Câmara de Lisboa reflorestou o “mar de betão” que era o Aquaparque e promete mantê-lo assim

Numa visita de deputados municipais a Monsanto, Sá Fernandes remeteu para Junho ou Julho a apresentação dos projectos para o espaço no Restelo e para o antigo Restaurante Panorâmico. Na Quinta da Pimenteira, as obras estão prestes a começar.

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O antigo Aquaparque foi fechado em 1993 depois da morte de crianças Daniel Rocha
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O Campo de tiro deixou o solo cheio de chumbo Daniel Rocha

“Não sei se estão a ver como é que isto era… Era uma coisa absolutamente gigantesca de construção”, observa o vereador José Sá Fernandes, enquanto os seus olhos se perdem pelo local onde em tempos funcionou o Aquaparque. Sem revelar ainda que projecto tem a Câmara de Lisboa para o espaço, o autarca diz que “o essencial” já foi feito: a maior parte das construções foi demolida e o terreno foi “reflorestado”.  

O ex-Aquaparque foi um dos pontos de uma visita que os deputados da Comissão de Ambiente e Qualidade de Vida da Assembleia Municipal de Lisboa realizaram esta segunda-feira a Monsanto. A acompanhá-los estiveram o vereador Sá Fernandes, que tem o pelouro da Estrutura Verde, e a chefe da Divisão de Gestão do Parque Florestal, Maria Helder Furtado.

No antigo parque aquático, que fechou as portas em 1993 na sequência da morte de duas crianças, já não há piscinas ou escorregas. “Foram demolidas todas as construções de grande e média dimensão”, explica Maria Helder Furtado, acrescentando que “a ideia foi naturalizar ao máximo o terreno”. E também, admite, “apagar a ideia da água e de tudo o que aconteceu”.

“Isto era um mar de betão”, recorda, por sua vez, Sá Fernandes, que em vez de falar no espaço de nove hectares como o ex-Aquaparque prefere usar a designação anterior a essa: Quinta de Santo António.

“A minha ideia era abrir ao público, depois de dar uma pintadela nisto”, diz o autarca, referindo-se a um conjunto de telheiros existentes no local e à entrada, que se encontra coberta de graffiti. Mas os serviços municipais, conta, pediram-lhe que esperasse, “para preservar a parte reflorestada” mais recentemente.

O vereador, que não aponta para já uma data de abertura do espaço no Restelo, remete para Junho ou Julho a apresentação pública do projecto que o município tem para o local. “Não vai haver construção nenhuma, estejam descansados”, garante aos deputados municipais, acrescentando que também não haverá concessões. A única excepção, admite, poderá ser “uma pequena cafetaria”.

Sem fazer grandes revelações, Sá Fernandes diz que “em princípio” a vedação existente é para manter e que o espaço deverá permanecer fechado durante a noite, podendo ser usufruído pela população apenas durante o dia. O autarca fala ainda na instalação de barbecues, de iluminação solar e da criação de um parque para cães (sugerida pelo presidente da Junta de Freguesia de Belém), deixando a promessa de que “a ideia que aí vem é muito engraçada”.

Por resolver, adianta, está um processo em tribunal, intentado por uma empresa à qual a câmara atribuiu a concessão do espaço (já depois do encerramento do parque aquático) para aí instalar um parque aventura. “Está para lá num tribunal qualquer. Provavelmente a câmara irá pagar alguma coisa. Espero que pouco”, di, explicando que a empresa reivindica o pagamento de uma indemnização por parte do município.

Campo de tiro em avaliação

Outro dos pontos desta visita, que o PÚBLICO acompanhou, foi o antigo Campo de Tiro. Também aqui o vereador adoptou uma designação politicamente correcta para o espaço: Monte das Perdizes.

Segundo explica Maria Helder Furtado, houve vários candidatos a ficar com a concessão do espaço, estando esse processo em avaliação. A proposta da autarquia passa por entregar a um privado 1,5 hectares (dos 18 que o Monte das Perdizes tem), área que inclui o edifício dos anos 60 existente e dois dos quatro campos de tiro. O terceiro ficará para a câmara e o último, diz, deverá ser entregue por protocolo à Federação Portuguesa de Tiro com Arco.

Quanto à já muito falada necessidade de se promover a descontaminação dos terrenos, marcados por mais de 50 anos de actividade do Clube Português de Tiro a Chumbo, a chefe da Divisão de Gestão do Parque Florestal de Monsanto constata que “o solo ficou impregnado de chumbo”.

“As análises deram valores pouco simpáticos nalgumas zonas. Vamos começar a trabalhar na limpeza do solo”, adianta aos deputados municipais a responsável, explicando que a estratégia passa por limpar uma camada de dez a 15 centímetros de profundidade dos terrenos.

Mas não é só no exterior do edifício principal do Monte das Perdizes que há marcas da actividade do clube de tiro: no seu interior há ainda placas gravadas com os nomes dos vencedores de diferentes competições e uma outra com o nome dos sócios fundadores do clube. O que também não falta são cabeças de diferentes animais penduradas nas paredes.

O hostel da polémica

O roteiro dos deputados da Comissão de Ambiente e Qualidade de Vida por Monsanto incluiu também a Quinta da Pimenteira, outro sítio em torno do qual tem havido alguma polémica. O espaço, onde funcionam viveiros da câmara, foi concessionado a um privado, juntamente com o Moinho do Penedo (que também foi visitado esta segunda-feira), com a Casa do Presidente e com algumas antigas casas de função.

De acordo com Maria Helder Furtado, as obras na Quinta da Pimenteira, com vista à criação de um hostel, deverão começar “muito em breve”, dado que os projectos de especialidades já foram aprovados pela autarquia. “Os viveiros continuam na câmara e o concessionário vai ter de fazer obras de beneficiação”, frisou.

Isso mesmo foi também destacado por Sá Fernandes, que juntou à lista de benefícios do projecto a requalificação do edifício do século XVIII que “está muito estragado” e o arranjo dos balneários e das instalações de trabalho dos funcionários do viveiro municipal.

“Recuperar este edifício para o fim de hostel parece-nos uma boa aposta. Faz-se isto em praticamente todos os parques florestais do mundo”, advogou. Lembrando que esta quinta fica “no meio de estradas”, numa zona de acesso “muito difícil”, Sá Fernandes sublinhou que com o projecto agora em marcha um local que “nunca foi público vai começar a ter algum uso público”.

Esta visita por Monsanto incluiu também a passagem pelo antigo Restaurante Panorâmico, no qual os deputados municipais não puderam entrar. Maria Helder Furtado notou que este é hoje “um sítio perigosíssimo”, que não oferece condições de segurança, mas reconheceu que ainda assim ele é considerado “uma ruína de elite”, na qual muitos portugueses e estrangeiros se procuram infiltrar.

Sobre este espaço, no qual a câmara chegou a anunciar que seria instalada a Sala de Operações Conjunta (que reúne o Regimento de Sapadores Bombeiros, a Polícia Municipal e a Protecção Civil), Sá Fernandes prometeu também novidades em Junho ou Julho e garantiu que o projecto a desenvolver “será alvo de discussões públicas”.

Vista também apenas do exterior foi a pista de radiomodelismo existente em Monsanto, que estava desactivada e que o município entregou há alguns meses à Junta de Freguesia de Benfica.

Presente na visita, a presidente da junta explicou que a ideia é manter a actividade de radiomodelismo, mas também criar no local “pontos para a lavagem de bicicletas e balneários” para ciclistas e praticantes de BTT. “Estamos a lançar o concurso para a recuperação”, disse Inês Drummond, acrescentando ter a expectativa de que “até ao final do Verão” a obra esteja concluída.

Dos planos do município para Monsanto faz também parte a requalificação das casas de função que existem espalhadas pelo parque florestal e que são alvo frequente de vandalismo. De acordo com o vereador da Estrutura Verde, quatro delas deverão ser entregues a artistas, para aí instalarem os seus ateliers.

A câmara está igualmente a trabalhar na recuperação de trilhos (para que possam ser utilizados por ciclistas, peões e cavalos), na introdução de medidas de acalmia de tráfego em vários pontos do parque florestal, na recuperação de alguns dos parques de estacionamento existentes e na melhoria da sinalética.

No fim do passeio de perto de três horas, Sá Fernandes frisou que a maior parte do trabalho em curso, requalificação do património incluída, deverá estar concluída no próximo ano. Aos deputados e jornalistas que o acompanharam, o autarca, que como é seu hábito usou um chapéu durante a visita, deixou ainda um conselho: “Cabeça coberta, pés quentes, tripas desentupidas, pontapé na medicina.”