Os Air em versão sexy boys

Na altura em que lançam uma antologia de revisão de carreira os franceses vêm ao Porto tocar as suas canções mais emblemáticas. Num concerto onde dizem esperar que o público possa sentir uma grande vibração amorosa.

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Air - Sábado, 22h30

Os franceses Air andam por estes dias a celebrar vinte anos de carreira. Lançaram a antologia Twenty Years, contendo sucessos (Cherry Blossom Girl, Sexy boy, All i need, Don’t be light ou How does it feel), raridades (colaborações com Charlotte Gainsbourg, Jarvis Cocker ou Françoise Hardy) ou remisturas (David Bowie, Beck ou Depeche Mode), ao mesmo tempo que andam em digressão pelos principais festivais da Europa.

No sábado subirão ao palco principal do Nos Primavera Sound no Porto. Há uma semana actuaram no congénere de Barcelona. Foi aí que fomos encontrar Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin, desejando saber informações sobre Lisboa – “estamos a pensar seriamente mudar-nos para lá e deixar Paris”, avançou às tantas Jean-Benoit – e conversar em torno de um percurso pautado por álbuns como Moon Safari (1998), The Virgin Suicides (2000), 10 000Hz Legend (2001), Talkie Walkie (2004), Pocket Symphony (2007) ou Love 2 (2009), obras onde foram capazes de expor uma música de ambientes cósmicos, atmosferas fantasistas e sonhadoras canções pop electrónicas.

Estão a celebrar 20 anos. Quando começaram tinham claro que a vossa vida se desenrolaria à volta dos Air ou foi algo que se foi impondo com o tempo?
Jean-Benoit Dunckel – Aos vinte anos não se pensa muito. Mas diria que, sim, existia essa vontade, embora não fosse claro. Talvez por isso, depois de todo este tempo, ainda me surpreendo por estarmos aqui. Desejávamos fazer música o resto da vida, mas não imaginávamos que os Air iriam durar tanto tempo. Quando começámos se nos dissessem que aos 47 anos ainda iríamos estar envolvidos no projecto responderia que estavam loucos. Nessa fase pensa-se sempre que este tipo de vida não encaixa com a idade. Era grande fã de David Bowie e revia-me naquele processo de ele estar sempre a reinventar-se. Para mim era como se estivesse sempre a rejuvenescer. O rock era qualquer coisa de eternamente jovem.

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Jean-Benoit Dunckel

Não lhe parece que essa ideia de que a cultura pop é feita pelos jovens, para os jovens e é sobre isso do que é ser jovem, se tornou datada? Hoje em dia esse conceito está dissolvido.
J.B. – É totalmente verdade. É uma visão romanceada. Mas a verdade é que a indústria da música em geral continua a achar que o seu público consumidor potencial são os jovens. É um pouco absurdo. Tudo é feito em seu nome, o que é estranho porque depois a realidade é bem mais complexa. No fim de contas quando nos desligamos da lógica do mercado e pensamos apenas na música nada disso interessa. Quero é continuar a fazer música que faça sentido e espero que do lado de lá existam pessoas com vontade de a ouvir, independentemente da minha e da idade delas.

Para muita gente o álbum mais marcante que lançaram foi o primeiro Moon Safari (2008), talvez porque definiram logo a vossa identidade sonora. Nos álbuns posteriores acabaram por inspirar-se nessa matriz inicial ou tentaram superá-la?
J.B. – Um pouco das duas coisas. Foi um álbum determinante na nossa carreira quanto a isso não existem dúvidas. É como se fosse o nosso manifesto. Foi a forma de nos apresentarmos ao mundo. É talvez o disco mais pensado que alguma vez fizemos no sentido em que resultou de intensos três anos de trabalho. E antes já tinha existido todo um trabalho ao nível da produção. Para não dizer que antes tivemos toda uma vida a prepará-lo. Comecei a tocar piano aos quatro anos. Aos cinco já fazia canções. Estudei música clássica, fiz o conservatório, integrei vários projectos e o Nicolas tem um percurso muito análogo. Nesse sentido olhamos para esse álbum não tanto como a nossa estreia, mas como o disco que resultou de um longo percurso anterior. Os álbuns que se seguiram acabaram por funcionar tanto como  continuação como reacção a ele. Como os grupos que gostam mesmo de desafiar-se não queremos repetir-nos, mas é inevitável haver pontos de ligação.

Lançaram esse álbum num contexto preciso, fazendo parte daquela que foi a primeira geração de músicos franceses a afirmar-se globalmente. Antes tinham existido alguns casos isolados, mas a partir daí, dos Daft Punk aos Phoenix, a atenção genérica sobre o que se passava em França intensificou-se.
J.B. – Sim, esse reconhecimento internacional foi muito importante. Diria mesmo que foi isso – a atenção da imprensa inglesa ou americana – que nos permitiu afirmarmo-nos de maneira mais rápida também em França. Claro que não fomos os primeiros franceses a consegui-lo, mas de uma forma colectiva, ainda que espontânea, nunca tinha acontecido daquela maneira. O que é curioso no nosso caso é que do ponto de vista da música tínhamos pouco a ver com essa cena electro-house personificada pelos Daft Punk. Mas beneficiámos dela. É como se aplicássemos os mesmos princípios à nossa música mas os resultados fossem diferentes, talvez porque éramos músicos no sentido mais clássico do termo e ao mesmo tempo apetecia-nos fazer canções mais lentas e sonhadoras. Com os Daft Punk sempre tivemos uma grande cumplicidade. Não era apenas a música, ou a forma como ela era feita, era também todos os aspectos da indústria da música: as pequenas editoras, como produzir um disco, como reagir aos aspectos do negócio, enfim, esse tipo de coisas. Quando olho para trás percebo que aprendemos muito uns com os outros.

Não deve ter sido fácil encontrar o modelo certo para exporem a vossa música. Não eram DJs, nem tinham música para apresentar na pista de dança, mas também não correspondiam ao grupo rock com canções energéticas. Mas adaptaram-se porque hoje são cabeças-de-cartaz de festivais.
J.B. – Adaptar é a palavra certa. Não foi nada fácil encontrar uma forma de apresentar a nossa música em que nos sentíssemos confortáveis. Só agora nos sentimos totalmente à vontade. Em parte isso tem a ver com as nossas vozes. Nem eu, nem Nicolas, nos sentimos confortáveis com elas. Não tenho uma explicação muito plausível mas é a verdade. Agora sentimos a coisa de forma mais natural talvez porque conhecemos as canções muito bem. Mas durante anos foi um problema. Na altura de Moon Safari pensámos mesmo que seria impossível levar aquelas canções para palco. As primeiras experiências foram terríveis. Tudo parecia errado. Tínhamos até vergonha. Víamos outras bandas a cometer erros incríveis, mas como tinham música rápida e barulhenta ninguém parecia dar por nada. A nossa música é espaçosa, qualquer pequeno erro é amplificado. E não era só isso. Receávamos que as pessoas ao ouvirem a nossa música achassem tudo aquilo meio chato. Felizmente com tempo, e com trabalho, acabámos por perceber que há outras maneiras de expor a música e que existe muito público que aceita o que fazes sem problemas.

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Foi difícil criar o alinhamento para a antologia e para estes concertos onde pretendem passar em revista a vossa carreira?
J.B. – Não. O critério foi seleccionar as canções mais sexy...[risos]. Queremos um concerto que permita a toda a gente sentir-se sexy. Desejamos que a música em palco seja algo psicadélica, tocando as faixas mais fortes dos Air, com três ou quatro canções de cada álbum, para que as pessoas possam sentir uma grande vibração amorosa, qualquer coisa de erótico que as ajude a sentirem-se bem...[risos]. Acreditamos que a música deve ter qualquer coisa de medicinal.

Há pouco dizia que David Bowie era um dos seus heróis. Ele era uma figura icónica, mas ainda assim não deixou de ser surpreendente a comoção global que a sua morte provocou. A música faz parte da vida das pessoas, marca-as, acompanha-as, e no entanto, passamos o tempo a relativizar o seu papel. Depois alguém morre e parece que despertamos para a sua relevância.
J.B. – Sim, é estranho. Só na morte de alguém é que parecemos perceber a importância da música. A música faz parte da nossa vida de uma forma muito mais determinante do que estamos preparados para aceitar. Era um grande fã de Bowie. Na adolescência passava os dias e as noites a ouvir a sua música. Era o número um. Fiquei muito triste pela sua morte. Foi como se tivesse morrido alguém que me era próximo e que eu conhecia bem. Ao mesmo tempo senti-me um pouco em pânico. Sei que é estranho dizer isto, mas é como se fosse uma espécie de pai musical, alguém que tinha uma visão lúcida sobre o panorama musical e nesse sentido funcionava como grande referência. Era um farol, não só em termos artísticos, mas também na forma como se relacionava com o negócio da música, lutando contra um sistema industrial que nem sempre nos protege. Era um artista no sentido mais puro da expressão. 

Foi também um dos primeiros músicos a ter a percepção que a internet iria transformar a forma como olhamos para a música, em quase todas as suas dimensões. Ao longo destes anos passaram por todas essas transições, como é que as encaram?
Nicolas Godin – Há coisas boas e más, como é evidente. Para um grupo como os Air as coisas pioraram. Para quem está a começar talvez tenham melhorado. Há imensos ângulos por onde analisar a questão. Quando o sistema muda, toda a gente tende a ganhar dinheiro menos os artistas. Estão na última posição da cadeia. Toda a gente nos diz que, agora, com a internet, as coisas mudaram e não há dinheiro como antes, por isso temos que nos adaptar. Mas não é verdade. Claro que há dinheiro. A distribuição do mesmo é que é diferente. O que nos deviam dizer era: com a internet as coisas mudaram, mas continua a haver muito dinheiro, mas não para vocês...[risos]. Essa é a realidade. É pena que os seres humanos sejam explorados ou manipulados desta forma por forças poderosas. Os artistas não percebem que a força são eles. A sua desunião é desastrosa e os gigantes da internet que se estão nas tintas para os artistas, nivelando tudo por baixo, agradecem. Mas claro que a internet, com a informação que disponibiliza, tem também coisas fantásticas, permitindo uma importante comunicação em rede. Os festivais, por exemplo, paradoxalmente, acabaram por beneficiar com a internet. Talvez como reacção, na actualidade, as pessoas têm mais apetência pela música ao vivo.

Este modelo de festival tornou-se corrente, com dezenas de bandas tocando durante dois ou três dias. Neste em particular actua Brian Wilson, outra das vossas referências. Costumam assistir a outros concertos quando estão em festivais?
N.G. – Sim. Nunca vi Brian Wilson ao vivo, apenas algumas coisas no YouTube. Aqui, em Barcelona, queremos ver as Savages e os Tame Impala. Gosto da ideia de muita gente poder ver-nos num festival e nem sequer nos conhecer e poder ser surpreendido. Por outro lado, musicalmente, nem tudo funciona num contexto tão grande como estes. Nesse sentido prefiro concertos em salas não muito grandes, permitem uma gama de hipóteses maior, ao nível do som, da cenografia e da relação que se estabelece com o público. Mas este tipo de eventos são imprescindíveis hoje. Até pela internet. As pessoas vêm aqui, tentam ter uma boa experiencia, mas ao mesmo tempo estão sempre conectadas, pondo fotos e comentando ao mesmo tempo. No início os festivais assustavam-nos, agora sentimo-nos bem. O som é sempre um dos principais problemas. Não é fácil ter um bom som num festival.

Nos últimos tempos bandas como os Tame Impala, que assumem que os Air são das suas bandas preferidas, insuflaram nova vitalidade na memória do psicadelismo que é qualquer coisa que também esteve sempre presente na vossa música.
N.G. – É verdade, embora a nossa abordagem ao psicadelismo não seja tão pop-rock como no caso dos Tame Impala, de quem também gostamos. O que acaba por ser estranho em todas essas vagas na actualidade é que existe uma grande vontade de fazer como o parceiro do lado. Os Tame Impala são bons mas existe muita coisa desinteressante ao lado. É estranho. Existe uma grande formatação, o que não faz grande sentido. Quando se começa uma banda deseja ser-se diferente e não se quer ter um emprego no sentido tradicional. Mas hoje para muitos músicos parece funcionar apenas como um emprego. Essa ausência de mistério é nocivo para a música.

O facto de estarem a celebrar a vossa carreira, e de nos últimos tempos terem lançado projectos paralelos, significa que não haverá material novo dos Air para os próximos tempos?
N.G. – Não está nada previsto, mas tudo pode acontecer. A música que eu quero fazer neste momento é diferente daquela que ele tem feito e temos ambos outros projectos ligados à arte ou ao cinema, mas nunca se sabe. Gostamos de desafiarmo-nos a nós próprios fazendo outras coisas, mas há momentos também em que temos necessidade de nos juntarmos, por isso está tudo em aberto.

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