Editorial

Missão impossível?

A alternativa à direita, cá fora e lá dentro, é a grande preocupação de Costa.

Se alguém pensava que António Costa ia jogar à defesa no que à "geringonça" diz respeito, enganou-se, como o próprio tratou de o demonstrar durante o congresso. Não foi por acaso que fez questão de confirmar o apreço que tem pelos partidos que tiveram a “lucidez, coragem e determinação” de subscrever os acordos que sustentam o Governo minoritário do PS e de sublinhar a “forma leal e construtiva” como têm contribuído para “ultrapassar divergências”. E não é uma mera questão de cortesia que está em causa. Pelo contrário, a fórmula politicamente criativa, mas irrepreensível do ponto de vista democrático, que Costa encontrou para construir uma maioria parlamentar que lhe permita governar – “todos os dias bebemos a legitimidade para o exercício da acção governativa da fonte, que é a Assembleia da República”, disse ele no seu primeiro discurso – é a tradução prática de uma espécie de missão que ele próprio se impôs, cá dentro e lá fora: provar que em democracia há sempre alternativas. O que não é coisa pouca numa realidade política europeia capaz de gerar um acrónimo que, a ser levado à letra, surge como um imperativo categórico por definição muito redutor das boas práticas democráticas: o famoso T.I.N.A. (There Is No Alternative).

Logo na intervenção inicial esta ideia esteve bem presente, quando Costa devolveu aos críticos os recados com que o foram zurzindo em vésperas de congresso por causa dos acordos com o BE, PCP e Verdes, acusando-o, com maior ou menor ênfase, de estar “refém” dos partidos da “esquerda radical”. Ainda Francisco Assis não tinha subido à tribuna, desgostoso desta “aliança contranatura” que coloca o Governo “em situação muito condicionada ”, e já Costa antecipava que não valia a pena escamotear a clivagem ideológica. “Aceitamos que a direita governe, mas não aceitamos que quando ela não tem maioria o PS lhe dê o bocadinho que lhe falta”, disse. Ou seja, imputou aos críticos o ónus de preferirem ter o PS como muleta de uma solução que não controlam, em vez de o partido assumir o papel que lhe cumpre “na sua missão histórica em Portugal, que é reconhecer que há alternativa à direita”. Não há dúvidas, no PS há divergências sérias sobre a política de alianças, ainda que (de momento?) esses sectores sejam residuais.

Quem anda na política desde os 14 anos sabe como são voláteis os momentos de consagração. E António Costa conhece muito bem os sabores da vitória e da derrota. Por isso, não ignora que o sucesso cá dentro depende, em grande medida, dos humores da Europa. Uma União Europeia cada vez mais desigual e mais autista face à sua própria diversidade, cujas contradições não escaparam à análise crítica de alguns congressistas, incomodados com essa Europa onde não se toleram alternativas. Ora, se Costa disse, preto no branco, que nada se faz fora do quadro da União, também endossou aos socialistas europeus a missão de “dizer 'basta' a esta deriva neoliberal”, porque é “afirmando uma alternativa que nós defendemos a Europa”. Veremos se o ouvem.   

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