SIC não se revê em comentário feito por taróloga

Colaboradora de programa A Vida nas Cartas – O Dilema que recomendou paciência a suposta vítima de violência doméstica pediu desculpa.

A SIC manifestou nesta sexta-feira o seu desagrado ante as declarações de uma taróloga que na quinta-feira de manhã aconselhou uma suposta vítima de violência doméstica a mimar o marido. O canal emitiu um comunicado a dizer que “não se revê no comentário feito pela colaboradora do programa A Vida nas Cartas – O Dilema. E ela pediu desculpa em directo.

“A SIC condena veementemente qualquer acto de violência e sempre contribuiu para a discussão e esclarecimento sobre este problema social nos seus espaços informativos e na sua ficção”, lê-se na nota enviada às redacções. “Também os programas de daytime tratam deste tema com a maior seriedade” e “respeito”, prossegue. “O exemplo mais actual é o programa E se Fosse Consigo? que, como já anteriormente anunciado, abordará o tema da violência doméstica, na próxima segunda-feira.”

O comunicado da SIC surge na sequência de uma onda de indignação que se propagou pelas redes sociais. Inúmeras pessoas anunciaram que se iam queixar e incentivaram outras pessoas a fazer queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

Uma espectadora, identificada como Maria Glória, telefonou na expectativa de a taróloga Carla Duarte lhe dizer qual o seu actual estado de saúde e se o seu marido tem outra. A mulher, de 64 anos, dizia-se assustada com a possibilidade de ter um tumor maligno, como já aconteceu a vários membros da família, e o comportamento do marido não ajuda. “Ando muito nervosa derivado ao meu marido. Há 40 anos que eu sofro de violação doméstica, como é que se diz isso?”, perguntou. “Violência”, auxiliou a taróloga. “Ele bate-me, ele faz…”

Carla Duarte não quis ouvir mais. Estava na hora de dizer qual o número para o qual os espectadores podiam ligar para lhe colocar dois dilemas. Quando retomou a conversa com Maria da Glória, deitou as cartas, disse-lhe que, apesar dos antecedentes familiares, nada tinha, que fosse fazendo exames periódicos. Sobre a relação conjugal aconselhou-a a pensar no que podia fazer. “O que interessa se ele tem alguém ou não, mediante o que você tem em casa? Para já, ele não tem ninguém. Está aqui sozinho. Ah, ele quer uma mãe, não quer uma mulher.”

A taróloga recomendou então paciência à espectadora. Aconselhou-a a não discutir, a não procurar conflito. “Não está aqui nenhuma separação, por isso você escolheu este homem, independentemente de tudo, por enquanto é com ele que vai ficar”, declarou. “Quando damos amor, recebemos amor, mesmo que seja em menos quantidade. Se damos violência, recebemos violência. Se você recebe violência, corte este ciclo e não dê violência, nem que seja por palavras ou… mime-o. Por muito difícil que isso seja, por muito difícil que isso seja. Está bem?”

Ainda se ouviu Maria da Glória dizer: “É muito difícil, sim. Tenho de andar sempre à frente, a fazer as pazes.” E Carla Duarte a retorquir: “Pois tem. Como se fosse a mãe. E continue, que é para isto não piorar. E assim não piora. Está bem? Você conhece-o bem, sabe como é que lhe pode dar mimo.”

“Os meios de comunicação social têm sido essenciais na divulgação de informação a vítimas de crime, em particular a vítimas de violência doméstica”, ressalvou Daniel Cotrim, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, numa conversa por telefone. Programas como aquele são vistos por muitas pessoas, algumas vítimas de violência doméstica. Seria fundamental, disse, não culpabilizar a vítima e não desculpabilizar o agressor.

"A propagação de um discurso de culpabilização das vítimas e de desresponsabilização dos agressores não só acentua a vulnerabilidade das primeiras, como as coloca numa posição de risco acrescido", defendeu, em comunicado, a Associação Plano I. "Insinuar que na génese da violência na intimidade está o comportamento das vítimas, isto é, que são elas a causa da vitimação que sofrem e, mais do que isso, que lhes compete agir no sentido da manutenção das relações abusivas, cuidando dos agressores como filhos, contribui para a sustentação de um clima de impunidade e de legitimação dos agressores francamente lesivo dos direitos das vítimas."

Violência doméstica é crime público

A violência doméstica é um crime público, o que quer dizer que não depende da queixa da vítima. Os espectadores não terão dados para levar aquele caso às autoridades. Podem, lembrou Daniel Cotrim, manifestar indignação à produtora, à direcção de programas ou à ERC. “Isto não pode acontecer. Enquanto membro de uma organização de apoio à vítima, estou indignado.”

A Associação Projecto Criar ponderava pedir responsabilidades à SIC. “A taróloga não sabe o grau de violência”, salientou Leonor Valente Monteiro, presidente daquela organização. “Aconselhar a senhora a nem sequer recorrer às autoridades pode ser fatal.” No seu entender, “deveria haver um manual de boas práticas para este tipo de situações”. “Se uma pessoa contacta um canal de televisão a pedir aconselhamento e denuncia um crime, deve ser aconselhada a recorrer aos canais disponíveis para as vítimas", considera. "As pessoas que têm acesso a espaços televisivos, em particular espaços de aconselhamento pessoal, deveriam abster-se de ter discursos cúmplices com crimes públicos.”

Na opinião daquela jurista, a atitude da taróloga reflecte o país. “Vivemos numa sociedade que silencia as vítimas e que coloca o foco no comportamento delas e não no comportamento dos agressores. Uma sociedade assente na crença do amor romântico que tudo resolve, que tudo consegue.”

O PÚBLICO ainda não obteve qualquer comentário de Carla Duarte. De acordo com a SIC, esta sexta-feira iria ao programa Grande Tarde, no qual seria entrevistada por João Baião e Andreia Rodrigues.

"Realmente cometi um erro", disse, naquele programa, em directo. "Assumo que não fui o suficientemente ágil na abordagem da questão. Por isso, peço desculpa a todos quantos se sentiram indignados com as minhas palavras que são da minha inteira responsabilidade", declarou ainda. Promete que tudo fará "para que a telespectadora em causa seja encaminhada para as autoridades e instituições competentes".