Em Lisboa, há um frigorífico que é de todos

Portugal já tem o primeiro frigorífico comunitário. O projecto tem sede em Lisboa e assenta num sistema de solidariedade dentro da própria comunidade.

Fotogaleria
A iniciativa inspirou-se em projectos internacionais DR
Fotogaleria
Luis Levy Lima, o artista convidado a pintar o frigorífico e Ruth Calvão, gestora do projecto DR
Fotogaleria
Os produtos frescos são a grande marca de distinção do projecto DR

Uma boa ideia. Às vezes basta isso. Foi através de uma fotografia que Ruth Calvão conheceu o projecto de um frigorífico comunitário brasileiro, um frigorífico pensado para pessoas carenciadas, cuja sobrevivência muitas vezes depende da solidariedade da própria comunidade. A partir daí, descobriu que a ideia já se tinha multiplicado por outros países e continentes, da Alemanha à Índia. Mas faltava colocar Portugal no mapa. Ruth, que pertence ao projecto Fábrica Alcântara-Mar que dá apoio social no bairro do Alvito, quis de imediato importar a iniciativa e até ligou para o Brasil para avaliar o sucesso desta. Agora, Lisboa recebe o primeiro frigorífico comunitário português

O objectivo é contribuir para a sustentabilidade de pessoas que vivem em situações de carência económica e alimentar, desde “imigrantes, desempregados, famílias destruturadas e idosos carenciados”. E funciona de uma maneira muito simples e directa: quem precisar, basta passar pelo frigorífico e retirar o que precisa, de uma forma fácil e anónima. Sem burocracias. Quem não precisar é convidado a contribuir. Para já o projecto conta com a parceria da Refood, que disponibilizará refeições preparadas diariamente. Além disso, distingue-se pela oferta dos alimentos frescos. Iogurtes, alfaces, tomates e muita fruta enchem as prateleiras no primeiro dia deste frigorífico que é para todos.

O electrodoméstico chegou pelas mãos de Maria Adelaide Palma, que vive há 80 anos no bairro, tantos quanto conta de vida. Numa conversa com Ruth. Maria Adelaide disponibilizou-se a entregar os dois frigoríficos que tinha lá por casa, o comunitário e o que servirá de apoio. “O meu filho comprou um frigorífico novo e eu pude ficar com o antigo dele. Um dos frigoríficos estava parado, mas o que está ali, pintado, era o que eu usava, ainda tive de o estar a descongelar antes de vir para aqui”, conta entre sorrisos. O seu frigorífico foi pintado por Luís Levy Lima pelo que é também uma obra de arte. Mas, mais do que isso, é também uma esperança para muitos moradores do bairro. Maria Adelaide não podia estar mais entusiasmada e nem a operação às cataratas na tarde anterior a afastou da inauguração do projecto. “Quis estar aqui hoje. Sabe muito bem poder ajudar. Não podemos simplesmente ignorar as necessidades”, desabafa.

“Há muita gente que apesar de terem muitas carências, têm muita vergonha”, aponta uma das moradoras, Maria Gomes, de 62 anos. “Aqui como conhecemos as pessoas e sabemos, mais ou menos, quem mais precisa e quem tem mais ou menos vergonha, sempre vamos ter com elas e convencemo-las a vir até aqui”, conta Maria. “Acredito que na próxima segunda-feira já venham cá muitas pessoas”, antecipa. 

Para Davide Amado, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, esta “é uma experiência que permite que a comunidade tenha uma resposta para a própria comunidade”. O autarca sublinha que o facto de o projecto “permitir que as pessoas venham sem precisar de uma declaração, de ser identificadas, ou de ter um acompanhamento de um técnico” vai responder de uma forma mais eficaz “à carência alimentar que é uma das maiores necessidades da comunidade”.

“Hoje em dia, e ainda bem que o assim é, há muitas respostas de associações. O problema é que a maior parte não tem bens perecíveis. A maior parte das pessoas não têm acesso a tudo o que é fruta e legumes, que são bens caros. Só a comidas preparadas”, diz Ruth. “Com este frigorífico, para além das refeições prontas, que serão oferecidas pela Refood, vamos ter a parte dos frescos, que vamos tentar coordenar com produtores, supermercados e mercearias”, explica a gestora do projecto. E, para já, tem razões para estar optimista em relação às contribuições. “Ainda hoje, houve uma senhora do Cartaxo que me telefonou, porque ouviu falar do projecto na rádio e disse que poderia trazer nêsperas ou tomates, uma vez que o irmão é produtor. Estava muito entusiasmada e disse que podia vir cá todos os fins-de-semana”, conta.  

“Acho que vai imperar o bom senso. Acredito que no princípio as pessoas tirarão um bocadinho mais porque se entusiasmam, mas depois haverá uma normalidade e uma regularização”, acredita.

O frigorífico, que ganhou cor através das tintas do artista plástico Luis Levy Lima, pode ser encontrado no edifício da Fábrica, sede da Cooperativa 2.ª Comuna, na rua da Cascalheira, no bairro do Alvito-Velho. Entre as 14h30 e as 19h, a porta estará aberta, para dar e receber.