O curso onde se forjou uma elite

Há 36 anos, o primeiro MBA em Portugal, na Universidade Nova de Lisboa, foi tal novidade que o Ministério da Educação não reconheceu a designação. O ritmo de trabalho imposto por professores que chegavam da norte-americana Wharton School é uma das memórias mais vivas dos alunos da sua primeira turma

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A frequência do primeiro curso de MBA era gratuita. O Governo dos EUA financiava as propinas Daniel Rocha

Aquele era um tempo diferente. O ensino superior em Portugal começava a alargar-se, mas as universidades novas ainda não tinham uma década de vida. Era 1980. A Revolução tinha acontecido seis anos antes e a entrada na União Europeia, que se ambicionava, estava a outro tanto tempo de distância. A economia dava os primeiros passos para a sua liberalização e sectores como o mercado de capitais ou as telecomunicações começavam a ser vistos como apostas para um futuro próximo. E foi neste cenário que a Universidade Nova de Lisboa criou o primeiro Master in Business Administration (MBA) do país. E na sua primeira turma forjou-se uma elite que viria a marcar a gestão das empresas nacionais nas décadas seguintes.

O MBA da Nova “foi dominante para suprir necessidades de empresas portuguesas, por ser único no país”, avalia José Neves Adelino, actual administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, que esteve ligado ao MBA da Nova durante 20 anos, primeiro como seu director, depois como presidente da Nova School of Business and Economics.

Das telecomunicações à construção civil, da banca ao mercado de capitais, que abriria poucos anos depois, muitos dos alunos do MBA da Universidade Nova de Lisboa saíram do curso directamente para a gestão de algumas das principais empresas nacionais. Da primeira turma, que frequentou o curso em 1980/81, saiu uma autêntica elite que viria a dominar a economia portuguesa nas décadas seguintes. Nesse primeiro ano, partilharam as salas da Faculdade de Economia da Nova António Carrapatoso, fundador da Telecel e depois presidente da Vodafone Portugal, Luís Todo Bom, que presidiu à Portugal Telecom (ver testemunho na página seguinte), António Castro Henriques, que liderou a construtora Soares da Costa ou Álvaro Portela, que esteve à frente da Sonae Sierra.

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Manuel Baganha, António Carrapatoso, António Castro Henriques e Álvaro Portela: lideraram a Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais, Vodafone Portugal, Soares da Costa e Sonae Sierra, respectivamente Adriano Miranda

Também Jorge Santos Silva, actual vice-presidente da Shell Internacional, João Freixa, que foi vice-presidente da Caixa e esteve na administração do BES e Manuel Cruz Baganha, que preside ao Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social fizeram parte dessa primeira turma. “O MBA foi um verdadeiro motor da economia nacional nas décadas de 1980 e 1990”, defende Luís Antunes, aluno da primeira turma do curso e autor do livro “MBA – A Elite da Gestão”, lançado em 2011. Nesse tempo, lembra, “era fácil arranjar emprego” para quem saía com o diploma do MBA na mão: “Estávamos num sítio a trabalhar e a receber telefonemas de outras empresas que nos queriam”.

O outro contributo “muito relevante” dos primeiros anos do programa foi o de renovar o ensino da gestão no país, valoriza José Neves Adelino. Muitos alunos que passaram pelo MBA da Nova vieram a lecionar e, em muitos casos, a fazer carreira mas universidades portuguesas. São disso exemplo Rosário Pinto Correia, que além de presidir ao conselho de administração da Topázio é professora na Católica, onde é colega de António Borges de Assunção, que também foi formado nesse primeiro ano do MBA, bem como de Minoo Farhangmehr, professora catedrática de Economia na Universidade do Minho, que fez parte dessa turma inaugural.

A primeira turma do MBA da Nova entrou na Faculdade de Economia em Setembro de 1980. O processo de criação do curso tinha começado a desenhar-se três anos antes, por iniciativa do professor de economia Alfredo de Sousa, que desde 1977 presidia à comissão instaladora da faculdade – que acabaria por dirigir entre 1979 e 1982. Também tinha sido este académico, já falecido, a criar o doutoramento em Economia na instituição, na mesma altura. Praticamente ao mesmo tempo, Alfredo de Sousa começa a procurar parcerias nos EUA e na Europa para lançar o primeiro MBA em Portugal, um processo em que viria a contar com a colaboração de Carlos Barral, um gestor que vinha da administração da Shell Portuguesa, e que viria a tornar-se o primeiro director daquele MBA.

“Foram dois visionários”, elogia Luís Antunes, aluno da primeira turma do curso. Alfredo de Sousa e Carlos Barral “perceberam que, mais tarde ou mais cedo, o país entraria na União Europeia e que íamos estar em competição com outros países. E para isso precisávamos de gestores”, considera este gestor, que hoje lidera a empresa de importação Ornaimpor. Em “MBA – A Elite da Gestão”, Luís Antunes conta a história do nascimento do curso na Nova de Lisboa e sublinha o papel que teriam para a economia portuguesa os alunos desses primeiros anos.

Nessa obra, Antunes explica que foram Sousa e Barral que estabeleceram a parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e a Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, na altura considerada a melhor escola de formação de executivos do mundo – ainda hoje uma das mais reputadas instituições da área, ocupando o 4º lugar no ranking internacional de MBA editado pelo jornal Financial Times – e que viria a revelar-se fundamental para o lançamento do curso. Fruto desse acordo, a instituição norte-americana cedia à Nova alguns dos seus professores, que ensinavam em Lisboa entre Maio e Julho, depois de terminado o ano lectivo na universidade de origem. Além disso, foi em colaboração com os professores estrangeiros que foi desenhado o plano de estudos do curso e a própria organização em três trimestres, entre Setembro e Julho, era inspirada no modelo norte-americano, facilitando a vinda desses professores.

O modelo de organização do ano lectivo não era a única importação dos EUA desses anos inaugurais do primeiro MBA português. Os exames das cadeiras de cada trimestre tinham lugar na semana imediatamente a seguir à conclusão de cada período lectivo, abdicando assim das habituais “férias de ponto” anteriores a cada período de avaliação. Não se estranha, por isso, que “a memória mais viva” que Luís Antunes tem dessa altura seja “a quantidade de trabalho” que teve pela frente. “Lembro-me de passar o Natal, a Páscoa e essas coisas todas sempre, sempre, sempre a estudar”, conta ao PÚBLICO.

Rosário Pinto Correia, uma das cinco mulheres inscritas nessa primeira turma, guarda uma memória semelhante. “Tínhamos a sensação de que aquilo nunca acabava”, conta. Entre os colegas, comentava-se a “combinação maquiavélica” dos vários docentes “para que não tivéssemos um minuto de sossego”. A carga de trabalho era “elevada” e os professores “exigentíssimos”, concorda outros dos colegas, Francisco Froes. Este antigo aluno do MBA da Nova de Lisboa recorda, porém, que apesar do nível de compromisso que era exigido aos alunos, os professores norte-americanos deram uma “benesse” num dos primeiros exames do curso, que apanhou toda a turma de surpresa: “Deram-nos um ‘extra credit’, mais duas perguntas no teste, para compensar alguma outra questão em que eventualmente falhássemos”. Não era algo que tivesse visto antes na universidade.

As aulas do MBA eram todas em inglês, algo que hoje se tornou comum em muitas universidades nacionais, mas que, à época, era também uma raridade. Os professores promoviam o trabalho individual dos alunos – a regra eram duas horas de estudo em casa por cada hora de aula – bem como os trabalhos de grupo. Mas até aí houve um choque cultural com o que eram os hábitos trazidos pelos professores norte-americanos. “Criava-se um grupo, mas no fim desse trabalho, o grupo era desfeito e tinha-se que criar um outro completamente diferente”, expõe Luís Antunes.

O MBA da Nova era de tal modo uma novidade que o próprio Ministério da Educação não aceitou a sua designação. O curso chamava-se, por isso, pós-graduação em Gestão de Empresas. Nesses primeiros anos, a sua frequência era inteiramente gratuita, dado que o Governo dos EUA financiava as propinas dos alunos – um apoio que se perdeu com a entrada de Portugal na União Europeia. Os estudantes inscritos tinham apenas que pagar mil escudos (cerca de 5 euros) por mês, para custear os livros e fotocópias necessários para complementar o trabalho nas aulas.

Apesar das facilidades dadas aos alunos, o processo de entrada no MBA da Nova era tudo menos simples. No primeiro ano, candidataram-se cerca de 400 pessoas. Apenas 40 foram seleccionadas – houve três que não chegaram ao final da formação. Além de uma licenciatura anterior, os alunos tinham que se submeter ao Graduate Management Admission Test (GMAT), uma prova oral em inglês que actualmente é comum como mecanismo de selecção dos alunos nas escolas de negócios, bem como apresentar uma carta de motivação e duas cartas de recomendação, que eram avaliadas de modo a traçar um perfil dos candidatos.

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Milhares de estudantes, ao longo dos anos, têm procurado o MBA Adriano Miranda

Os estudantes escolhidos para a turma inaugural do MBA da Universidade Nova vinham de diferentes áreas de formação inicial. Alguns, ainda poucos, tinham feito o curso de administração de empresas, a primeira licenciatura na área de gestão, que tinha sido lançada em 1972 pela Universidade Católica de Lisboa. Havia também estudantes com licenciaturas anteriores em de Economia, Direito ou mesmo História. Contudo, a esmagadora maioria dos inscritos eram engenheiros.

Era o caso de Luís Antunes, que se tinha formado em Engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e que trabalhava na altura na empresa que estava a construir as linhas de alta tensão que ligavam a barragem da Ermida à região de Coimbra. “Percebi que o meu trabalho não era propriamente fazer projectos, era dirigir pessoas, pagar contas, fazer cumprir timings. Daí ter sentido a necessidade de fazer uma formação ligada à área da gestão”, conta. Nesse tempo, lembra-se de ter tido formação em áreas que até então lhe eram desconhecidas, como os cursos de leitura rápida, que faziam parte do plano de estudos do MBA, e que o marcaram particularmente.

Também Francisco Froes, actualmente gestor da empresa de consultoria Premium Leadership, guarda muitos dos ensinamentos que recebeu no MBA da Nova de Lisboa, há 36 anos. “Saí com um nível de conhecimento, uma eficácia no uso das ferramentas de gestão e um ritmo de trabalho que ainda hoje me acompanham”, afirma ao PÚBLICO. Antes do MBA, tinha feito a licenciatura de gestão da Universidade Católica. Já tinha sentido um salto de exigência muito grande quando passou do liceu para a licenciatura. A mudança para o MBA “foi equivalente”, diz.

Na altura, começava a sentir a necessidade de aprofundar conhecimento e, como muitos dos seus colegas, tinha pensado em sair do país para ir fazer uma especialização no estrangeiro. A abertura do MBA da Nova foi, por isso, “uma bênção” para os que, como Francisco Froes, “queriam ir para o estrangeiro estudar e não podiam por razões familiares ou financeiras”.

Rosário Pinto Correia foi uma das poucas estudantes inscritas na turma que inaugurou o MBA em 1980 que não tinha experiência profissional anterior. Queria ter sido vulcanóloga e ainda entrou em Geografia, a porta de entrada para essa especialização, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboas. Mas corria o ano quente de 1975 e a faculdade estava “um bocadinho bagunçada”. Acabou por mudar-se para a Católica, onde fez Economia. Acaba a licenciatura, seguiu para o MBA da Nova.

A actual presidente do conselho de administração da empresa de joalharia Topázio considera que ”partilhar as salas de aula com pessoas muito mais experiência” do que a que tinha “foi muito importante” para a sua formação. Além disso, o MBA acrescentou-lhe “a necessidade de ter em conta as pessoas” na economia, algo que acabou por estar sempre presente na sua carreira, onde trabalhou nas áreas do marketing, da gestão do produto e da publicidade. Daí que Rosário Pinto Correia conclua que “se não tivesse feito o MBA, não era de certeza a pessoa” que é hoje em termos profissionais.

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