Hotéis do Algarve a 80% no primeiro feriado com “ponte” devolvido pelo Governo

Alguns hotéis estão lotados a dias do arranque da época balnear. Uma parte das praias já abriu.

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Os operadores turísticos do Algarve antecipam um Verão em cheio na região David Clifford (arquivo)

A época balnear só abre na próxima semana, mas a “ponte” do feriado desta quinta-feira — o primeiro dos quatro que vão ser repostos este ano — antecipou o Verão algarvio. As principais unidades hoteleiras da região ainda não estão cheias mas para lá caminham, e em Agosto é o habitual — o Algarve fica em overbooking. A ocupação na hotelaria tradicional, nesta altura, estima o presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, “deverá chegar em média aos 80%, havendo unidades com a capacidade esgotada”. O tempo ainda não está de feição, mas a temperatura também não desilude.

A primeira “bandeira azul” nas praias algarvias vai ser hasteada no próximo dia 3, no Vau, em Portimão. Mas, diz o presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), Desidério Silva, há muito que por ali se deixou “de ligar à abertura oficial da época de Verão”. No fundo, brinca, “o Verão é sempre quando há sol, e isso acontece 300 dias por ano”.

O director-geral dos hotéis Tivoli, Jorge Beldade, confirma: “A nossa praia [Puro Beach, em Vilamoura] tem estado sempre aberta.” A ocupação nesta cadeira hoteleira, com unidades em Vilamoura, Carvoeiro, Portimão e Lagos, não podia ser melhor: “Estamos cheios”, diz, acrescentando que, mesmo na época baixa, “as coisas têm estado a correr muito bem”. O dia feriado, admite o presidente da AHETA, “veio ajudar a antecipar a época balnear, que se prevê muito boa”.

Os dias de mau tempo que se fizeram sentir no início do mês na costa algarvia levaram algumas praias a perderem toneladas de areia. A situação, diz o director regional da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Sebastião Teixeira, nada tem de anormal: “Todos os anos acontece”, sublinha. Porém, em Quarteira e noutras zonas, as máquinas estiveram esta semana a empurrar os detritos que foram arrastados pela força das correntes — para não decepcionar os turistas, confrontados com o “emagrecimento” do areal.

Canavial na praia

À entrada da marina de Vilamoura, sentado num molhe, António Raquel lança a linha à água. O peixe dá sinais de querer “picar” o isco, mas não cai. “Falso alarme”, diz, reconhecendo que a manhã desta quarta-feira, com o céu meio encoberto, não lhe está a correr de feição. No areal ali próximo, um funcionário da Câmara de Loulé, com um tractor, empurra os montes de canas que ficaram espalhadas pela praia, aquando das chuvadas da segunda semana de Maio. A falta de manutenção e limpeza das margens das ribeiras e da zona serrana e barrocal traduz-se, entre outros aspectos, no lixo que chega à marina de Vilamoura e a outras zonas do litoral. Na praia contígua, os clientes do Tivoli apanham banhos de sol, alheados ao que se passa à sua volta. “O dia de hoje não está muito famoso, mas olhe que têm estado uns bons dias de praia”, acrescenta o pescador amador, que comprou apartamento de férias em Quarteira para gozar a reforma antecipada.

“Fechei a empresa há quatro anos”, um gabinete de arquitectura e engenharia, revela, justificando: “Fui um dos lesados do BES. Tenho participado em várias manifestações.” Aos 66 anos, o empresário da Benedita que investiu na Rioforte (grupo BES) vai em breve fazer o pedido da passagem à reforma, mas não desistiu de lutar pelos seus direitos. Uma dourada que se aproxima suspende a conversa. Com a aplicação de capitais deu-se mal, mas com a pescaria, confessa, não tem “razões de queixa”. “Aqui há cerca de duas semanas apanhei uma dourada com 3,1 quilos”, gaba-se.

Na praia da Rosa Branca, em Quarteira, David Gonçalves molha os pés na espuma das ondas enquanto a mulher se banha ao sol. O casal, de Santo Tirso, aproveitou os descontos da época baixa para gozar férias em Maio. “Apanhámos uma semana de mau tempo, mas têm estado uns bons dias de praia, espectaculares”, diz, elogiando a tranquilidade naquelas paragens. O homem do Norte revela: “Gosto de Quarteira, venho para aqui há muitos anos. Lá em cima também temos boas praias, mas a água é fria.”

Ali perto do casal, no praia do Vidal, o concessionário acelera as operações de apoio aos banhistas. Os paus dos toldos já estão espetados e a partir de segunda-feira muda a paisagem à beira-mar, com a instalação das sombrinhas e dos toldos.

Em Albufeira, a abertura oficial da época balnear aconteceu há três semanas. Desde que a segurança e a assistência nas praias sejam garantidas, a legislação passou a permitir que as câmaras possam abrir as praias em qualquer altura do ano. Além dos ingleses e dos portugueses, Desidério Silva prevê que os espanhóis reforcem a presença nas praias do Sul: “É um mercado com grande potencial de crescimento”, observa.

Na semana passada, acrescenta, a RTA esteve a desenvolver uma campanha promocional em Barcelona e Madrid, tendo suscitado muito interesse por parte dos operadores turísticos. “Os voos vindos de Espanha estão a chegar a Faro com uma média de 80% de ocupação, e a tendência é para subir”, sublinha. 

Por seu lado, o representante da AHETA diz não se espantar com o que se está a passar na Península Ibérica: “A Turquia, que recebe 28 milhões de turistas por ano, deverá ter uma quebra de dez milhões em 2016, devido à instabilidade que se verifica na zona.” Por isso, o Algarve, que regista uma média de 2,5 milhões de visitantes por ano, é “natural que beneficie dessa circunstância”.

EN 125, um bloqueio ao turismo

A complicar o cenário estão as obras de requalificação da Estrada Nacional (EN 125), que ameaçam tornar-se em mais um dos constrangimentos à mobilidade na região. Os trabalhos, ao contrário do que estava previsto, ainda não pararam. O Ministério do Planeamento e Infra-Estruturas anunciou, no mês passado, que iria apresentar um “plano de circulação” para minimizar os impactos negativos dos trabalhos antes do Verão, mas ainda não aconteceu.

Boliqueime é uma das zonas de maior conflitualidade de tráfego nesta via, e mesmo depois de terminados os trabalhos é previsível que outros bloqueios possam vir a surgir. A construção de passeios e alguns estacionamentos laterais não deixou espaço para a circulação de ambulâncias e outros veículos de emergência. Em caso de acidente, alerta o presidente da RTA, Desidério Silva, “poderão estar em causa vidas humanas, por falta de assistência”.