Morreu Carmen Pereira, combatente pela independência da Guiné-Bissau

A ex-guerrilheira, que em 1984 se tornou na primeira mulher Presidente de um país africano, morreu aos 79 anos.

Amílcar Cabral com Carmen Pereira
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Amílcar Cabral com Carmen Pereira

“Temos que ir à frente para mostrar aos homens que nós também somos capazes”, chegou a dizer Carmen Pereira, uma figura histórica da luta pela independência da Guiné-Bissau. Durante três dias em 1984 tornou-se na primeira mulher a tornar-se Presidente de um país africano.

Morreu sábado, aos 79 anos, na sua casa, de acordo com a agência Lusa, que cita fontes do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Apesar de estar já envolvida na luta pela libertação da Guiné-Bissau, a entrada de Carmen Pereira no movimento independentista acontece em 1961, pouco depois de o marido ter sido obrigado a abandonar o país por ser perseguido pela PIDE.

A sua ascensão no seio do PAIGC é promovida pelo próprio líder histórico da revolução, Amílcar Cabral, que a partir de 1966 inicia a mobilização das mulheres da Guiné-Bissau e de Cabo Verde para o movimento de guerrilha. Para além de Carmen Pereira, outras mulheres que se evidenciaram no movimento revolucionário foram Teodora Gomes, Francisca Pereira e Titina Silla, assassinada numa emboscada realizada por militares portugueses em 1973, quando regressava do funeral de Amílcar Cabral.

Em 2013, em conversa com o PÚBLICO, a antiga combatente recordava os tempos do conflito armado, em que chegou a comandante e comissária política da Frente Sul, a mais decisiva da guerrilha para a vitória do PAIGC na guerra. "Preferia morrer a ser levada pelas tropas portuguesas", contava Carmen Pereira.

O general António Spínola, na altura governador português da Guiné, tinha escolhido dois alvos preferenciais para abater: Nino Vieira e Carmen Pereira. "Ele combateu contra nós mas foi derrotado”, dizia a ex-combatente recentemente.

Numa entrevista de 2014 à Deutsche Welle, Carmen Pereira recorda um ataque com fósforo branco a uma aldeia. “Atacaram uma tabanca por volta das seis horas, seis e meia da tarde, quando as pessoas voltavam às suas casas. Aquilo é um caso terrível de ver: a pessoa ali, deitada, a gritar. Pareciam pirilampos porque aquilo penetra até os ossos, deixando uma queimadura.”

A certa altura, Carmen teve de abandonar a Guiné-Bissau, passando uma temporada no Senegal e depois na União Soviética, onde estudou Medicina.

Durante o seu percurso, ocupou vários cargos políticos, entre eles a presidência da Assembleia Nacional Popular, em 1980 e em 1984. Nesse ano assumiu também a presidência da Guiné-Bissau, durante três dias, tornando-se na primeira Presidente de um país africano, na altura em que a nova Constituição foi aprovada.

Entre 1975 e 1980 foi presidente do Parlamento de Cabo Verde e da Guiné-Bissau e em Governos posteriores assumiu as pastas da Saúde (1981-83) e dos Assuntos Sociais (1990-91).

Carmen Pereira esteve no sábado no Palácio do Governo, numa acção de solidariedade para com o Governo demitido a 12 de Maio pelo Presidente, José Mário Vaz. Acabou por morrer poucas horas depois na sua casa na sequência de uma indisposição súbita, segundo a Lusa.

Nos últimos tempos, a Guiné-Bissau tem estado mergulhada em crises políticas sucessivas, originadas por lutas internas no PAIGC. Apesar de deter a maioria dos lugares no Parlamento, o partido não consegue entender-se para formar um executivo estável e está em guerra aberta com o Presidente.

Numa outra ocasião, a ex-Presidente reflectia sobre o momento actual do seu país, numa conversa com o PÚBLICO em Bissau. Apesar de não se querer pronunciar em relação ao falhanço do projecto de Amílcar Cabral, dizia que antes "os militares submetiam-se ao Governo, agora é o Governo que se submete aos militares".