Roberto Tumini/Unsplash
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Megafone

Mini-saia e saltos altos

O que nos dá o poder não é a qualidade de coitadinhas. É, precisamente, a qualidade. Falar de feminismo não é, portanto, transformar as mulheres em super-heroínas em combate constante contra o inimigo que são todos os homens

"Queres escrever algo sobre feminismo? Diz mal dos homens que vai ser bem recebido, de certeza." Este comentário, proferido por um homem num tom jocoso, poderia ter caído em saco roto depois de provocar algumas gargalhadas. No entanto, tal não foi o caso.

Quando, nos finais do século XIX, mulheres por todo o mundo começaram uma luta pela conquista da igualdade laboral entre ambos os sexos e do direito ao voto para todos, sabiam, provavelmente, que seria uma longa batalha com implicações nos cânones do Estado, da igreja e da sociedade.

De facto, as conquistas foram-se sucedendo a nível global ao longo dos anos, ainda que de uma forma notavelmente desequilibrada entre determinados países. O que talvez não adivinhassem eram as subversões e interpretações demasiado livres a que essa batalha seria, eventualmente, submetida, desviando-se do ponto de partida original.

Não, o feminismo não é um ódio manifesto ao masculino, muito menos implica uma clausura de todos os elementos do sexo feminino num elitista e conservador grupo de mulheres/mães solteiras — ainda que casadas — empenhadas em acrescentar diariamente elementos à lista de defeitos dos homens — aqueles com quem se cruzam na vida e todos os outros que, de uma forma ou de outra, têm como única missão atacá-las e denegri-las.

O feminismo é, sim, um elevar da condição e das qualidades da mulher a um patamar confortável e equilibrado, de forma a que a permita conviver harmoniosamente com o sexo masculino. É alcançar esse estatuto pela sua própria conquista, com dignidade, sem que, para tal, tenha de recorrer ao mais fácil método de obtenção de confiança: atitudes e mensagens explícitas para denegrir o outro.

Durante várias décadas, as mulheres procuraram libertar a sociedade dos padrões patriarcas e de dominação machista e alcançar a sua liberdade de expressão intelectual e corporal perante o mundo, condição para a qual não pode haver dois pesos e duas medidas, consoante o que agrada mais no momento.

Emily Davison não morreu sob o peso das patas do cavalo do rei para que hoje nos dedicássemos até à loucura a exigir que os meios de comunicação não explorem a beleza do corpo feminino e Emmeline Pankhurst começou o movimento sufragista precisamente para que as mulheres lutassem por direitos iguais, não por privilégios à custa de uma postura imutável, mesmo que disfarçada, de sexo oprimido.

O que nos dá o poder não é a qualidade de coitadinhas. É, precisamente, a qualidade. Falar de feminismo não é, portanto, transformar as mulheres em super-heroínas em combate constante contra o inimigo que são todos os homens. É, sim, enaltecê-las pela sua própria condição, pelas suas próprias conquistas, num mundo coabitado por homens e por mulheres.