a certa altura, estive ao lado de uma criança cujo pai tinha um café”. “O Samuel estava a meio e era uma espécie de escravo.” Curiosamente, Jaime Rocha comete aqui um lapso e, ao referir António, o seu colega de sala de aula vindo de Angola, utiliza o nome que lhe deu em Escola de Náufragos. Apesar das transcriações, as realidades históricas de discriminação e subtil (e nada subtil) opressão são factuais.

A Nazaré constitui um local emblemático do percurso de escrita de Jaime Rocha, em títulos tão distintos como Mulher Inclinada com Cântaro (Volta d’Mar, 2012), mas também numa novela publicada há mais de trinta anos, Tonho e as Almas (Relógio D’Água, 1984). “Estes trinta anos de pausa [entre Tonho e as Almas e Escola de Náufragos] permitiram-me distanciar totalmente, friamente. Tirar as emoções em relação à minha infância, para poder libertar-me disso tudo, porque acho que não é bom para a literatura.” E Jaime Rocha volta a traçar os limites e as confluências dos géneros: “As emoções, para mim, são boas para o teatro; não as quero pôr na poesia, nem na prosa. Deixo as emoções para as personagens do teatro.” Quando compara a novela de 2016 com a que publicou na década de 80, afirma: “Este distanciamento permitiu-me ser muito frio para com esta criança, mesmo sabendo que ele vai caminhar por um terreno instável e pantanoso, que eu próprio, enquanto criança, vivi e que é a rua, o mar, a areia, as ondas, o perigo. O medo. Das almas do outro mundo, da morte. Os pescadores têm uma relação muito próxima com os seus mortos. Os seus mortos são amigos, porque morreram a lutar pela sobrevência dos vivos. E isso permite uma relação de diálogo com os mortos.” São eles que falam, em diálogo interno, fantasmagórico, com as personagens intervenientes. Há, por exemplo, um tio suicida na novela, que forma também uma das memórias mais antigas do autor, e que marcou o seu imaginário, repassando em traços carregados um cenário de dor profunda e impressiva na criança que era. As mulheres de luto, o choro, os gritos à beira-mar, passaram da recordação de Jaime Rocha para este livro.

A exteriorização da dor, a vivência repisada, obsessiva, do sofrimento leva Jaime Rocha a procurar de novo as zonas em que os géneros se tocam e comunicam fulgores combinados ao texto. “Os capítulos podem ser vistos como cenas, e as vozes dos mortos são como deixas que vão passando uma sabedoria ancestral.” Como uma escola a que Jaime Rocha opõe a escola primária, a oficial: “do sistema, repressiva, autoritária, onde há o racismo”.

“Estas comunidades onde há um forte sentido de tragédia”, diz-nos o autor, “equilibram-se com festas, na Páscoa, no Carnaval, onde criam pequenos teatros de sarcasmo e ironia social, de catarse, reproduzindo pela comédia o que é vivido pela tragédia”.

Lutar contra uma sombra

“Dei a esta criança um mecanismo interior de revolta contra tudo e contra todos. Até contra os animais. E tudo isso é muito infantil. É muito humano. A tortura dos animais, as lutas dos jovens. A caça. Isso também eu vivi. A caça aos gatos. Era uma coisa muito de gangue. Temos de situar este jovem nos anos 50 e 60 e na ausência, ainda, de televisão. A ausência de interiores, de máquinas. A ausência de interior.” Uma vida violenta, para sobreviver, para poder manter-se de pé, que Jaime Rocha relembra com invulgar nitidez, transpô-la ele para a ficção com as reinvenções de que só a oficina do artista pode permitir vislumbres. “A vida das crianças nesta altura era uma vida de rua. E sendo uma vida de rua, era uma vida de jogo e de luta permanente. Uma luta de sobrevivencia.” É como se Mateus lutasse contra sombras. Escuras, persistentes, atentatórias contra a posição do jovem, mas inimigos impalpáveis, inatacáveis. É assim combater o destino. Lutar contra um escuro pousado sobre muros.

“O Mateus está a crescer, mas já a destacar-se. O que o destaca é a mancha [que tem na pele]. No sentido de ser diferente. É uma mensagem que os velhos lobos do mar tentam dar aos seus netos, aos seus filhos: tu és diferente. Ou porque és mais forte e vais ao mar e conquistarás o mar, porque és um herói. Ou és diferente porque não irás ao mar. Há aqui dois caminhos, e o caminho do Mateus é o de ir contra o mar, que é isso que já vem no meu imaginário desde o Tonho e as Almas. O Tonho decide não ir ao mar, mas aí é uma decisão, porque é um adulto. Aqui, o Mateus é uma criança, ainda está a construiur o seu edifício. Mas ele vive numa família disfuncional. Não no sentido patológico ou no sentido que se dá hoje, mas porque é uma família que vive já com a morte. A morte é uma figura.”

A pergunta poderia ser: “O que é o mal?”. Mal que Jaime Rocha tematizou na sua “Trilogia do Mal”, constituída por A Loucura Branca (Relógio D’Água, 3.ª ed., 2014) Anotação do Mal (Sextante, 2007), A Rapariga sem Carne (Relógio D’Água, 2012). “O mal é a marca do destino, a marca com que esta criança nasce. A criança nasce com uma marca, a mancha negra e a do braço.” O autor especifica, ainda: “O mal no sentido da morte. Da morte como sobrevivência. No sentido do destino. Ele nasce para ser náufrago.”

“O Mateus, a figura que simboliza todos os pescadores, sabe que, ou morre no mar, ou encontra uma saída. É preciso dotar essa criança de mecanismos, de armas, para contrariar esse destino. A sabedoria dos velhos passa-lhe um testemunho no sentido de que ele não pode continuar aquele destino de morte.” Em constante exercício de separar as águas, mas também de permitir que elas se encontrem quando assim deve ser, o escritor explica-nos o tipo de relação que pode descrever entre a sua narração e o que constitui passado recordado. “Eu também o senti [o peso do destino do mar]. A linha da minha mãe, a linha Rocha, é uma família de pescadores. Senti também essa coisa grega do destino. Com tudo o que nós façamos para fugir ao destino, seremos agarrados mais à frente.”

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A realidade que parece desprender-se da trama – muito embora o fantástico seja presença vincada, com relatos de assombrações, contos de lobisomens e outras ocorrências do sobrenatural – é analisada por Jaime Rocha muito claramente: “Nada disto pode ser considerado documental, mas muitas daquelas coisas foram vividas por mim. Além da peregrinação. Há ali uma peregrinação interior, do Mateus, com a violência em relação aos objectos, a violência em relação aos animais, às pessoas todas, aquela zanga, o ódio, de alguém que está naquele ambiente como um náufrago, naquele sítio onde existe o mal. Ele já nasce como um náufrago.”

Os lugares do texto reconhecidos pelo autor

De um conjunto de vivências trazidas à memória e aí filtradas, escolhidas e trabalhadas pela imaginação, efabuladas a partir da secura dos factos, criou Jaime Rocha uma novela iniciática sobre a morte e os mistérios do corpo – “Os lugares do texto são reconhecidos pelo autor”, afirma o autor. “A memória reconstitui-se a partir de acontecimentos reais, como a queda do hidroavião.” Os acontecimentos e as personagens “são reconstruídos para Mateus enquanto actor deste texto. Ele movimenta-se nesse lugar que o autor conhece e que vai salpicando com vivências que teve.” Como Jaime Rocha explica, os lugares são apresentados na novela sem emoções; a atitude de Mateus perante aquilo que enfrenta, retoma esse entendimento. “Mostrar. O Mateus mostra, como se fosse numa visita guiada. Ele não imagina que a rapariga pudesse ter ido ao ferro-velho vender peles de coelho, como eu também fiz, ou vender jornais aos velhos, ou ossos. O ferro-velho era vizinho, eu vivia ao pé. Mas era uma casa. Era um barracão enorme, cheio de… tralha. E tinha aquele cheiro entranhado. Antes de chegar, uns dez metros, já vinha aquele cheiro a mofo. E isso marcou-me.”

Não deixa de ser uma experiência estranha, ser guiado pelo autor por caminhos onde a ficção e a história pessoal trocam constantemente de lugar. Porque foi possível a Jaime Rocha recriar um tempo e um espaço sem transformá-los num plano demasiado rígido. A proximidade do real apenas dota a narração de uma força evocativa mais intensa, não encaminha a leitura com um espírito demasiadamente documentarista.

“O meu avô paterno, que era barbeiro, voltou para a Nazaré, quando eu tinha saído para estudar em Lisboa, no Liceu Gil Vicente. Esse meu avô ocupou a minha cama, e morreu nesssa cama. Sempre que voltei à Nazaré, era essa a minha cama, era aí que eu dormia.” A cama dos mortos. “Esta ideia da cama dos mortos, de que eu gosto do ponto de vista literário, porque o mar também é a cama dos mortos. Também o pai do Mateus volta da pesca do bacalhau para morrer naquela cama.”

Corpo alheio, corpo próprio, obra aberta

“Este livro acaba de forma aberta, com o Mateus adolescente, mas já com a descoberta do outro. O seu próprio corpo e o do outro. No caso, da Maria Noé. Acaba com o corpo, portanto, com a sensualidade, o erotismo.” O reconhecimento do corpo do outro é um percurso de solidão, mesmo quando já se faz a dois. Mateus luta contra os seus demónios, mesmo quando descobre o plano erótico, ainda em esboço. “Só mais tarde é que me apercebi”, lembra-se Jaime Rocha, “já o livro tinha sido editado, de que a descoberta do erotismo se deu dentro da câmara frigorífica. No frio, no gelo. O que eu pensei na altura foi no desejo de Mateus de mostrar à Maria Noé o seu universo mitológico: o ferro-velho, o monte, o posto do leite.” Mas a força dos efeitos provocados é notável, no contraste entre o gelo e o calor do corpo de Maria que, por acidente, fica despido.

“A descoberta do corpo é uma saída em aberto. Presumivelmente, eles vão-se casar. As famílias de pescadores casavam-se cedo, com 17, 18 anos, o que significa que esta saída é também uma saída para a tragédia. Porquê? Porque eles irão ter filhos, e o Mateus, para sustentar os flhos, terá de ir para o mar. Mesmo que o Mateus fuja, tem sempre essa cama, que é a cama dos mortos. E dessa ele não pode fugir. E é aí que o destino o agarra… o agarrará.” Trata-se, enfim, de cumprir o destino. Mas não sabemos que destino vai ser esse, porque o autor não o conhece ainda. “O Mateus vai encontrar novamente o mar. Poderá ser o náufrago. E o livro fica nesta plataforma sem fim, em aberto para o Mateus adulto.”