Os fantasmas de Leonor Antunes estão à solta no MoMA de São Francisco

A portuguesa que vive em Berlim expõe no renovado museu americano uma série de esculturas feitas a partir da obra e do espírito de artistas, designers e arquitectos que admira. Destaque para a sueca Greta Magnusson-Grossman.

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Leonor Antunes no Porto, em 2011, junto a uma das suas obras numa exposição na Casa de Serralves Adriano Miranda
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Skylight Alley Running Sideways é composta por triângulos em latão anodizado coloridos, presos uns aos outros, que formam uma divisória que vai do chão ao tecto DR

A exposição da Califórnia era para ser antes da exposição de Nova Iorque, mas o New Museum antecipou-se ao MoMA de São Francisco. Por isso, a do SFMoMA, fechado há três anos para obras, acabou por não ser a estreia de Leonor Antunes num conhecido e relevante museu americano.

A da artista portuguesa é uma das 19 exposições que compõem a megaprogramação da inauguração que teve lugar no fim-de-semana de 14 de Maio. Quem for por estes dias visitar o novo site do SFMoMA, encontrará entre a lista de eventos várias exposições temáticas dedicadas à badalada Colecção Fisher - criada pelos fundadores da marca de roupa norte-americana Gap e, afinal, a razão desta ampliação assinada pelos arquitectos noruegueses Snøhetta – e poucas apresentando o trabalho de um só artista. Entre as quatro exposições em nome próprio, estão as de Alexander Calder, Paul Klee, Claudy Jongstra e Leonor Antunes. É verdade que a de Leonor Antunes é antecedida das palavras “New Work”, identificando a nova galeria que o SFMoMA (nada tem a ver com o MoMA de Nova Iorque) vai dedicar a novos projectos. O jornal The New York Times cita este “project room” e as instalações de Leonor Antunes como um dos exemplos do empenho do museu no “hipercontemporâneo” e na “diversidade geopolítica”, uma vez que a Colecção Fisher é demasiado centrada em artistas muito conhecidos, especialmente homens brancos norte-americanos ou alemães a trabalhar nos anos 1960.

Leonor Antunes, que já em 2014 expusera no Pérez Art Museum de Miami, foi convidada para esta exposição no SFMoMA há dois anos, quando estava a fazer uma residência em Los Angeles, conta numa conversa ao telefone a partir de Berlim, onde vive desde 2005. O convite partiu de Jenny Gheith, uma das mais novas curadoras do museu de São Francisco, que trabalha na área de pintura e escultura. O museu, diz a artista, tem este projecto dedicado à arte que é nova desde 1980, mas só agora, com a ampliação, lhe dedicou uma galeria fixa.

Quando o convite chegou, a escultora já estava a pesquisar sobre o trabalho da designer e arquitecta sueca Greta Magnusson-Grossman, que nos anos 40 se mudou para os Estados Unidos com o seu marido judeu, um músico de jazz britânico. São os “fantasmas” de Leonor Antunes, como escreve a comissária num texto de apresentação da exposição. “Espíritos de artistas, designers e arquitectos que ela admira vagueiam de exposição para exposição, de objecto para objecto. As suas instalações esculturais capturam vislumbres das suas histórias, das suas vidas e dos seus materiais.” Geralmente são mulheres e Antunes aborda as questões de género interrogando-se sobre a visibilidade destas artistas do século XX.

Esculturas que desafiam

Leonor Antunes descreve-nos a galeria como um espaço de 140 metros quadrados no 4.º andar do SFMoMA. Um espaço rectangular, que podemos ver através de um dos vídeos produzidos pelo museu para a inauguração, cujo chão está coberto por uma escultura em cortiça, numa referência ao trabalho de tecelagem de Anni Albers, outro dos “fantasmas” de Antunes, mas também aos interiores da arquitectura modernista do Estado Novo português. A cortiça tem um desenho gravado, inscrito, mas é também marcada por placas de latão. Pontualmente, descem cordas do tecto, duplicando esse desenho de uma forma tridimensional. "É como se fosse uma linha, que começa num ponto e vai repetindo o que está no chão", explica a artista. A peça chama-se Enlarged with Verticals.

As esculturas de Leonor Antunes, um termo que prefere a instalação, desafiam uma noção mais tradicional do meio. “Há uma intimidade que é inerente às suas formas com uma origem resolutamente artesanal que cobrem o chão, estão penduradas do tecto, bloqueiam uma passagem e iluminam um espaço”, escreve Jenny Gheith.

As suas peças são feitas à mão. Fá-las Leonor Antunes sozinha ou com a ajuda de um artesão. Para as de couro, como aquelas que reproduzem partes das duas únicas casas de Greta Magnusson-Grossman em que a artista conseguiu entrar, uma em Los Angeles e outra na Suécia, usou um correeiro que faz selas e arreios. “Quando mando fazer as minhas peças a este artesão, interessa-me a maneira como ele trabalha as coisas à mão e raramente usa máquinas. Há uma manualidade do fazer, isso é importante. Um trabalho em couro exige muitos anos de aprendizagem e de experiência.” 

Discrepancies with Backus House e Discrepancies with Villa Sundin têm uma escala real em relação às duas casas, uma escala de 1 para 1. São subtraídos detalhes, feitas medições, numa relação que passa por aquilo a que o corpo da artista tem acesso ou com que se confronta. “Meço e depois vejo como é que pode ser passível de transformar numa escultura." Foi mais fácil no caso do candeeiro de mesa de 1953 de Greta Magnusson-Grossman, que está na origem da obra Skylight Alley Running Sideways, mas mais difícil nas suas casas, porque várias desapareceram, como é o caso da publicada pela revista Arts and Architecture, cujo projecto podemos ver no folheto da exposição. Skylight Alley Running Sideways é composta por triângulos em latão anodizado coloridos, presos uns aos outros, que formam uma divisória que vai do chão ao tecto. A peça, segundo uma proposta de Leonor Antunes ao museu, substitui mesmo uma parede que fazia a relação desta galeria com o resto do piso, e funciona de certa maneira como uma barreira. 

O que é específico da escultura como suporte e que interessa a Leonor Antunes são “as suas qualidades transformativas, camaleónicas ou mímicas”. A artista não procura fazer objectos completamente originais e recua até à escultura grega da Antiguidade Clássica para explicar alguns dos seus referentes. “São muito poucas as peças que conhecemos da escultura grega antiga em relação ao que foi produzido, porque muitas das produzidas em bronze foram refundidas durante as guerras para fazer armas.” Interessa-lhe essa capacidade dúctil da escultura. “Feita num material específico, a escultura continua a existir só que com uma forma diferente. Está materializada noutro objecto, está repartida noutras coisas. Essa é uma das qualidades mais incríveis que a escultura tem.” É outra forma de encontrar os fantasmas de Leonor Antunes.