Os tempos que mudam

Uma obra-prima do melodrama de câmara que remete para um outro tempo do cinema americano: O Amor é uma Coisa Estranha.

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Obra-prima, com todas as letras: O Amor é uma Coisa Estranha

Mais vale tarde do que nunca, costuma dizer-se, e se por vezes uma estreia com atraso é suficiente para “matar” um filme, o caso do glorioso melodrama do americano Ira Sachs que chega a Portugal dois anos depois é a excepção que confirma a regra.

Autenticamente “filme de câmara” no modo como nunca afasta o olhar das suas personagens e dos seus problemas, esta história de um casal com 40 anos de vida em comum, forçado a viver separado enquanto procura resolver os seus problemas financeiros e de habitação, é de uma delicadeza e de uma contenção a toda a prova. Não puxa à lágrima, não carrega no traço grosso, não acredita nos rodriguinhos nem na previsibilidade; fala de crescer, de envelhecer, de enfrentar os problemas que a vida vai atirando para a frente, dos tempos que mudam e do modo como vamos mudando, ou não, com eles. Talvez a melhor prova da sobriedade e da elegância com que Sachs nos emociona está na pontaria de ilustrar esta história de pessoas de carne e osso com peças de Chopin – o seu misto sereno de beleza, felicidade e melancolia é ideal para ilustrar este filme que remete indelevelmente para um outro tempo do cinema. Obra-prima, com todas as letras.

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