Do aniversário de D. Maria I ao público do século XXI: a redescoberta de um compositor

Depois de mais de dois séculos adormecida na Biblioteca da Ajuda, a ópera Lindane e Dalmiro, de João Cordeiro da Silva, renasce esta sexta-feira no Teatro Nacional de São Carlos.

Fotogaleria
Lindane e Dalmiro estreia-se no Salão Nobre do São Carlos, um espaço sintonizado com a estética e a época desta ópera TEATRO NACIONAL SÃO CARLOS
Fotogaleria
O maestro João Paulo Santos durante os ensaios BRUNO SIMÃO

Apesar de ter sido um dos mais importantes compositores portugueses da segunda metade do século XVIII, com especial apetência para o repertório dramático, nenhuma das óperas de João Cordeiro da Silva (1735-1808) foi até agora objecto de estreia moderna. Como tal, a produção de Lindane e Dalmiro que se estreia esta sexta-feira (às 20h, com repetição dias 22 e 23) no Salão Nobre do Teatro de São Carlos, com direcção musical de João Paulo Santos e encenação de Luca Aprea, reveste-se de especial importância

Organista e compositor na Capela Real da Ajuda desde 1759, Cordeiro da Silva teve um papel de relevo na vida musical das cortes de D. José e D. Maria I, sendo autor de óperas, serenatas, uma oratória, várias peças de música sacra e repertório instrumental. Era também o responsável pela adaptação às condições locais das óperas que o prestigiado Niccolò Jommelli enviava para Lisboa na sequência do contrato estabelecido com a corte portuguesa em 1769, e colaborou de perto com o poeta Gaetano Martinelli, autor do libreto de Lindane e Dalmiro, estreada no Real Teatro da Ajuda em 1789 por ocasião do aniversário da Rainha D. Maria I. Na época, a obra foi interpretada pelos cantores da Capela Real, incluindo os castrati Carlo Reina, Giovanni Gelati e Giusepe Marrochini, e contou com cenografias e maquinaria teatral de Giacomo Azzolini e Petronio Mazzoni. Os bailados entre os actos foram coreografados por Antonio Marrafa (também célebre pelos penteados com o seu nome que inspirou aos cabeleireiros lisboetas da época).

A estreia moderna de Lindane e Dalmiro será interpreta por Sandra Medeiros (Lindane), Raquel Luís (Dalmiro), Joana Seara (Giacinta), Cátia Moreso (baronesa), Carlos Guilherme (Monsieur Ragout), Diogo Oliveira (Marquês Pancottone), João Merino (Don Fabrizio), pelo bailarino Pedro Ramos e pela Sinfónica Portuguesa. Os cenários e figurinos são de António Lagarto.

A escolha desta ópera deve-se ao maestro João Paulo Santos, que já “tinha ficado de olho nela” quando fez uma pesquisa bastante exaustiva entre a riquíssima colecção de partituras da Biblioteca da Ajuda com vista a um ciclo de recitais dedicados à ópera de compositores portugueses anteriores à fundação do São Carlos. “Além do Sousa Carvalho e de Leal Moreira, fiquei com curiosidade pela produção de Luciano Xavier dos Santos e também por esta ópera do Cordeiro da Silva. É a última que escreveu e aquela em que demonstra mais experiência”, conta ao PÚBLICO. “É também a que tem o libreto mais interessante. Deveríamos estudar melhor a obra do libretista Gaetano Martinelli, ele veio para Portugal por sugestão do Jommelli e trouxe para cá uma série de novas ideias. Não é apenas um suporte para o compositor, é muito imaginativo e nota-se que está preocupado com uma estrutura centrada na cena e não na ária. Se tivesse feito a sua carreira num país menos periférico hoje seria bem seria mais conhecido.”

O facto de as personagens não serem estanques também atraiu João Paulo Santos. “Talvez apenas o Dalmiro se conserve sempre no seu universo um bocadinho idealista, mas a Lindane vai mudando conforme as situações, tão depressa é dramática como entra num jogo cómico”, diz. “As personagens cómicas são especiais pois não se limitam aos clichés da época. A Baronesa, que é a mulher ridícula convencida de que é jovem, também é má, quando o normal neste tipo de figuras é serem apenas ridículas. O mesmo sucede com a criada. Temos também as personagens do italiano e do francês que são exploradas ao nível da linguagem. A misturada de italiano e de mau francês que há a certa altura é extraordinária.”

Peripécias e um leão

Também do ponto de vista musical se trata de uma obra de grande variedade. “Há muitas árias cómicas, mas também árias dramáticas e coisas que quase me apetece chamar românticas num certo sentido. Dalmiro, qual Romeu que pensa que a sua Julieta morreu, tem uma ária como se estivesse a falar para o espectro da Lindane, o que é um prenúncio de muita coisa que se vai fazer no início do século XIX.” João Paulo Santos refere ainda que do ponto de vista formal, as “árias da capo” foram trocadas por formas bipartidas e que nas árias mais virtuosísticas já não temos a ornamentação barroca, mas sim ornamentação expressiva. “É uma música que já não tem a ver com o Barroco mas sim com a época clássica. Encontra-se na linha de outros compositores que hoje conhecemos pouco, como Paisiello, Cimarosa, Piccinni, mas que tinham projecção.” No plano instrumental, a orquestra é de perfil clássico, mas ainda sem clarinetes e “a orquestração [mostra-se] cuidadosa na escolha das cores tímbricas”.

Apesar de o libreto ser muito rico em didascálias, o encenador Luca Aprea procurou outras soluções. Lindane e Dalmiro será apresentada no Salão Nobre do São Carlos, uma espaço em grande sintonia com a época e a estética da ópera, mas para Luca Aprea esta concordância era desprovida de tensão. “Era como juntar açúcar com mel!”, diz. Faz porém questão de salientar que como encenador não procura ideias muito contemporâneas. “Gosto de encontrar ideias quase invisíveis dentro da própria obra, ideias que poderiam ter surgido ao próprio Martinelli ou ao compositor.” Algumas irão alterar um pouco o curso do libreto mas Luca Aprea espera que tal não se note. Como é habitual, a sua abordagem centra-se na dramaturgia, na interpretação teatral e no movimento, prescindindo de grandes aparatos cénicos. Haverá um espaço delimitado por um estrado assimétrico, mas que pode ser rompido em profundidade e que de modo algum confina os intérpretes, já que estes irão circular dentro e fora dele.

No que diz respeito às personagens, Aprea considera Lindane “uma menina muito irritante, porque tem tudo para estar bem, mas vive cheia de culpas. “Ama Dalmiro mas não o pode amar porque ele é filho do homem que matou o seu pai. Nalguns momentos parece uma freira e noutros uma fera. Mas quando está sozinha está sempre desesperada.” A baronesa, por seu turno, é o pivô da cena cómica. “No libreto diz-se que a cena se desenrola em Bagdad. Aí se encontram todos estes europeus, não se sabe bem porquê. É interessante que o espaço da baronesa se limite à sua casa, que por sua vez está rodeada por uma selva, para onde ela irá mandar Lindane para ser morta e comida por um leão.”

A presença de um leão foi uma das coisas que mais fascinaram Luca Aprea nesta obra e é também o motor de uma das cenas cómicas. “Mandam Lindane para o bosque para ser atacada pelo leão, mas depois todos querem ver como está. Chega o leão e os outros  acabam por ficar mais assustado do que Lindane.” Como consequência, Aprea revela que a baronesa vai ficar careca com o susto e os restantes ficam “com cabelos leonizados”. Quanto a Dalmiro, vê-o como alguém que vem do exterior, da natureza. “Ele é assistido por um anjo e a sua casa é um palácio transparente. Como o leão também vem da natureza, pensei que poderia haver um elo forte entre ele e Dalmiro, cujo carácter é felino, espontâneo, corporal e impetuoso. O leão é interpretado por um bailarino de corpo nu porque é a natureza.”

Quanto à música, o encenador teve uma boa surpresa. “Há blocos de árias que por vezes se prolongam 12 minutos. Se tivessem sido ainda mais atrevidos, podiam fazer uma peça sem recitativos! A ideia de que algo se prolonga na música agrada-me imenso, mesmo se por vezes o teatro seja travado por ela a fim de lhe dar a primazia.”

Sugerir correcção
Comentar