“Escorraçar o diabo” com a galinha preta e o banho santo

Por ocasião da romaria de S. Bartolomeu do Mar, em Esposende, as crianças entram no mar para espantar maleitas. Câmara de Esposende quer ver a tradição classificada como património cultural imaterial.

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A tradição é antiga. E não vá o diabo tecê-las, é melhor continuar a mandar as crianças ao mar. Assim é há, pelo menos, três séculos na praia de Mar, na Romaria de S. Bartolomeu, em Esposende. Uma tradição que se repete a 24 de Agosto e que servia para livrar as crianças de maleitas como o medo, a gaguez, a gota ou a epilepsia. Depois de três mergulhos nas gélidas águas do Atlântico, o “banho santo” promete afastar das crianças qualquer um dos males. 

O município de Esposende quis “investigar e inventariar” todo o património cultural e imaterial associado à romaria de S. Bartolomeu do Mar para que esta seja classificada como património cultural imaterial. 

A apresentação da candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) decorreu esta sexta-feira, por ocasião do 5.º Encontro da Rede Nacional da Cultura dos Mares e dos Rios, em Esposende. A integração do “banho santo de mar” na lista de património imaterial pretende “desenvolver e valorizar a comunidade, dar consciência do seu património”, diz o responsável pelo projecto, ao PÚBLICO. Álvaro Campelo conduziu uma pesquisa durante um ano em que foi acompanhada a preparação da festa e da romaria, reunida agora em documentário. Para o também antropólogo, a festa tem tradições “muito interessantes, algumas muito arcaicas”, mas o que está a ser inventariado não se prende ao passado nem a uma história que assume aqui um papel “meramente documental”. “Queremos classificar como a romaria é hoje e não uma memória de há três séculos. Como hoje a comunidade e os romeiros do Vale do Lima, do Vale do Cávado que aqui acorrem no dia 24 de Agosto fazem a romaria, cumprem as promessas, fazem o banho santo, como é que hoje a celebram”, sublinha Álvaro Campelo. 

“Só se falava no diabo à solta”

A romaria ao S. Bartolomeu do Mar remonta há pelo menos três séculos e o banho santo “teria lugar numas fontes sagradas próximas da Igreja Velha”, explica o antropólogo. O banho santo na praia terá tido início apenas no século XX, quando a “cultura balnear e o acesso à praia” começaram a ganhar importância. Uma tradição agora em risco de mudança dado que o areal da praia de S. Bartolomeu “sofreu profundas alterações devido à erosão da orla costeira”. 

O banho começou por ser dado por homens ligados ao mar, normalmente sargaceiros, que detinham uma licença, passada pela autoridade marítima, para poderem “mergulhar” as crianças no mar. Agora, a função é assumida por populares ou pelos próprios familiares que entram mar adentro para “purificar” as crianças de todas as doenças. 

Mas antes do banho, este tratamento de expurgação dos males começa com o “aluguer” de uma galinha preta que depois é passeada debaixo do braço das crianças que, acompanhadas pelos pais, dão três voltas à capela de S. Bartolomeu. Local onde depois entram e onde passam por debaixo do andor do santo. Esta parte do ritual termina com um membro da comissão de festas a encostar a cabeça de cada criança a uma imagem do santo que dá nome à romaria. As galinhas são oferecidas e colocadas num galinheiro ao lado da igreja para depois serem leiloadas e o montante conseguido reverte para as festas de S. Bartolomeu.

Mas engane-se quem pensa que só os esposendenses é que cumprem a tradição. Há pessoas dos mais longínquos pontos do país a deslocarem-se à romaria da galinha preta e do banho santo. 

Álvaro Campelo admite que a romaria se insere num “terreno antropológico” com implicações a diferentes níveis: não apenas religioso, mas também ao nível “sociológico, antropológico ou ecológico”. Uma exploração “muito mais complexa”, onde se analisam dimensões “cristãs, do género, de mágicas, do sentido da praia, da água, da cura ou da comensalidade”. Novos temas da antropologia, que dão uma visão mais “alargada” do que aquela “meramente reducionista do passado” que relatava que as crianças eram levadas “à força” para a água, para “escorraçar o diabo”.

Texto editado por Ana Fernandes