Civis em risco em Falluja, cercada por forças iraquianas

Jihadistas sob pressão, enfrentam duas ofensivas terrestres e aéreas, uma no Iraque, outras na Síria.

Forças leais ao Governo numa vila a leste de Falluja
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Forças leais ao Governo numa vila a leste de Falluja Ahmad al-Rubaye/AFP

Estima-se que permanecem em Falluja 100 mil civis – destes, pelo menos 50 mil já corriam “risco de fome” antes da operação lançada na segunda-feira por forças leais ao primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi. A cidade, 50 km a ocidente de Bagdad, em direcção à Síria, está cercada e sob fogo. A ONU diz que os civis que lá permanecem estão em “grande risco” e pede que sejam criados corredores de segurança para lhes permitir escapar.

Falluja, na província de Anbar, foi a primeira cidade conquistada no Iraque pelo autodenominado Estado Islâmico, em Janeiro de 2014, seis meses antes da declaração de um "califado" por parte do grupo extremista. Desde Dezembro, quando os jihadistas foram expulsos de Ramadi, a capital de Anbar, que não chega a Falluja nenhuma ajuda. Falta comida, medicamentos, electricidade.

“Ninguém pode sair da cidade. Há atiradores furtivos ao longo de todas as estradas”, descreveu um habitante que falou à Reuters. “Se tentarem fugir os civis correm um risco enorme”, disse em Nova Iorque Stephane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU. Segundo Abu Mohammed al-Dulaimi, outro habitante, citado pela AFP, os jihadistas “impuseram um recolher obrigatório, impedindo as pessoas de andar pelas ruas”.

Tanto a ONU como o Comité Internacional da Cruz Vermelha apelaram a todas as partes para protegerem os civis na cidade, que depois de tudo o que passaram nos últimos meses se arriscam agora a ser usados como escudos humanos. Desde sexta-feira arriscaram fugir da cidade 80 famílias, a maioria através de campos agrícolas. “Nalguns casos, a fuga fez-se às custas das suas vidas e há vítimas, incluindo mulheres e crianças”, diz a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, Leila Jane Nassif.

O primeiro-ministro Abadi assegura que as forças armadas e as milícias envolvidas na operação receberam “instruções para preservar a vida dos cidadãos de Falluja, mas mesmo que conseguissem, muitos habitantes têm medo de fugir. Há milícias xiitas a participar na ofensiva e a população de Falluja, árabe sunita, receia tanto os extremistas como o Governo. Nassif também se disse preocupada com a segurança dos homens e dos rapazes que sobreviveram à fuga: sabe-se que estão a ser separados das mulheres e crianças e levadas para uma base militar.

A ofensiva contra Falluja deverá prolongar-se por muito tempo. Oficialmente, Abadi decidiu avançar com as operações depois da vaga de atentados que fez perto de 200 mortos no início do mês, quando se pensava que os esforços estavam concentrados em preparar a ofensiva para tentar recuperar Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, no Norte. Mas o Governo diz saber que os atentados em Bagdad foram lançados a partir de Falluja e Abadi estava sob pressão por parte dos aliados políticos xiitas para agir.

A aviação norte-americana confirmou estar a dar apoio às forças iraquianas e o mesmo está a acontecer desde terça-feira do outro lado da fronteira síria, onde a coligação de combatentes árabes e curdos Forças Democráticas Sírias lançou uma operação para “libertar o norte de Raqqa”, a cidade que o Estado Islâmico considera a sua “capital”.

Os principais objectivos da coligação internacional de combate ao jihadismo liderada pelos Estados Unidos são Raqqa, na Síria, e Mossul, no Iraque, os grandes bastiões que o grupo ultra-radical conserva. Praticamente cortada está já a ligação entre as duas cidades, o grande alvo dos últimos meses. Consegui-lo, para além de importante do ponto de vista estratégico, é também simbólico: sem esta rota, começa a cair o mito do Estado Islâmico transnacional.