Queda do investimento dificulta concretização das metas de crescimento

Indicador registou a sua primeira variação homóloga negativa desde o segundo trimestre de 2013, com uma quebra mais pronunciada na construção.

Sector da construção é responsável por 24% dos pedidos que chegaram em Janeiro deste ano
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Investimento na construção caiu 3,9% Rui Soares

É o ministro das Finanças que o tem dito: a concretização da previsão de crescimento do PIB português inscrita no orçamento depende de uma retoma do investimento no país. Por isso, ao olhar para os números publicados esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística, o próprio Mário Centeno terá ficado certamente com razões para estar preocupado.

É verdade que, em comparação com a primeira estimativa feita há cerca de um mês atrás, o INE até apresentou valores para a evolução da economia portuguesa no primeiro trimestre deste ano ligeiramente mais positivos. Mas ao mesmo tempo revelou que, depois de 10 trimestres consecutivos de taxas de variação homólogas positivas, o investimento voltou a cair.

Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%, o que constitui a primeira descida desde o segundo trimestre de 2013. Este resultado, mostram os números do INE, está essencialmente relacionado com o desempenho do indicador ao nível do sector da construção, já que no investimento em máquinas, apesar de se manter negativo, não houve uma alteração da tendência dos trimestres anteriores e no investimento em equipamento de transporte até se registaram melhorias. O investimento em construção, que no último ano tinha voltado a subir, apresentou uma descida de 3,9% no primeiro trimestre deste ano.

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Na segunda-feira, o ministro das Finanças tinha afirmado, no decorrer de uma conferência, que embora a previsão de um crescimento do PIB de 1,8% que o Governo inscreveu no Orçamento do Estado para 2016 e no Programa de Estabilidade assente numa aceleração da procura externa, “a sua concretização está dependente da retoma do investimento".

Algo que, claramente, não aconteceu nos primeiros três meses do ano. Pelo contrário, a quebra agora registada foi o principal factor por trás do abrandamento registado na procura interna, apesar de o consumo privado ter acelerado nesse período de uma taxa de 2% para 2,4%.

No total, de acordo com os dados publicados esta terça-feira pelo INE, a economia portuguesa cresceu 0,9% no primeiro trimestre de 2016 face ao período homólogo do ano passado, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O resultado agora publicado pelo INE representa ainda assim uma ligeira revisão em alta da estimativa preliminar de crescimento de 0,8% que tinha sido feita pelo INE há cerca de um mês.

O crescimento face ao trimestre imediatamente anterior foi de 0,2% (mais uma vez uma revisão em alta face aos 0,1% da estimativa preliminar), um valor idêntico ao do quarto trimestre de 2015.

Nas exportações, registou-se um abrandamento do ritmo de crescimento homólogo de 2,8% para 2,2%. Para as contas do PIB, e nomeadamente para o contributo da procura externa, este resultado foi compensado pelo abrandamento das importações de 5,3% para 4,6%.

Ainda assim, Mário Centeno não perde o optimismo. Ainda esta terça-feira, a falar no fórum anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o ministro das Finanças afirmou que  “é necessário ter confiança que conseguimos repor a economia em crescimento”, centrando a sua análise no ritmo de crescimento em cadeia apresentado pela economia. Os 0,2% [de crescimento do PIB] do primeiro trimestre são iguais aos 0,2% do quarto trimestre. A expectativa é que ao longo do ano 2016 essas taxas acelerem e que consigamos materializar aquilo que são os desejos todos e também aquilo que está escrito no Orçamento do Estado”, declarou, citado pela Lusa.

Para o Governo, os motivos de esperança assentam no facto de, durante os últimos meses, se ter vindo a registar um aumento dos índices de confiança das empresas, geralmente um sintoma que antecede o aumento do investimento.

Uma opinião completamente diferente tem a sua antecessora no Ministério das Finanças. "É irrealista e irresponsável insistir em manter num cenário macroeconómico em que já ninguém acredita", disse Maria Luís Albuquerque, numa reacção aos números publicados pelo INE esta terça-feira.