A batalha por Falluja já se trava nas ruas

Começa a guerra urbana contra o Estado Islâmico na mesma cidade em que o grupo ganhou notoriedade. Os jihadistas estão de pé atrás também em Mossul.

A nova ofensiva urbana vai tornar os combates por Fallujah mais violentos.
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A nova ofensiva urbana vai tornar os combates por Fallujah mais violentos. Safin Hamed/AFP

Há mais de dois anos que as ruas de Falluja não viam forças leais ao Governo iraquiano. Aconteceu por fim esta segunda-feira, no culminar de uma semana de operações nos arredores da mesma cidade que se insurgiu repetidamente contra o poder central e é ainda hoje um dos principais símbolos de orgulho sunita no país. Pela primeira vez desde que Bagdad anunciou que iria reconquistar a primeira cidade no país a cair para as mãos do grupo Estado Islâmico, forças dos serviços antiterrorismo iraquianos entraram em Falluja e começaram a combater rua a rua os militantes jihadistas que a capturaram em Janeiro de 2014.

A campanha urbana começou nas primeiras horas da madrugada sob o coberto de fogo de artilharia, tanques e bombardeamentos da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos. Enquanto as equipas de elite antiterrorismo avançavam em três frentes no Sul da cidade, milícias xiitas combatiam no Norte, tentando libertar a aldeia de Saqlawiya e apertar ainda mais o cerco que começou já há seis meses. No final do dia, as forças iraquianas conseguiram conquistar uma esquadra da polícia, avançar mais de um quilómetro no interior da cidade e estabelecer-se nos limites de Shuhdaa, um dos bairros mais fortificados de Falluja.

A batalha por Falluja tem tanto de campanha militar como de operação política. Os iraquianos já recapturaram Ramadi no último ano, o que os coloca muito mais próximos de Mossul — e Mossul, como a segunda maior cidade e o grande bastião do Estado Islâmico no país, será a verdadeira conquista contra os jihadistas. Mas Falluja está a apenas 50 quilómetros de Bagdad e tem sido usada como plataforma para lançar atentados contra a capital. Só este mês morreram quase 200 pessoas em ataques à bomba, uma ocorrência cada vez mais comum à medida que os jihadistas perdem terreno um pouco por todo o país.

A manhã desta segunda-feira foi exemplo disso mesmo. Enquanto as forças especiais iraquianas avançavam pelas primeiras ruas de Falluja, dois bombistas suicidas, um num carro, outro numa mota, faziam-se explodir em zonas predominantemente xiitas da capital. Um segundo carro armadilhado detonou-se perto de um edifício do Governo. Nas três explosões reivindicadas pelo Estado Islâmico em Bagdad morreram pelo menos 24 pessoas mais de 50 ficaram feridas. Tudo más notícias para o Governo de Haidar al-Abad, que tenta sobreviver à recente vaga de contestação política vencendo Falluja e libertando os cerca de 50 mil civis que lá vivem em escassez de comida e água potável. “Interrompam as divergências até as operações terminarem”, pediu este fim-de-semana no Parlamento.

Mas uma vitória em Falluja pode também ter ramificações graves. A cidade insurgiu-se contra o poder de Bagdad pouco depois da invasão norte-americana como sinal de que o grande centro de poder sunita não se vergaria ao poder da maioria xiita. Foi lá que os norte-americanos travaram as batalhas mais sangrentas da sua invasão, precisamente contra a primeira encarnação do que é agora o Estado Islâmico, quando o grupo era ainda conhecido por Al-Qaeda no Iraque. Foi também através de nada menos que protestos contra o Governo xiita que os jihadistas se infiltraram na cidade e criaram raízes para a sua captura em 2014. E quem lidera agora à distância os esforços da sua recaptura são milícias xiitas comandadas pelo Irão. Prova disso é a presença no terreno do próprio Qassim Suleimani, o célebre líder das forças de elite de intervenção externa do Irão.

A ocidente, em Mossul

Falluja pode ser por enquanto o objectivo militar do momento para as forças iraquianas, mas a ocidente, os combatentes curdos peshmerga avançam em direcção ao grande objectivo: Mossul. Nesta segunda-feira, o comando militar da região autónoma do Curdistão anunciou que as suas forças capturaram nove aldeias ao Estado Islâmico nos últimos dois dias, terminando uma grande operação iniciada na manhã de domingo com o apoio da coligação aérea internacional.

Os curdos iraquianos dizem ter matado 140 combatentes jihadistas a custo de apenas quatro dos seus militantes e 34 feridos. Segundo um comunicado citado pela Reuters, os peshmerga mobilizaram mais de cinco mil soldados para apertar o cerco a Mossul e preparar terreno para uma ofensiva final, em aliança com as mesmas forças que combatem agora em Falluja. “Para tomarmos Mossul teremos de esperar pela coligação internacional e o exército iraquiano”, disse o general Bahjat Taymes ao portal Middle East Eye, nos arredores da cidade. “Estamos agora na posição mais próxima de Mossul. O Daesh está mesmo ali.”