Opinião

O que fica bem a uma mulher

Aos 18 anos, eu achava que era pós-feminista. Trinta anos depois, sou feminista.

1. Aos 18 anos, eu achava que era pós-feminista. Trinta anos depois, sou feminista, mais a cada dia, e não será por acaso que ouço cada vez mais mulheres declararem-se feministas. Certamente não ficaram todas malucas, ou sem homem, ou contra os homens, como os machistas, homens ou mulheres, gostam de acreditar. Falo em machistas homens ou mulheres porque há mulheres machistas, tal como há homens feministas. Machista é qualquer espécie de abuso ou coacção sobre as mulheres, perpetuando a imposição de um modelo.

2. Claro que hoje, na maior parte das democracias, muito mais mulheres ocupam espaços antes dominados por homens, e nos últimos 30 anos deram-se outros avanços decisivos, incluindo os jurídicos. O machismo tem objectivamente menos margem de manobra, pode com mais frequência ser punido em tribunal. Mas creio que se há 30 anos eu me via pós-feminista era por acreditar que os machistas estavam em extinção, evolução natural, questão de tempo. E se agora me vejo cada vez mais feminista é por verificar que, mesmo com tudo o que se fez e sabe, malgrado o que já deveria ter sido culturalmente absorvido, em países em que as condições legais para isso supostamente existem, em suma, apesar de todas as oportunidades que os machistas tiveram para deixar de o ser, o machismo soma e segue, reciclado consoante o estilo, o tempo, o lugar, desde a piadinha à violência extrema. Para ficarmos pela piadinha, a aprovação da lei contra o assédio parece ter tido pouco efeito nos grunhidos da minha zona histórica de Lisboa, então de cada vez que dobro a esquina (eu ou qualquer ser aparentemente do sexo feminino), tenho pensamentos ruins sobre o futuro daqueles proto-stalkers. E o que desejo aos piadistas que julgam ter feito humor com a lei dos piropos é que sejam assediados por um tiranossauro de dimensões extrapriápicas, todos os dias, sempre que saírem de casa, para que possam experimentar quotidianamente aquilo que, de facto, não gostariam que acontecesse às filhas, às mulheres, às irmãs, às mães. Portanto, de algum modo, o clima é mais agreste do que há 30 anos: se a cabeça ainda não abriu, vai abrir quando?

3. Os exércitos de inimputáveis gerados pelas novas possibilidades virtuais alimentam este clima agreste, em que cada vez mais mulheres sentem a necessidade de um feminismo activo. Por um lado, a fasquia subiu, ou seja, mais mulheres não têm pachorra para levar caladas com o que antes passava ao largo. Por outro lado, sabemos muito mais do que se passa, e não se passa, nas cabeças, porque elas estão escancaradas nas redes sociais e nas caixas de comentários, muitas vezes a salvo de um frente-a-frente, ou a coberto de anonimato. É possível que o aumento dos números de violência doméstica (cujo alvo, na esmagadora maioria dos casos, são mulheres) reflicta um aumento de denúncias, e portanto maior fortalecimento das mulheres. Em resumo, parte do que parece pior será apenas porque veio ao de cima, não porque não estivesse lá. Mas vir ao de cima é uma razão mais para lutar, está identificado.

4. E o embate dá-se logo aí. Mulheres demasiado activas, demasiado combativas, demasiado lutadoras: nada disso fica bem a uma mulher, do ponto de vista machista. Aliás, em geral, numa mulher, muito é sempre demasiado. Uma mulher que fale de forma clara, tenha opiniões, se posicione ou lute é facilmente demasiado assertiva, quando não histérica, esganiçada, radical, maluca. Já um homem de convicções, como sabemos, será positivamente assertivo, corajoso quando combate, e se explode ninguém o dirá neurótico. Milhares de anos de sonsice desaguam aqui, frescos e prontos para mais um milénio. Depois de tudo o que sabemos, o próprio da mulher, para o bem e para o mal, é ser sonsa, ambígua, dissimulada, manobrar pela sombra, levar o seu homem com jeitinho, levar a água ao seu moinho sem muito barulho, como as mulheres sempre fizeram, segundo a história gravitacional dos homens. Nessa versão, mulher sempre foi cabra e anjo, puta e mãe, num slalon de esperteza e artimanha, esforço em silêncio, dor muda. A eles, o mundo, a força, a clareza, a guerra. A elas, artes de não se fazerem notar demasiado, além do que se espera delas.

5. Nunca tive de combater machismo de forma sistemática dentro de uma relação ou no trabalho, nem discriminações ou opressões extra, também porque sou branca, saudável, de classe média, num país que é uma democracia, não está em guerra nem é dos mais pobres do mundo. Nesse sentido, faço com certeza parte de uma minoria que, graças a gerações anteriores, já não teve de lutar contra e por muita coisa. Tive ainda a sorte de começar a ser repórter aos 18 anos, num tempo em que era muito mais fácil do que hoje ir ao fim da rua e ao fim do mundo, ou seja, muito além das nossas circunstâncias. Trinta anos depois, essa simples liberdade de movimento e de expressão não é tão simples assim, para muita gente, é mesmo muito mais rara. E poder ter noção disso também é um privilégio.

6. Nas redacções onde trabalhei, tive quase sempre directores (homens) e creio que nunca fui tratada de forma distinta por ser mulher. Que me lembre, jamais me disseram que não seria aconselhável ir para Sarajevo, Gaza ou Kandahar. Lugares como estes ajudaram-me a ver a que ponto era uma privilegiada pelo simples facto de poder estar ali. E em todos fiquei feliz de ser mulher, poder ver o que repórteres homens não poderiam, ou por não estarem para aí inclinados, ou por o universo das mulheres lhes estar vedado. Tive muita sorte, em geral e em particular, por poder transportar palavras, imagens e sons de mulheres (como de homens, naturalmente) que viveram e vivem o impensável, coisas que fazem uma burqa parecer o menor problema. Mas tudo isso também me ajudou a saber que não sei melhor do que qualquer mulher o que é bom para ela. A luta será sempre para que ninguém decida por ela, muito menos contra ela.

7. Quando fui morar para o Rio de Janeiro, tive embates com a persistência de um modelo feminino em meios que tinham todas as condições para já terem superado isso. Só o simples facto de usar óculos 100% do tempo, por exemplo quando saía à noite, era incomum, e assinalado. Tudo isso tem vindo a rebentar de alguma maneira, e um dos bons frutos das convulsões brasileiras dos últimos tempos foi a emergência de um feminismo activo, mestiço e socialmente transversal.

8. A minha alergia a modelos sempre incluiu a alergia a um tipo de feminismo totalitário, que certamente contribuiu para aos 18 anos eu me sentir especificamente pós-feminista, além de pós-ismos em geral. A ideia de ter de escolher entre ser feminista e pintar as unhas ou receber flores, tudo isso me parecia uma ganga opressiva. Eu não queria a dama-de-ferro, a dona-de-casa, nem nenhuma outra gaveta, não queria pouco, como diz a canção do Caetano (falo de quantidade e intensidade / bomba de hidrogênio / luxo para todos). Queria ser o que me apetecesse, usar o que me apetecesse, dormir com quem me apetecesse, sem ninguém, feminista ou machista, vir ditar modelos, ou eu ter de encaixar. E continuo a querer, rapar o cabelo ou ser a rainha da Prússia. Nunca me deu para casar de branco, parece-me tão improvável quanto tatuar o corpo todo, mas acho lindo o branco e a tatuagem em quem quiser. Estamos vivas para todas as vidas.

9. Acabo de ser madrinha num casamento em que a noiva ia de branco. Bem mais nova do que eu, nunca chegou a ser pós-feminista, é feminista desde que se lembra. Éramos cinco madrinhas, e olhando para nós vi cinco situações civis, digamos: uma casada há mais de 20 anos, e mãe; uma recém-separada de um casamento de 20 anos, e mãe; uma hetero em união de facto, e mãe; uma solteira tendencialmente hetero sem filhos; uma solteira lésbica com filhos “adoptados”. Claro que a escolha das cinco não teve nada a ver com esta variedade, foi um acaso. Mas que todas estivéssemos ali, num casamento de vestido branco, alianças e votos, com os filhos das anteriores uniões dos noivos, e dezenas de convidados que multiplicavam ainda mais as possibilidades, era uma espécie de utopia em 2016.

10. O que é ser feminista em 2016? Lutar contra o abuso e para manter todas as possibilidades em aberto, casar com homem, com mulher, com deus, com ninguém ou mudar de sexo. Para que a única resposta quanto ao que fica bem a uma mulher seja: o que lhe der na real gana.