Em Nova Iorque, com os velhotes de Ira Sachs

Dois anos depois da sua estreia internacional, Love Is Strange – O Amor é uma Coisa Estranha chega finalmente às salas portuguesas. Um melodrama moderno à sombra de Ozu, McCarey e Renoir, como explica Ira Sachs, realizador que sabe que o mercado não é seu amigo.

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Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) são o casal nova-iorquino de Love is Strange — O Amor é uma Coisa Estranha

Invoquemos, em primeiro lugar, o sagrado nome de Yasujiro Ozu e das suas discretas miniaturas sobre os pequenos nadas quotidianos que fazem uma vida. Invoquemos, em segundo lugar, um melodrama de Leo McCarey realizado em 1937 desde o interior do studio-system americano, Make Way for Tomorrow, que nunca se estreou em Portugal mas que se tornou objecto de culto ao longo das décadas – Orson Welles definiu-o como “capaz de fazer chorar as pedrinhas da calçada”.

É nessa linhagem que se deve inserir o filme do americano Ira Sachs que esta semana chega (finalmente!) às salas portuguesas: Love Is Strange – O Amor é uma Coisa Estranha, onde um casal idoso se vê forçado a abandonar a casa onde construiu uma vida em conjunto durante 40 anos, e a separar-se para cada um ir viver com amigos e familiares enquanto não encontram uma solução.

Por Skype, a partir do seu escritório de Nova Iorque, Ira Sachs, 50 anos, realizador e argumentista, admite-se “culpado” relativamente ao uso dessas duas referências. Love Is Strange, diz, “podia bem chamar-se Make Way for Tomorrow" (literalmente, 'Abre Caminho ao Amanhã'). É um filme com uma história muito tocante e primitiva [sobre um casal idoso que se vê forçado a separar-se, indo cada um viver com um dos filhos], e muitas vezes o que encontro noutros filmes é precisamente a narrativa em que pego e que transformo.”

E Ozu, cuja Viagem a Tóquio é também uma possível citação? “Quando comecei a trabalhar no guião tive a sorte de estar a decorrer uma retrospectiva Ozu em Nova Iorque”, diz Sachs. “Vi dez ou 12 filmes ao longo de dois-três meses, e foi uma experiência muito marcante. Transformou verdadeiramente a minha visão dele, e a minha visão como cineasta. De certo modo, Ozu autorizou-me – como Tchékhov fizera antes – a concentrar-me no quotidiano, a defini-lo como um lugar dentro do qual se podem revelar as verdades profundas. O tipo de cinema que faço baseia-se num certo tipo de realismo; preciso de fazer aquilo que Jean Renoir dizia, 'abrir a janela e deixar o mundo entrar'.”

Renoir, Ozu, Tchékhov, McCarey  um mestre francês, outro japonês, um consagrado dramaturgo e escritor russo e um dos clássicos dos anos de ouro de Hollywood. É o tipo de referências que colocam automaticamente Ira Sachs num certo tipo de linhagem cinematográfica. Que não seria forçosamente o que se espera de um cineasta que tem feito carreira no circuito independente e apenas chamou verdadeiramente a atenção à segunda longa, Forty Shades of Blue (2005), psicodrama radical que nunca chegou às salas portuguesas. (Das seis longas que já dirigiu, Love Is Strange é apenas a segunda a estrear cá, após Casamentos e Infidelidades, de 2007, embora Little Men, o filme que realizou depois de Love Is Strange, já tenha distribuição garantida).

Em 30 minutos de conversa, contudo, Sachs puxa outros nomes – Jane Austen, Patricia Highsmith, Sydney Pollack (o "cavalheiro” que produziu Forty Shades of Blue), Jean Eustache… “Estou mais alinhado com o cinema dramático europeu, porque Hollywood sempre teve mais tendência a ser conduzida pelo movimento narrativo e pela emoção melodramática. Eustache é uma grande influência para mim, tal como o cinema francês no geral, quer seja Tavernier ou Pialat. Acredito na trama narrativa, acredito na estrutura. Não quero reinventar a forma, e como alguém que leu muito e viu muitos filmes, as minhas estruturas seguem estéticas muito clássicas. Mas não trabalho dentro de um género, e isso complica as coisas...”

Love Is Strange é de algum modo um “exemplo” dessa complicação. Rodado em 2013 praticamente sem dinheiro, estreado fora de concurso em Sundance 2014, o filme fez o circuito de festivais e foi lançado nos EUA pela Sony Classics no Verão de 2014 com uma resposta invejável da crítica e John Lithgow a merecer algumas das melhores críticas da sua carreira. Mas Love Is Strange não conseguiu encontrar o seu público, caiu naquele estranho limbo do “drama adulto moderno”, e só agora, mais de dois anos depois de ficar pronto, tem estreia em Portugal (noutros países nem sequer chegou à sala, saindo directamente em DVD). 

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Apesar do atraso, este é – um pouco à imagem das suas referências  um daqueles filmes que não parecem ser afectados pela passagem do tempo, lançamos ao seu realizador. “Não acredito que os meus filmes existam fora do tempo”, defende contudo Sachs. “São feitos num momento específico, e, tal como os romances a que reajo – e penso no Henry James, na Edith Wharton ou em Proust –, é um documento do seu tempo, do seu ambiente, do seu mundo. O que faz qualquer coisa durar é o que se lê nas entrelinhas, uma certa profundidade que vai permitir-lhe ressoar tanto no seu momento como fora dele. Mas estou sempre a tentar estar atento ao momento, ter consciência dele, ser observador. As pessoas não podem ser separadas do seu ambiente, faz parte da paisagem do filme.”

Enterrar a estética

A paisagem, então, de Love Is Strange é a Nova Iorque de 2013, onde um casal idoso deixa de ter condições financeiras para viver na cidade. George (Alfred Molina) perdeu o emprego de professor de música numa escola católica onde ensinava há anos, pois a diocese não reconhece o casamento homossexual e acabou de formalizar a sua relação de 40 anos com Ben (John Lithgow), e logo a manutenção do apartamento onde moram em Manhattan se torna incomportável. Enquanto não surge um novo apartamento, Ben vai viver para Brooklyn com familiares e George, que tem alunos privados, fica a dormir no sofá de um casal amigo.

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É o tipo de história normal a que (excluindo a dimensão homossexual do casamento) Ozu chamaria um figo, e Sachs segue nas suas pisadas ao descentrar o filme em direcção àqueles que rodeiam Ben e George – sobretudo Elliot, o sobrinho com quem Ben vai morar, e a sua relação disfuncional com a mulher e o filho adolescente. “Este também é um filme sobre crescer”, diz Sachs, “e Ozu explorava muito essa questão das relações entre gerações. É algo que me fascina porque, aos 50 anos, sinto-me 'entre' gerações. De certo modo, estou mais próximo da personagem de Marisa Tomei [que interpreta a esposa do sobrinho de Ben], tanto em idade como no reconhecimento da distância que se cria entre os mais velhos e os mais jovens. O filme tem pontos de entrada para todas essas gerações.”

No entanto, Sachs não duvida de que o facto de Love Is Strange falar da velhice, da velhice nos nossos dias, e de ter um casal homossexual, “fechou portas” ao filme. “Mesmo dentro do cinema de autor, há assuntos que não convém escolher como temas. Não se fazem filmes sobre homens de 75 anos, não se fazem filmes explicitamente gay, não se fazem filmes sobre mulheres russas a morar em Memphis ou sobre imigrantes meio negros, meio vietnamitas… As mercadorias que interessam internacionalmente são os homens heterossexuais brancos trintões. O mercado não é nosso amigo, porque as nossas escolhas são marginalizadas.”

Sachs evoca o seu “camarada” mais próximo, Oren Moverman (realizador de O Mensageiro e Viver à Margem e argumentista de I'm Not There, de Todd Haynes), com quem co-escreveu Casamentos e Infidelidades, como um amigo próximo que tem lutas semelhantes para conseguir fazer filmes que, no papel, teriam na verdade sido muito facilmente abraçados por Hollywood noutros anos. “Se falo tanto do mercado”, explica Sachs, “é porque é o verdadeiro tema dos meus filmes.” Como diz? “O mercado, o capitalismo são o verdadeiro tema do meu cinema; o espaço que os indivíduos vão conseguindo ganhar dentro das restrições da sociedade e da violência social. Isso não limita os filmes, é parte do material que uso para descrever momentos íntimos, dramáticos.”

Tudo isto, contudo, dentro de uma abordagem que privilegia as personagens e as suas relações. “Uma das razões pelas quais não sou reconhecido como um 'autor' é que os meus filmes procuram… enterrar o lado estético por trás da história. A estética não tem muito a ver comigo, há um tipo de ousadia no cinema de autor, 'olha aquele movimento de câmara, aquela opção formal'… Os meus filmes não, não se anunciam à distância como arte. Jane Austen diz que o amor e o dinheiro são modos de revelar as personagens; a mim o que mais me interessa é o inefável que acontece entre os seres humanos. Mas esse inefável nunca acontece isolado de um contexto de vida, de ordem social. Toda a gente tem as suas razões, como diz o Renoir na Regra do Jogo.”