I3S: Neste instituto há mil pessoas a inventar um futuro melhor

Marcelo Rebelo de Sousa aprendeu esta quinta-feira alguma coisa sobre fungos, parasitas e uma mutação genética muito frequente em Celorico de Basto, onde tem raízes familiares. Foi o dia da inauguração do maior instituto de investigação em saúde do país.

Marcelo Rebelo de Sousa na inauguração do instituto I3S
Marcelo Rebelo de Sousa na inauguração do instituto I3S Nelson Garrido
Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e a comitiva na inauguração do I3S
Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e a comitiva na inauguração do I3S Nelson Garrido
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Nesta grande casa da ciência juntaram-se três instituições da Universidade do Porto – Instituto de Biologia Molecular e Celular, Instituto Nacional de Engenharia Biomédica e Instituto de Patologia e Imunologia Molecular –, num “casamento” baseado numa comunhão de “conhecimentos” adquiridos. Uma moderna relação a três onde não há “fusões” de identidades nem segredos mas antes uma união de factos e esforços, um consórcio. Chama-se I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde), é o maior instituto de investigação em saúde de Portugal e foi inaugurado esta quinta-feira por um curioso Presidente da República e por um optimista primeiro-ministro.

Foram precisas cinco pessoas para dividir a honra de descerrar a placa que assinala o dia de inauguração do I3S: o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro, António Costa, o reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo, o director do I3S, Mário Barbosa, e o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. Um “momento histórico” concordaram todos nos discursos.

Mas, antes dos discursos, a comitiva liderada por um Presidente da República cheio de curiosidade invadiu alguns laboratórios. Em todos os postos, junto de todos os investigadores (na maioria investigadoras), Marcelo Rebelo de Sousa parou com uma pergunta. “O que é que está a fazer? Mas concretamente o quê?” A maior surpresa surgiu no laboratório de Graça Porto, onde o Presidente da República ameaçou tirar notas num papelinho que trazia no bolso e exclamou: “Não posso acreditar! Explique-me tudo!”

A médica e investigadora Graça Porto apresentava o trabalho da sua equipa que se dedica à hemocromatose, uma doença em que há excesso de absorção intestinal do ferro, o que leva a níveis elevados de ferro no sangue. O espanto de Marcelo Rebelo de Sousa surgiu quando Graça Porto explicou que a doença é causada por uma mutação de um gene e que esse “defeito” genético é muito frequente no Norte de Portugal (quatro em cada mil pessoas, o dobro da média nacional) e tem mesmo um pico de incidência na zona de Celorico de Basto, terra da avó do Presidente da República.

“Quais são os sintomas?”, apressou-se a perguntar Marcelo Rebelo de Sousa, que logo descansou quando se falou em níveis altos de ferro no sangue. “Não, o meu problema são níveis baixos”, suspirou. Graça Porto explicou ainda que há muitos portadores da mutação que não manifestam a doença. “Porquê?”, perguntou o curioso Presidente. “Pois, é isso que também estamos a tentar perceber.” Actualmente este grupo está focado nos problemas causados por esta doença nas articulações e também no estudo de algumas características genéticas associadas a sintomas mais graves.

De resto, ao longo da visita pelos laboratórios, o Presidente da República fez questão de não esconder o entusiasmo, distribuindo parabéns e soltando expressões como “é impressionante” ou “é fascinante” nas várias bancadas.

O I3S tem 1000 colaboradores e 800 são cientistas que se dedicam a encontrar respostas para as áreas do cancro, neurobiologia e doenças neurológicas, e interacção e resposta do hospedeiro. Estes são os três programas principais do I3S. A relação entre os três institutos dura há vários anos, em 2003 assinaram o primeiro protocolo de cooperação, em 2008 o consórcio teve Mariano Gago (então ministro da Ciência e que esta quinta-feira foi homenageado) e José Sócrates (então primeiro-ministro) como padrinhos e que em 2010 garantiram o financiamento para a compra de casa. A primeira pedra foi “lançada” em 2013, a casa – de 18 mil metros quadrados e que custou 21,5 milhões de euros – ficou concluída em 2015 e depressa foi ocupada por mil colaboradores.

É na integração que está o grande trunfo do I3S. Neste instituto, as nanopartículas entram pelo terreno do cancro e dos fungos, os biomateriais entram no campo das bactérias, infecções, regeneração de tecidos e vice-versa e muito mais. Tudo o que é feito em cada um dos 51 grupos de investigação pode ser aproveitado ou melhorado por outros grupos. É a tal “multidisciplinariedade” de que tanto se fala em prática.

Um “optimismo irritante”

Se Marcelo Rebelo de Sousa espalhou entusiamo e curiosidade durante a visita ao I3S, no discurso que fez na cerimónia não perdeu o ritmo. Mas não fez só isso. Por duas vezes, fez referência ao optimismo do primeiro-ministro. Na primeira, considerava que, apesar de um longo processo com mais de dez anos, o I3S nasceu “em pouco tempo”, preferindo olhar para o “outro lado da história, um pouco com o espírito habitual do senhor primeiro-ministro, aquele seu optimismo crónico e às vezes ligeiramente irritante”. Na segunda, falava de um Portugal pessimista e outro optimista. “Muitas vezes, quando penso no país vejo dois países. Aquele que prolonga um tropismo pessimista e céptico. Um país que está condenado a viver tristemente a debater por que não tem sucesso. E outro país que todos os dias trabalha, cria, inventa, imagina, que irradia felicidade, que acredita e que quando acorda olha para o lado bom sem esquecer que existe um mau.” E aqui ficou o recado a António Costa, avisando o primeiro-ministro de que este optimismo deve de ser moderado “com os pés assentes no chão e minimamente racional”.

Tudo isto a propósito de ciência. O Presidente da República acredita que o I3S é “um passo histórico”. Confessou invejar “de quando em vez” Rui Moreira, que “deve ser um homem feliz” por ter munícipes assim. Lembrou Veiga Simão e Mariano Gago como as duas personalidades marcantes da vida da ciência portuguesa. Aplaudiu o esforço e a visão (num elogio que teve eco em todos os discursos) dos cientistas Manuel Sobrinho Simões, Alexandre Quintanilha e Mário Barbosa, que iniciaram o processo do I3S. Saudou a “virtuosa convergência da educação, cultura, ciência, inovação e saúde”. Fez rir a audiência de investigadores quando considerou que o meio académico por vezes supera o político em matéria de susceptibilidades e vaidades. E, finalmente, como académico, cientista social e Presidente da República, agradeceu ao I3S “este dia grande para Portugal”.

Antes, António Costa também quis dar um ar da sua graça. “Num país que tem a cultura de minifúndio, nada é mais difícil do que pôr a cooperar duas instituições, a não ser pôr a cooperar três instituições.” Depois falou de coisas sérias, como as medidas políticas já anunciadas para reforçar a ciência e o conhecimento, como as negociações com os sindicatos para substituir as bolsas de doutoramento por efectivos contratos de trabalho. O entendimento desejado com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas para um “novo contrato de confiança que estabilize a relação entre Estado e instituições”, ou seja, novas regras de financiamento. Por fim, citou Mariano Gago para afirmar que “sem cultura científica, as oportunidades são escassas” e defendeu que a “comunidade científica é imprescindível para que o país responda aos desafios das próximas décadas”.

Mário Barbosa faz parte do passado, presente e futuro do I3S e não escondeu o orgulho num instituto “com uma pluralidade de perguntas, respostas e inquietações de que é feita uma instituição que respira, um instituto vivo, plural, diversificado, evolutivo, sólido, único”. “Começou por ser um sonho e hoje é um sonho em movimento”, disse o director do I3S, que quer colocar este instituto “ao serviço da sociedade”. E conclui com um apelo: “Sei a direcção que temos de tomar e sei que não podemos ir sozinhos. Ainda bem. Precisamos de alianças com expectativas de estabilidade. Precisamos de vós. De todos. Exijam de nós e contem connosco.”

Notícia corrigida às 12h28 de 20 de Maio de 2016: na hemocromatose, a absorção de ferro não é impedida; o que ocorre é um excesso de absorção nos intestinos.