João Salgueiro defende que Portugal não deve ser “cobaia” da União Bancária

O ex-presidente da APB comparou a intervenção de instâncias europeias ao impacto da descolonização: “Se não se encontram as soluções a tempo, depois é uma debandada e vamos pagar os custos durante décadas”.

Mais cortes são possíveis mas não desejáveis, defende João Salgueiro
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João Salgueiro Nuno Ferreira Santos

Ou Portugal toma as rédeas dos seus problemas bancários e não se permite ser “cobaia” da União Bancária europeia, ou o país vai andar a pagar os custos durante décadas. O aviso foi feito nesta quarta-feira pelo ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos, João Salgueiro, à saída de uma audiência com o Presidente da República a propósito do manifesto Reconfiguração da Banca em Portugal -- Desafios e Linhas Vermelhas.

Este documento, assinado por ex-governantes, políticos, economistas e empresários, defende uma maior autonomia face ao Banco Central Europeu, mais adequação às necessidades das empresas portuguesa e – numa altura em que a expressão “espanholização da banca” entrou no discurso público – argumenta contra “a dependência de um muito escasso número de bancos de um país estrangeiro”.

“É preciso alertar a tempo que qualquer solução para algum caso que haja para outros bancos [no futuro] deve ser feita antes de entregarmos a mão às instâncias europeias”, alertou o economista e antigo ministro das Finanças, já depois de ter criticado o “mau exemplo da solução para o Banif”.

Avisando que existem “vários tipos de problemas que têm de ser resolvidos a tempo”, subiu o tom. “O custo de entregar soluções às instâncias europeias é muito grande. É uma solução muito semelhante à descolonização: se não se encontram as soluções a tempo, depois é uma debandada e vamos pagar os custos durante décadas”.

João Salgueiro não foi explícito, nem sobre o Banif, nem sobre os problemas que antevê. Mas são conhecidas as preocupações dos subscritores do manifesto contra a “espanholização” da banca portuguesa, devido à orientação do Banco Central Europeu de favorecer a concentração e promover a criação de mega bancos comunitários. No caso de Portugal, a orientação é a venda a grupos espanhóis. Foi o que aconteceu com o Banif.

“O caso Banif foi pouco explicado e, na comissão de inquérito, as opiniões sobre o que aconteceu não são as mesmas por parte do Banco de Portugal, do Governo e das instâncias europeias. É estranho”, considerou. João Salgueiro subscreve mesmo as opiniões dos que dizem que o Banif “foi vendido em saldo”. Ou até mais: “Um dos participantes disse mesmo que, mais do que uma venda, foi uma oferta”.

Criticando a falta de transparência nesse processo, lembrou que havia uma operação em curso - um concurso público de venda do Banif que recebeu propostas, algumas mais favoráveis do que foi fechada, como a da americana Apollo e até a inicialmente formulada pelo Santander – e “acabou por ficar só uma [proposta]”, tendo sido excluídas as restantes “com argumentos diferentes”. “A uma dessas entidades foi dito que não podia comprar em Portugal, mas acabou por comprar na Estónia, que é o mesmo espaço europeu”, acrescentou.

Mais tempo para venda do Novo Banco

Outro caso que correu mal, mas que João Salgueiro e os subscritores do manifesto esperam que ainda se possa arrepiar caminho, é o do Novo Banco. “É preciso que nos dêem tempo para resolvermos os problemas dos bancos e poder vendê-los pelo valor justo e que assegure o futuro”, defendeu.

Nada que não aconteça noutros países: “Há bancos europeus – como o Barclays ou o Royal Bank of Scotland - que estão a ser viabilizados ao longo de anos e só são vendidos quando têm o valor adequado, como aconteceu com bancos suecos. Não estamos a falar de nenhum problema que fosse muito difícil de fazer em Portugal”, sublinhou.

João Salgueiro afirmou que o Presidente da República “está muito bem informado” e “compartilha muitas das preocupações”. Sobretudo com o avanço de algumas soluções europeias: “As regras da União Bancária ainda não estão testadas e o primeiro caso onde estão a ser aplicadas é em Portugal”, lamentou João Salgueiro. “A nossa vocação para cobaia não é muito encorajadora”. Com Cristina Ferreira