Reportagem

“Não somos escolas para meninos ricos nem para betinhos”

Foi a maior manifestação de sempre dos colégios privados, e uma das maiores dos últimos anos na área da educação. Organizadores ameaçam com novos protestos se o Governo insistir nos cortes.

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Daniel Rocha / Público
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A carrinha que trouxe José Maria Medeiros de Cantanhede até à Assembleia da República atrasou-se, e agora nem o professor de Educação Musical nem os colegas conseguem entrar no mar de gente de t-shirts amarelas que inundou o largo defronte da Assembleia da República e se espraia por algumas ruas adjacentes. No palanque montado defronte do Parlamento os organizadores do protesto bem clamam para os manifestantes se espremerem, mas o largo é pequeno de mais para acolher tantos pais, professores e crianças.

Segundo os números do movimento Defesa da Escola Ponto – que a PSP não desmente – terão sido 40 mil as pessoas a protestar este domingo em Lisboa contra os cortes no financiamento de colégios decididos pelo Governo. A confirmar-se, terá sido uma das maiores manifestações de sempre dos últimos anos na área da educação e a maior de sempre dos colégios privados. Do outro lado da barricada, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) apressou-se a anunciar outra manifestação, desta vez em defesa da escola pública, a 18 de Junho, também em Lisboa, mas desta vez no Parque Eduardo VII.

“Foi serviço público que prestei ao longo das últimas duas décadas”, insiste o professor de música, o peso da idade a notar-se-lhe no corpo. Como muitos dos que vieram protestar, optou por dar aulas no ensino privado quando se formou. Agora sente que lhe tiraram o tapete debaixo dos pés. Ou ainda pior: “Sinto-me descartado quando o Estado diz que já não somos necessários. Para onde é que eu vou aos 54 anos?” O cartaz que empunha contém uma resposta de sabor amargo: “Vou para o desemprego. Mas vou viver dos impostos que os outros pagam."

O batuque dos tambores anima a festa, para a qual vieram pessoas de quase todo o país, mas sobretudo do Norte, do Centro e da região Oeste. Um comboio fretado especialmente para o efeito saiu de Braga ainda não eram 8h e foi recolhendo gente pelo caminho, enquanto mais de uma centena de autocarros trouxe o grosso da coluna. Cristina Castro, uma docente de História de uma cooperativa de ensino do Vale do Ave, fala de rajada sem parar de gesticular, nervosa. Diz que tem chorado nos últimos dias, ao ver-se “nesta situação”.

"Querem pôr-nos no desemprego"

Tinha 22 anos quando começou a dar aulas na cooperativa de ensino onde continua a trabalhar, agora vai fazer 50 e não se conforma: “Querem pôr-nos no desemprego?! Primeiro precisavam de nós e das escolas privadas e agora já não servimos?” Na sua escola, a Didáxis, não há um único aluno a pagar mensalidade, garante. Magoa-a ainda mais outra coisa: “Chamam-nos tias! Esta gente não tem noção de que as fábricas do Vale do Ave fecharam e a maioria dos nossos encarregados de educação estão desempregados."

No meio da multidão amarela, o vice-presidente da associação de pais do colégio Frei Gil, do concelho de Oliveira do Bairro, reforça a ideia: “A nossa escola não é para ricos nem para betinhos. Acolhe alunos de uma zona carenciada, onde há muita pobreza.”

Representantes dos colégios presentes vão subindo ao palanque e desfiando argumentos contra a decisão do Governo de deixar de financiar os colégios, através dos chamados contratos de associação, quando existirem escolas públicas com vagas nas suas imediações – muito embora garantindo a continuidade dos estudos nos estabelecimentos privados no caso dos alunos que se encontrem a meio dos ciclos.

“Os colégios saem muito mais baratos do que as escolas públicas”, compara Angela Ramos, natural de Palma de Maiorca, mas a morar há vários anos no concelho de Santa Maria da Feira. Casada com um professor de colégio, não percebe onde metem as escolas públicas o dinheiro que recebem do Estado, para estarem “cada vez pior”: “Os professores metem baixa durante meses sem que ninguém os substitua; há alunos a ter aulas em contentores e sem condições para praticarem Educação Física nem terem outras actividades.” É por isso, acrescenta, que há muitos pais do concelho a darem moradas falsas para os filhos poderem entrar na escola privada sem pagar – em vez de frequentarem os estabelecimentos oficiais.

Menos convencidas parecem estar as crianças que vieram à manifestação: várias delas não conseguem explicar muito bem por que razão preferem continuar nos colégios que frequentam, enquanto outras são proibidas pelos progenitores de falar sequer sobre o assunto. Levam cravos e balões amarelos na mão, como toda a gente, mas há mães que lhes ralham e tapam a boca com a mão quando tentam responder a perguntas sobre as suas escolas.

"Matrículas já, agora!"

As 40 mil pessoas que os organizadores desta marcha amarela estimam que terão estado junto à Assembleia da República levaram-nos a cerrar fileiras. “Matrículas já, agora! E em Setembro ninguém vai para a escola [pública] a que foi obrigado”, desafiou o representante dos pais dos alunos em escolas com contratos de associação, Luís Marinho, referindo-se aos estudantes que vierem a ser afectados pelo fim dos contratos. No final do protesto, cantou-se o hino nacional.

Na quinta-feira o Ministério da Educação fez saber que não pretende levar os pais a escolher a “escola ‘x’ ou ‘y’”, mas apenas garantir que “na zona da proximidade de determinados colégios há capacidade suficiente nas escolas públicas para receber mais alunos”.

Outro responsável do movimento, Manuel Bento, deixou no ar a hipótese de mais manifestações – “não forçosamente do tipo desta”, que contou com o apoio do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa  – caso o Governo não retroceda.

“O país não pode permitir que milhares de pessoas sejam moeda de troca para uma geringonça”, disse, ao microfone, a representante de um colégio. Uma leitura política idêntica à manifestada pela líder do CDS-PP, Assunção Cristas, para quem o Governo está, uma vez mais, a ceder a “uma agenda da esquerda radical, ideológica”.

O deputado do CDS Pedro Mota Soares juntou-se aos manifestantes. Propondo que se equacione a possibilidade de encerrar escolas públicas, nos casos em que se prove que são mais caras para o Estado, o ex-ministro da Segurança Social alegou que as famílias mais afectadas com a decisão do Governo são as de poucos recursos.

Igualmente presente no protesto, o deputado do PSD Duarte Pacheco mostrou-se pouco esperançado no “bom senso” da tutela. É que o Ministério da Educação “está comandado por forças estalinistas”, observou à agência Lusa, admitindo a seguir estar a referir-se ao líder da Fenprof, Mário Nogueira.

“Nunca tinha vindo a Lisboa”

Já o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, abordou o tema numa acção política no Tramagal, no concelho de Abrantes: “O cinismo com que PSD e CDS falam de despedimentos de professores nas escolas com contratos de associação fica bem patente na sua política de encerramentos e cortes de mais de três mil milhões de euros nos últimos quatro anos na educação e que teve, entre outras consequências, o despedimento de 28 mil professores.”

Duas escassas horas depois do início do protesto já os alunos, pais e professores estavam de regresso às suas terras, muitos a retemperar forças com os farnéis que tinham levado nas bagageiras dos autocarros. Um deles era um talhante de Ribamar, concelho de Mafra, de 32 anos. “Eu nunca tinha vindo a Lisboa”, assegurava.