Opinião

Omo, o branco mais branco

A história é contada por Umberto Eco no Diário Mínimo e é sobre a Europa num futuro muito longínquo, depois de uma grande explosão que destruiu grande parte da nossa civilização e cultura. Nesse futuro longínquo, os europeus tentam reconstruir, com base nalguns livros que escaparam à destruição, guardados em “criptobibliotecas”, o que era o mundo há muitos e muitos anos. Numas escavações feitas em território italiano descobrem um pacote com a inscrição “Omo (alteração do latim homo), o branco mais branco”. Com base no que tinham lido sobre as investigações genéticas e sobre o racismo na Europa, facilmente chegaram à conclusão óbvia de que o pacote do detergente Omo só poderia ser um fármaco destinado a melhorar a raça. Provavelmente, o último grito da prática racista da eugenia.

Recordar esta crónica divertida de Umberto Eco, numa altura em que o fenómeno do racismo e da xenofobia desponta por todo o lado, é útil para reflectirmos sobre que Europa e que valores queremos ter e deixar às gerações futuras. Há pouco mais de uma semana, uma mulher de 42 anos, com ascendência africana, colocou-se à frente de uma manifestação organizada pelo Movimento da Resistência Nórdica, onde 300 neonazis marchavam num protesto contra a política sueca de acolhimento dos refugiados.

Foi na pacata cidade de Borlänge, no centro da Suécia, que Tess Asplund assistia à marcha do grupo de extrema-direita quando ganhou coragem, não sabe bem como, e com os seus 50 quilos se colocou à frente do grupo de matulões racistas, levantando o braço e o punho num gesto que, conta ela, foi buscar ao seu herói, Nelson Mandela. Nesse preciso instante, o fotógrafo David Lagerlöf congela o momento para a posterioridade, numa imagem que correu o mundo e se tornou viral. De um lado, Tess Asplund, e, do outro, três neonazis, muito brancos e arianos, com um ar de quem já enfrascou uns três ou quatro pacotes de "Omo, branco mais branco".

No canto da fotografia de David Lagerlöf vê-se um polícia que, assim que viu Tess Asplund à frente da manifestação, correu para impedir que ela fosse linchada pelos neonazis. “O polícia disse que eu tinha de me afastar, já que a Suécia é um país democrático; logo, eles [os nazis] também têm direito a manifestar-se”, explicou Tess Asplund ao jornal britânico The Guardian. “Marchas como estas deviam ser banidas pelo Governo e todos devemos unir-nos contra a discriminação, o racismo e o ódio”, acrescentou Asplund. Foi nesse instante que senti algum orgulho por nós, cá em Portugal, termos uma Constituição que no seu Artigo 46.º, sobre liberdade de associação, diz que “não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”.

PÚBLICO -
Foto
David Lagerlöf/Expo

Mas a Suécia não é um país racista e intolerante. A Suécia é um país que, tal como Portugal, tem dez milhões de habitantes, mas que no ano passado acolheu 190 mil refugiados, quase vinte vezes mais do que o número total que nós nos propusemos a receber. É o país da Europa que mais imigrantes per capita acolheu e é o país de Olof Palme, forte opositor do apartheid e que num célebre discurso em 1965 disse que “as teorias raciais obscuras nunca encontraram terreno fértil na Suécia. Gostamos de nos ver a nós próprios como tendo uma mente aberta e tolerante”.

Tal como na fotografia de David Lagerlöf, há um outro lado da Suécia, mais sombrio. O lado dos episódios de violência nos centros de acolhimento e o lado da subida nas sondagens dos ultranacionalistas Democratas Suecos, actualmente a terceira força política no Parlamento, com 13% dos lugares. Um partido radical, e anti-imigração, já com força suficiente para travar a aprovação do Orçamento do Estado.

Um fenómeno que, infelizmente, começa a ser comum por esta Europa fora. Na Alemanha, depois das marchas anti-imigração do movimento Pegida em Dresden, agora o AfD está a subir nas sondagens, mesmo depois de responsáveis do partido terem defendido que os polícias nas fronteiras deveriam ter autorização para atirar a matar sobre os imigrantes, sejam homens, mulheres ou crianças. Uma ideia parecida com aquela do Aurora Dourada, que sugeriu que se colocassem redes eléctricas na fronteira da Grécia ou minas para fazer explodir os refugiados. Isto numa Europa onde a direita nacionalista governa ou ganha terreno na Hungria, Polónia, na Áustria ou na Holanda. Isto numa Europa onde a Frente Nacional já ganha eleições europeias em França, apesar de Jean-Marie Le Pen achar que as câmaras de gás que mataram milhões de judeus foram “um detalhe da guerra”.

Isto numa Europa com 500 milhões de habitantes, mas onde não há espaço para acolher um milhão de refugiados. Isto numa Europa que, a troco de soldo, deixa os refugiados amontoarem-se no quintal da Turquia, de onde chegam relatos de refugiados abatidos na fronteira turca e de crianças de oito anos violadas nos centros de asilo e cujos pais não apresentam queixa para não serem deportados para a Síria. Isto numa Europa onde volta e meia ainda somos positivamente surpreendidos por alguém que nos diz, "My name is Sadiq Khan and I’m the mayor of London!". E pensamos que ainda há esperança e que vale a pena prestar uma bonita homenagem a pessoas como Tess Asplund.