O mais antigo doutoramento para executivos que querem resolver problemas

Há dez anos que o ISCTE tem um programa para gestores e empresários que confere o grau de doutor. Em Lisboa e na China, a ideia é resolver questões concretas da vida das empresas.

Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio

Não é a formação mais comum e está longe do tipo de ofertas que hoje abundam nas escolas de gestão. A investigação académica não costuma ser uma prioridade para os executivos, mas há dez anos que o ISCTE criou um programa pensado para os gestores de topo que têm um problema específico e o querem resolver. Com o bónus de, no final, obterem o grau de doutor.

O Doctor Business Administration (DBA) tem turmas de, no máximo, dez alunos e quatro semanas de aulas por ano, com uma duração total de quatro anos. Além de Lisboa, também se replica na China, na Universidade de Ciência Electrónica e Tecnologia, em Chengdu, e na Universidade Médica do Sul, em Guangzhou. É um dos seis programas de cooperação reconhecidos pelo governo chinês. A parceria implica que os alunos chineses venham a Portugal defender a tese e que professores do ISCTE se desloquem ao país mais populoso do mundo para dar aulas.

O problema que Constantino Teixeira queria resolver não é de fácil resolução. O engenheiro da Valorsul, empresa responsável pelo tratamento e valorização dos resíduos urbanos produzidos nas regiões de Lisboa e Oeste, inscreveu-se no DBA para tentar encontrar soluções relacionadas com os “enormes desvios que se verificam nos projectos de investimento público em Portugal”. Algo que o preocupava “enquanto português”. Recebeu o grau de doutor com distinção no final de Abril depois de “horas, dias, semanas, meses muito árduos e de muito sacrifício pessoal”. A tese “Avaliação de Projectos de Investimento Público – Estudo de Caso no Sector dos Resíduos Urbanos em Portugal”, concluída enquanto mantinha a actividade profissional, serviu de base a um livro que vai publicar em breve, um guia prático para auditores públicos, decisores e avaliadores de projectos.

“Os grandes desvios financeiros verificados em projectos de investimento público realizados em Portugal nos últimos 20 anos, levados e concretizados pelo Estado português – e que se traduziram em significativos desvios de custos e prazos, cujos resultados contribuirão de forma relevante para onerar as gerações actuais e futuras – foram o grande factor de motivação do meu trabalho de investigação”, detalha. O resultado final, passa pela criação de um modelo para avaliar projectos e obras públicas "de cariz técnico-científico”, um contributo que Constantino Teixeira acredita poder ser útil ao país.

Ter o grau de doutor não era o factor mais importante, mas com o DBA o engenheiro da Valorsul foi convidado a dar formação na área, além de poder concorrer a cargos “de alta administração pública e privada”.

Resolver problemas

Nelson António, director do programa do ISCTE, sublinha que há uma diferença desta oferta face às restantes do mercado porque tudo gira à volta do problema “que atormenta o aluno”. “É um ensino muito personalizado. No doutoramento convencional, o aluno vai ler, ler e ler até encontrar um buraquinho, um gap na literatura académica que, depois, escolhe aprofundar. Aqui traz o problema com que se debate a partir da sua experiência, da sua empresa e, com a ajuda do orientador, procura a solução”, conta, sentado no seu gabinete na Unidade de Investigação em Gestão, no ISCTE, onde há vários cartazes em chinês colados na parede.

A intenção é usar instrumentos mais qualitativos e quantitativos, “pensar diferente” e pôr de lado as metodologias mais tradicionais usadas nas ciências naturais, assentes mais na “relação de causa e efeito”, continua o responsável.

A maior parte dos executivos que procuram esta formação ocupam cargos de decisão ou são donos do seu próprio negócio. E os problemas que depois exploram na tese vão desde a sobrevivência das empresas familiares, aos desafios da internacionalização. Há ainda quem tenha a ambição de dar algumas aulas na universidade. Na China – “um laboratório em termos de gestão” – as inquietações prendem-se também com a internacionalização e a motivação dos trabalhadores, conta o professor catedrático. Ainda na semana que passou Chen Jianxiong veio a Lisboa defender uma tese sobre estratégias na cadeia de abastecimento e Lan Zhengqiu debateu a eficiência na transmissão de informação entre o mercado da habitação e o mercado fundiário.

Lúcio Rapaz, membro da comissão executiva da Liga Portugal-China e coordenador das relações económicas e comerciais, também já entregou a tese dedicada à gestão estratégica na economia social. “Muitos dos meus amigos estavam a efectuar inscrições em MBA e com o conhecimento que tinha à data entendia que um programa de apenas nove meses não era o que ambicionava, uma vez que já tinha feito o mestrado de dois anos”, conta. A intenção não era ter o grau de doutor mas “saber-fazer”, algo que o programa oferece, diz.

“Infelizmente verifico que em Portugal os jovens não apostam na sua formação e os menos jovens estão de tal forma desmotivados que voltar aos bancos da escola não é uma prioridade. Considero que, quando conseguimos conciliar os ensinamentos académicos com a prática laboral devemos apostar muito na nossa formação profissional”, defende. Para seguir este caminho, Lúcio Rapaz teve de fazer um empréstimo bancário para pagar propinas dos programas que frequentou – além do DBA, que custa um mínimo de 21 mil euros se for concluído em três anos, está a fazer um pós-doutoramento em fusões e aquisições na Faculdade de Economia do Porto. “É um investimento e não poderia aceitar o que me foi proposto por uma reputada consultora, nomeadamente ficar preso durante três anos à entidade em troca de liquidarem as propinas”, exemplifica.

Crise trava inscrições

São as empresas que, regra geral, pagam a formação aos gestores. Mas num contexto de crise, Nelson António admite que o número de inscrições caiu. “As empresas deixaram de pagar”, disse. Já na China, o cenário é outro. As turmas são maiores (25 alunos) e a procura é grande. A colaboração do ISCTE com universidades chinesas já é antiga e o próprio DBA acabou por captar alunos para programas de mestrado, nomeadamente através de uma parceira com a Universidade Médica do Sul, em Guangzhou.

No final do seu primeiro ano, Fernando Soares (que foi presidente para a América do Sul do grupo SEB, dono de marcas como a Moulinex ou a Krups), diz que a experiência “tem sido gratificante e desafiadora”. “A participação neste programa permite-me ter acesso ao estado da arte de conhecimento em determinadas áreas, potenciando novas ideias sobre os temas em estudo”, descreve.

A ideia do gestor é fazer investigação aplicada à área em que se especializou: os mercados emergentes. Embora ainda no início, a intenção é responder à pergunta “como inovar nos mercados emergentes?” Descreve que a“motivação para frequentar este programa é, modestamente, contribuir para a construção de novas ideias, aproveitando a minha experiência profissional”, descreve.

Para o ISCTE, o modelo de turmas pequenas e acompanhamento personalizado é para manter. O programa dá lucro à escola.